No dia 04/11, Martin Scorsese, em um artigo publicado no The New York Times em resposta às diversas críticas recebidas por inquestionáveis fãs dos filmes do Marvel Studios, após dizer em entrevista que filmes da Marvel não são cinema, diz: “Nos últimos 20 anos, como sabemos, a indústria cinematográfica mudou de várias formas. Mas a mudança mais assustadora aconteceu na calada da noite: a eliminação gradual, mas constante do risco. Hoje, muitos filmes são perfeitos produtos manufaturados para consumo imediato. Muitos deles são bem feitos por equipes com indivíduos talentosos. Ainda assim, eles carecem de algo essencial para o cinema: a visão unificadora de um artista. Porque, é claro, o artista é o fator com mais risco. ” (Tradução livre). Invasão ao Serviço Secreto, terceiro da série de filmes Fallen (“Invasão à Casa Branca”, de 2013, e “Invasão à Londres”, de 2016), é uma grande expressão da mediocridade do cinema hollywoodiano de produção em massa.

Não há necessidade de ter visto os dois filmes anteriores para entender o terceiro capítulo desta franquia. Todos os três são idênticos e sequer se esforçam para construir ou manter uma continuidade entre si. O roteiro dos três filmes segue, veja bem, um roteiro: entre uma tragédia no início que ameaça a existência da civilização ocidental causada, obviamente, por nações não-ocidentais e um final exaltando a coragem e a superação dos americanos, representados pelo super-herói/super-soldado/homem-branco-médio-fiel-que-ama-sua-família/agente secreto Mike Banning (Gerard Butler), há muita ação desinteressante, diálogos toscos, inimigos infiltrados no governo e tentativas falhas de humanizar os personagens.

Em Invasão à Casa Branca há um ataque norte-coreano em Washington cujo objetivo é obter acesso aos códigos do sistema de defesa de ataques nucleares dos EUA para dizimar milhões de americanos. Em Invasão à Londres um traficante de armas paquistanês quer vingar a morte de sua filha pelo exército americano assassinando os líderes das principais potências do mundo (o único que escapa, que surpresa, é o presidente dos EUA, Benjamin Asher (Aaron Eckhart). Por fim, em Invasão ao Serviço Secreto, o mesmo super-herói Mike Banning é acusado de assassinar o presidente Allan Trumbull (Morgan Freeman), supostamente aliado com russos e com 10 milhões de dólares escondidos na deep web. Todas essas premissas, apesar de sutilmente diferentes, são carregadas da necessidade de criar um inimigo externo, mesmo que suas ações sequer estejam pautadas na realidade, de uma forma tosca, preguiçosa e até irresponsável. Geopoliticamente e narrativamente, os antagonistas dos três filmes são falsos e forçados.

Depois da acusação, Mike foge de Washington e, num dado momento, encontra com seu pai numa floresta. Clay Banning (Nick Nolte), o único personagem suficientemente interessante do filme, o é por motivos errados. Há a tentativa de sensibilizar o espectador com uma história de abandono e de traumas de guerra, mas tudo é tão mal feito que chega a ser cômico. Seu pai, um conspiracionista que, na verdade, dialoga com o espectador sobre questões políticas atuais, é o único personagem que é autoconsciente dessa narrativa. E talvez esse seja o problema central do filme: ele se leva a sério. E por se levar a sério ele apresenta diversos problemas.

Como se a premissa não bastasse, outros aspectos são igualmente ruins. No geral, é um filme feio. A câmera é indecisa sobre o que, por que e como filmar, gerando uma mistura de planos e ângulos que mais confundem que dão sentido à narrativa. Para ajudar, nas cenas de ação os efeitos especiais são mal utilizados e as coreografias são repetitivas e chatas, colaborando para uma confusão estética nessas cenas. As atuações funcionam no universo do filme, Butler entende seu papel como personagem raso e não faz nada mais para melhorá-lo e Freeman e Nick Nolte fazem um bom trabalho com o que têm em mãos, o primeiro mantendo uma serenidade típica de presidentes americanos no cinema e o segundo caracterizando muito bem um velho estranho que busca o perdão de seu filho. Uma pena que este não é um filme autoconsciente de sua mediocridade e comicidade não intencional, poderia ter sido mais divertido, mas é apenas entediante e estúpido.

É triste pensar que toda essa trilogia rendeu milhões de dólares simplesmente fazendo o mesmo filme três vezes. O risco, que Scorsese defende em seu texto, é essencial para trazer novas narrativas, perspectivas, personagens, emoções. Isso não significa que filmes como esse não sejam cinema, mas que sua função é simplesmente cumprir tabela, fornecer um produto para um mercado que aceita cada vez menos inovações e cinema autoral, substituídos por franquias padronizadas que, mais uma vez, podem conter filmes bons e criativos, mas que seguem uma lógica dominada por corporações bilionárias que dominam o mercado, marginalizando cada vez mais o cinema plural, tornando os cinemas e o próprio cinema como arte cada vez menos democráticos.