Se existe um diretor na história do cinema capaz de trabalhar com a imaginação do espectador de maneira tão rica e convincente, este cara é Steven Spielberg. E após um bom tempo sem lançar um grande filme de fantasia – já que “Indiana Jones 4”, “As Aventuras de Tintim” e “O Bom Gigante Amigo” não agradaram tanto crítica e público -, Spielberg retorna aos nossos cinemas com a adaptação da obra de Ernest Cline, “Jogador Nº 1”. E como é bom ter o mestre de volta a boa forma.

O filme se passa em um futuro não muito distante, no qual a população sofre com pobreza e falta de estrutura e a humanidade acabou se rendendo a um mundo virtual chamado OASIS para fugir da triste realidade que se encontram. Lá podem desfrutar de alguma felicidade na vida. Eis que o gênio criador do universo, James Halliday (Mark Rylance, lembrando muito o Willy Wonka de Gene Wilder), morre e deixa uma surpresa para os usuários do programa: ele espalhou três chaves pelo universo e o primeiro que as encontrar herdará sua imensa fortuna e total controle do lugar. É claro que isso atrai a atenção de todos, desde os mais necessitados até grandes corporações. Que os jogos comecem!

Referências… Referências por todos os lugares

Talvez você seja como eu e já esteja um pouco cansado das inúmeras distopias que inundaram o cinema nos últimos anos, apenas perdendo espaço com a iminente ascensão dos filmes de super-heróis. Após tantos “Jogos Vorazes”, “Divergentes”, “Maze Runners” pouco memoráveis, eu realmente não esperava muito de mais uma adaptação literária deste gênero, mas não me dei conta de que quem estava no comando era simplesmente a pessoa responsável por grandes aventuras e fantasias da sétima arte, como “Jurassic Park”, “Indiana Jones”, “E.T.” e etc. E eu deveria ter dado mais crédito, pois em “Jogador Nº 1”, Spielberg usa toda sua experiência e qualidade como realizador para entregar ao espectador uma verdadeira ode à cultura pop. E ele sabe atingir todas as idades como poucos…

Como mencionei, no OASIS as pessoas buscam fugir da realidade e podem ser quem quiserem, absolutamente qualquer um no universo. Isso possibilita ao filme uma série de homenagens. Apesar de mostrar grande apreço por referências nostálgicas dos anos 80, como Mad Max, De Volta Para o Futuro, Akira e outros, o diretor consegue equilibrar perfeitamente sua homenagem aos heróis do passado com tecnologias já presentes no nosso cotidiano (como os óculos VR, de realidade virtual), além de várias referências modernas, como Halo, Minecraft e muitos outros jogos, filmes, personagens e músicas… A lista de easter eggs pelo longa é imensa. Sem falar nas surpresas – que diferem do livro –, e que obviamente não irei mencionar aqui.

Após cinco anos da morte de Halliday e do desafio lançado, nenhum dos jogadores havia conseguido desvendar sequer a primeira pista, até que Wade Watts (Tye Sheridan), um garoto pobre que vive de favor com sua tia, encontra a primeira chave. Ele conta a seus amigos Aech (Lena Waithe), Sho (Philip Zhao) e Daito (Win Morisaki), além da recém conhecida Art3mis (Olivia Cooke), como conseguiu para que juntos tentem encontrar as chaves restantes. No entanto, Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn), líder da corporação IOI (Innovative Online Industries), monta uma equipe de especialistas em cultura nerd para trabalhar arduamente na solução dos enigmas e assim, tomar o controle total da OASIS. Desta forma, Spielberg conduz essa “caçada ao tesouro” em ritmo alucinante, com sequências de ação insanas, maximizadas por efeitos visuais absolutamente incríveis. Certamente é um daqueles filmes para serem vistos na melhor sala e resolução possíveis (recomendo IMAX), pois o deleite visual é impressionante.

 

 

Uma utopia dentro de uma distopia

Você pode estar pensando que “Jogador Nº 1” se sustenta apenas pelo poder da nostalgia, mas particularmente, eu enxergo um conteúdo muito interessante dentro dessa “casca” de entretenimento e referências que o filme entrega ao espectador. Uma das primeiras frases que me chamou a atenção foi a narração de Wade, algo como: “Hoje, as pessoas buscam sobreviver aos problemas ao invés de resolvê-los”. Por isso mergulham nesse mundo de escapismo. Se pararmos bem para pensar, em via de regra já é mais ou menos o que fazemos indo ao cinema, em jogos eletrônicos, ou até mesmo nas redes sociais – quem nunca deu unfollow em alguém porque não concordou com alguma opinião só para ficar confortável na sua bolha? Mas é claro que há um grande risco nisso.

Vale lembrar que tanto utopias quanto distopias são perigosas. Vejamos um trecho do capítulo 19 do livro: “Então eu parei e passei um momento olhando para o meu equipamento de imersão. Eu fiquei muito orgulhoso de todo o seu hardware de alta tecnologia quando o comprei pela primeira vez. Mas ao longo dos últimos meses, tinha visto o que meu equipamento na verdade era: uma engenhoca elaborada para enganar meus sentidos, para permitir que eu vivesse em um mundo que não existia. Cada componente do meu equipamento era uma barra na cela onde eu havia me aprisionado voluntariamente”.

Assim como em “Matrix”, um mundo onde há fome, pobreza, crises energéticas, guerras e a desigualdade nunca foi tão gritante, é compreensível que as pessoas busquem formas de escapar dessa realidade cruel. Por isso o prêmio se torna tão atrativo, pois o dinheiro faria o vencedor mudar completamente de status no mundo real, resolvendo assim todos os seus problemas. No entanto, há mais em jogo. O livro continua:

“De pé ali, sob as lâmpadas fluorescentes do meu minúsculo apartamento de um cômodo, não havia como escapar da verdade. Na vida real, eu não passava de um eremita antissocial. Um recluso. Um nerd obcecado por cultura pop […] sem amigos reais, família ou contato humano genuíno. Eu era apenas mais uma triste alma solitária perdida, perdendo sua vida em um videogame glorificado”.

“Mas não no OASIS. Lá eu era o grande Parzival. As pessoas pediam meu autógrafo. Eu tinha um fã-clube. Vários, na verdade. As pessoas me admiravam e se importavam comigo. […] eu era um ícone da cultura pop, uma estrela do rock. […] eu era uma lenda. Não, um deus”.

Wade entende isso, mas não consegue mudar seu comportamento, ele está muito imerso para conseguir mudar algo. Ou seja, muitas vezes, tentando escapar de uma prisão, sem perceber, acabamos criando outra. “Jogador Nº 1” (o filme) pega leve nessa “lição” – é bem menos filosófico e mais focado na diversão do que o mencionado sci-fi das irmãs Wachowski (que eu adoro) -, mas também acerta ao mostrar que conexões virtuais são importantes, porém é preciso encontrar felicidade, amizades e amor de verdade, vínculos reais. Como ensinou o próprio Halliday, no final das contas, “apenas a realidade é real”.

Apelar para a nostalgia é golpe baixo?

É claro que envolvimento e gosto são coisas muito subjetivas, mas eu acredito que algumas pessoas focam tanto em definir se um filme é “bom” ou “ruim” e esquecem do elemento diversão, que também faz parte do cinema. Tudo bem que Spielberg tem várias cartas na manga, que são as incontáveis referências (muitas delas surpreendentes), que pegam o espectador de guarda baixa. Mas se aproveitar disso não quer necessariamente dizer que ele não tinha um bom roteiro ou narrativa bem amarrada para contar sua história, e apelou para a nostalgia apenas para “disfarçar”.

Eu acredito que ele quis sim homenagear, mas principalmente, homenagear o espectador que ama a magia do cinema e as infinitas possibilidades que ele proporciona. Não é exagero, mas se lembram da cena onde o crítico gastronômico em “Ratatouille” degusta um prato que o faz lembrar da felicidade esquecida na sua infância? Pois bem, não apenas em um momento (especialmente em um, mas também em outros) eu me senti da mesma forma. E por ser um sentimento tão espontâneo, é uma gratificação que não dá para descrever em palavras. Antes de taxar o filme de apelativo, eu prefiro pensar naquele garoto ou garota indo ao cinema pela primeira vez e se apaixonando pelo cinema e por essa aventura, assim como aconteceu comigo um dia.

Considerações Finais

Convém dizer que “Jogador Nº 1” tem alguns pontos a desejar. A história é muito simples (alguns eventos parecem abandonados por conveniência) e o desenvolvimento dos personagens fica “encoberto” por tantos elementos visuais e sequências grandiosas que chamam mais a atenção. Mas há uma história com motivações coerentes e uma jornada do herói bem contada por trás de tudo. Apoiada pela incrível trilha sonora de Alan Silvestri (que revive temas de algumas obras homenageadas pelo filme, incluindo seu “De Volta Para o Futuro”), é uma fantasia apaixonante cheia de humor e músicas pop/rock, um equilíbrio perfeito entre nostalgia e tecnologia. Não perca o senso de diversão e aproveite esse futuro clássico do cinema. E se eu estiver certo quanto a isso, apenas o tempo nos dirá.

 E você, já assistiu ou está ansioso para ver? Concorda ou discorda da análise? Deixe seu comentário ou crítica (educadamente) e até a próxima!

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