Não mais é uma surpresa a relação obsessiva que as pessoas mantém, atualmente, com seus celulares. Seja no sofá, na cama ou no vaso sanitário, uma grande parcela da população mantém, diariamente, seus olhos em meio às pequenas letras destes dispositivos. Quando não o celular, a televisão ou o notebook, se tornando factual: poucas pessoas, hoje, conseguem se virar sem as tecnologias digitais.

Em 2013, o icônico ator Joaquin Phoenix deu vida ao personagem Theodoro, um solitário homem que acabou desenvolvendo uma relação um tanto quanto perturbada com seu sistema operacional, trama marcante do filme Her (ou “Ela”), vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original. Em 2020, chega aos cinemas um filme de comédia com a mesma premissa – a qual gera inevitáveis comparações –, se esforçando até demais para parodiar seu semelhante lançado sete anos antes. Jexi – Um Celular Sem Filtro mostra uma realidade onde um sistema operacional conquista autonomia e uma mente própria, desenvolvendo uma relação ainda mais perturbada com seu dono, mas o que demarca a mudança cômica, aqui, é que o celular, Jexi, tem um caráter um tanto questionável.

Seja por meio de palavrões, ignorando as ordens do protagonista interpretado por Adam Devine, ou até mesmo colocando-o em situações embaraçosas propositalmente, o sistema operacional Jexi tem somente um objetivo: melhorar a vida de Phil. Só que, infelizmente – ou felizmente, para o espectador – a inteligência artificial que dá nome ao filme não tem muitas noções da vida humana, o que torna suas tentativas um tanto desastrosas. A partir do segundo ato, o besteirol pega a brilhante premissa de Spike Jonze, muito bem executada em Her, e a inverte de forma bizarra, com o questionamento: “E se fosse a tecnologia se apaixonasse pelo homem?

Jexi – Um Celular Sem Filtro, claramente, não é um filme a ser levado a sério: é uma comédia inteligente, beirando o besteirol, com piadas capazes de trazer diversas gargalhadas de seu público – mas não de todos, até porque nem todos apreciam a arte da comédia escrachada, que se aproxima do tosco assim como do nonsense.  Mas, não bastasse ser um gênero desvalorizado e muito deixado de lado, o filme dirigido por Jon Lucas e Scott Moore se esforça desenfreadamente para ser, de certa forma, relevante – mas não é.

Desde o começo do longa, tenta trazer uma crítica social ao uso descontrolado da internet – mais especificamente do celular –, indagando a extrema dependência que o ser humano adquiriu destes pequenos aparelhos. Com tamanhas piadas tão ruins que acabam por se tornar engraçadas, entretanto, a mínima relevância dada ao roteiro se esvai. Não só tenta ser um filme crítico, mas se esforça demais nessa tentativa, e tal exagero bate de frente com todos os absurdos cômicos presentes na obra, desbalanceando o que poderia, muito bem, ter sido mais um desmedido besteirol americano de sucesso, como Se Beber Não Case, filme do mesmo diretor.

Jexi – Um Celular Sem Filtro, ainda assim, consegue ser o tipo de comédia que fará chover críticas negativas ao redor da internet, mas a tamanha quantidade de besteiras e tosquices apresentadas em tela, certamente, conseguem compor um besteirol que mira no ridículo e alcança as risadas de seus espectadores, assim como qualquer besteirol por aí. Comediantes natos como Adam Devine, Wanda Sykes, Michael Peña, e Ron Funches – uns mais conhecidos que outros, mas ainda assim bastante talentosos – trazem ao filme o tom essencial para seu universo narrativo: um deboche natural que torna as situações cotidianas hilárias e sem sentido. Se não pelo seu elenco e por parte de sua proposta, a paródia proposta seria um grande fracasso, mas, por causa disso, será apenas um fracasso mediano, proposital, que se reconhece como tal e compra essa ideia, o que faz com que a maioria dos besteiróis por aí traga dez gigabytes de críticas negativas, mas, ao mesmo tempo, completa seu espaço de armazenamento com risadas e gargalhadas.

O filme, portanto, se mantém pelos seus atores, pelo exagero de sua narrativa e, a cima de tudo, por se reconhecer como beirando o ridículo. Em alguns momentos, entretanto, se leva a sério demais, clamando por um produto final reflexivo e relevante, e se esforçando exageradamente para ser uma obra crítica, enquanto tais pontos seriam muito mais aproveitados se tivessem sido mantidos nas entrelinhas, apresentados de formas mais suaves e não tão diretas. Jexi – Um Celular Sem Filtro, portanto, está destinado a trazer resmungos e olhares tortos de diversos espectadores, o que é esperado de qualquer besteirol norte-americano, de “Super-Herói: O Filme” até “Todo Mundo em Pânico”, principalmente por ser um gênero que não agrada a todos. Mas, ainda assim, Jon Lucas e Scott Moore trazem uma obra divertida, que certamente consegue gerar gargalhadas daqueles com poucas expectativa e que, ao fim, buscam apenas um entretenimento raso, mas confortável.