Honrar com a palavra é uma atitude que muito conversa com o cinema. Ainda mais quando o mesmo trata de uma franquia tão encantadora quanto John Wick. Apesar de seu roteiro simplório, De Volta ao Jogo (2014) surpreende positivamente seus espectadores com cenas de ação únicas dentro de uma trama fechada em seu núcleo centrado e misterioso. Um Novo Dia Para Matar (2017), então, sobe mais um degrau de qualidade, conseguindo expandir um pouco mais de seu universo, estabelecendo um roteiro mais consistente – mas ainda muito simples – e com cenas de ação tecnicamente superiores. Parabellum, enfim, honra com sua palavra ao entregar mais um degrau acima em todos os sentidos. Entretanto, consegue ir além.

Devido a conclusão do segundo longa, era de se esperar que a direção de Chad Stahelski evoluísse com ambientes mais abertos e fosse além do centro de todo o núcleo do Continental. Assim, o longa consegue estabelecer esse avanço da melhor maneira possível ao construir não só uma violência artística que só John Wick consegue demonstrar, como expandir um pouco mais do universo, entregando mais informações sobre o próprio protagonista e também do grande cerne de toda a ambientação que é a Alta Cúpula.

Mesmo que haja a perseguição escolhida atrás do personagem, o roteiro de Stahelski e Derek Kolstad não esquece de toda a essência estabelecida e desenvolve a história no contexto da palavra. Assim, os dois conseguem trabalhar o respeito que existe entre todos aqueles que foram apresentados, tornando suas brilhantes cenas de ação ainda mais justificáveis, não transformando-as em escolhas gratuitas para engrandecer o visual. É neste principal quesito que Parabellum abrilhanta a franquia. Ainda mais com a escolha do roteiro em introduzir o núcleo asiático do universo, que conversa perfeitamente com todo o conceito do longa, já que a cultura envolve o respeito e o cumprimento da palavra. Além de resultar nos melhores combates, envolvendo katanas ao invés de M17s.

Há uma variação de violência que enchem os olhos do espectador de uma maneira única. Stahelski não economiza em criatividade para estabelecer lutas corpo a corpo lindamente coreografadas e muito claras em tela, dando ainda mais mérito para a direção do americano, que trabalha com constantes planos longos e sequenciais para colocar o espectador ainda mais próximo daquilo, e o melhor, conseguir desfrutar de tudo sem perder nada com cortes secos e rápidos como ficou marcada a franquia Bourne (2002-2016), por exemplo.

Depois de Um Novo Dia Para Matar era difícil de imaginar como John Wick poderia se renovar em suas cenas de ação, mas Stahelski constrói situações que vão além do esperado e melhora tudo o que foi construído anteriormente. Apesar de aqui não haver a “cena do espelho”, como no anterior, Parabellum entrega outros grandes momentos que compensam, como um combate em plena perseguição de moto e cavalo, além de uma dinâmica luta com cachorros.

Neste ponto, é curioso ver como Stahelski e Kolstad abraçaram o conceito de seu universo para brincar com isso, como ao criar situações com a personagem de Halle Berry e seus dois pastores alemão. E é justamente com os dois que este terceiro filme abrilhanta ainda mais, já que Stahelski aperfeiçoa todo o seu plano de combate para criar uma parceria entre humanos e animais, e que mantém seu sentido. Desde o primeiro longa, vemos Wick com estratégia de combate, e aqui, a câmera de Stahelski dança durante suas cenas para colocar o espectador em conhecimento de tudo. No então combate com a presença dos cães e Halle, o cineasta entrega com maestria a demonstração de estratégia ao fazer a personagem focar em um alvo, enquanto seus animais agem contra outros.

Porém, o cineasta não endeusa os bichos e os fazem matarem logo com uma mordida. Os mesmos funcionam como atordoamento, para a então conclusão de Halle. São justamente esses pequenos detalhes que tornam tudo em tela ainda mais crível.

George Miller é outro que realizou isso de uma forma brilhante em Mad Max – Estrada da Fúria (2015). Inclusive, é possível enxergar semelhanças no filme de Miller com a trilogia Wick, já que os dois apresentam roteiros simples e fechados em seu pequeno universo, enquanto as cenas de ação são o verdadeiro foco da narrativa, porém dentro do sentido. A principal diferença nessa comparação está na expansão, já que Miller conseguiu fazer isso em um único filme, enquanto John Wick chegou perto do mesmo nível em três.

Por sua vez, o longa oferece momentos mínimos, porém, decepcionantes. Não há nada que estrague a experiência técnica que é Parabellum, tanto de direção quanto na parte sonora, entretanto, gera um pequeno incômodo. A questão aqui é o uso de efeitos visuais. Lembrando bastante o primeiro Deadpool (2016), Parabellum oferece curtos momentos claros de uma computação gráfica mais limitada e menos encantadora quanto as cenas mais práticas.

Outra escolha questionável está no humor. Os dois anteriores traziam tons cômicos por consequência da situação, e que, algumas vezes, nem aparentava ser proposital. Por outro lado, aqui o humor é construído de maneira voluntária, tanto em diálogos quanto na direção. Por mais que o humor traga leveza para momentos pesados, não houve um equilíbrio na escolha de Stahelski e Kolstad e ela mai quebra os momentos do que os complementa.

Ainda assim, pequenos detalhes não estragam a experiência que é John Wick 3: Parabellum. Apesar de não ser uma conclusão de jornada – dando uma abertura para um já confirmado quarto filme – é fácil se preparar para mais horas da violência artística dirigida por Stahelski. Afinal, se vis pacem, parabellum (“se você quer paz, prepare-se para a guerra”).