Quando se fala sobre a guerra na Síria, inúmeras imagens adentram na cabeça dos mais leigos em relação ao tema: um acúmulo de explosões, tiros e sangue – facilmente imagináveis por um público acostumado com a breve ação do audiovisual – estes seguidos por dor, fome e sofrimento, fatores intangíveis que internalizam o conflito nos milhões de civis provenientes da região. A realidade, entretanto, se mostra infinitamente pior do que o meramente imaginável: em The Cave, o espectador é convidado a presenciar com seus próprios olhos o claro contraste entre o que há de melhor e pior no ser humano, tendo uma visão crua e real desse conflito que passa na boca de muitos ao redor do mundo, mesmo que a grande maioria não tenha sequer uma real noção da catástrofe ali presente.

O documentário, que concorre ao Oscar 2020, é dirigido por Firas Fayyad e acompanha um hospital subterrâneo na região de Goutha, na Síria. No centro, temos Amani Ballour, uma pediatra que dirige as operações da instituição, sendo obrigada a lutar constantemente contra uma cultura machista que tenta deslegitimar seu papel de poder naquele local. A contextualização do filme se inicia com esta forte representação do preconceito de gênero cravado naquela sociedade, onde suas capacidades – assim como a de outras personagens femininas – são constantemente questionadas, mesmo dedicando sua vida àquela causa.

Bill Nichols, no atemporal e famoso livro Introdução Documentário, ressalta o método “mosca na parede”, o qual se relaciona fortemente com a narrativa proposta em The Cave, marcando o modo observativo. Fayyad segue os acontecimentos sem intromissão, dando ao público a chance de vivenciar o que acontece no hospital de forma concreta e, ao mesmo tempo, desconcertante, como se fossem meros visitantes seguindo aquelas pessoas e consumindo o que ainda lhes resta de privacidade.

Assim, o longa-metragem documental é extremamente forte, não poupando cenas repletas de lágrimas e desespero – principalmente dos personagens, mas possivelmente também dos espectadores mais empáticos. Desde crianças, aos berros, cobertas com o próprio sangue, até mães sofrendo pela repentina perda de seus filhos, o sofrimento de muitos se devaneia pela pequena chance de salvação proveniente dos esforços dos poucos médicos que ainda continuam de pé.

Ressalta-se que cada pessoa ali, ocupantes das velhas macas do hospital, são meros civis, vítimas de grupos distintos que, covardemente, bombardeiam aqueles que lhe servem como bode expiatório. Em determinada cena, os médicos perguntam para uma pequena garota, ferida, o que estava fazendo no meio às perigosas ruas, quando deveria estar segura – como se existisse a mínima noção de segurança naquela cidade – em casa, e sua resposta, em meio à dor, já demonstra o que o público já sabia: diz que estava buscando água para sua família, pois já estavam há muito tempo sem. A visão de Fayyad, portanto, fica mais do que clara: a guerra é, nada mais e nada menos, do que muitos inocentes sofrendo pelas ações de alguns.

The Cave, assim, consegue mostrar ao espectador tudo aquilo que propõe, trazendo ao mundo um assunto que muitas vezes fica apenas no imaginário das pessoas. Por sua narrativa, muitos poderiam facilmente associar a obra à ficção, mas vai muito além disso, devastando seu público com o fato de que cada acontecimento ali apresentado, infelizmente, é tão real quanto poderia ser, desde as explosões que marcam os sons de fundo, até a tamanha familiaridade de seus personagens com a possível vinda de mísseis em suas direções.

Em determinado momento do longa, um dos médicos comenta que, estando ali e vivenciando tudo aquilo, eles não tinham sequer opção: não escolhiam estar ali, mas aquele era seu lugar. Em determinado momento, inclusive, se questionam, em meio às próprias lágrimas, se realmente estão fazendo alguma diferença ali, mas cada alma salva, em meio à centenas de outras perdidas, já é um grande sucesso naquela constante guerra que não possui um final à vista. O heroísmo vindouro das ações destes, assim, é a única coisa que propicia um mínimo de esperança acerca de todo o mau presente naquela cidade, mesmo em condições precárias, sem sequer ter anestesia para os procedimentos e sofrendo de uma extrema carência de medicamentos – para demonstrar tamanha virtude em meio ao caos, temos a primeira fala da doutora Amani no longa: “vamos continuar sorrindo para as crianças“.

Portanto, não sendo para qualquer um, The Cave é uma obra extremamente forte sobre um local de esperança em meio ao desespero; uma pequena brecha de luz em meio à escuridão. O público é questionado sobre seus conhecimentos acerca deste tão comentado tema – mesmo que muitas vezes, no dia a dia, de forma superficial –, fazendo com que vivencie, durante duas horas, toda a aflição vindoura desta realidade muitas vezes esquecida por aqueles privilegiados por, simplesmente, não estarem ali. Vale lembrar que, tanto aqueles médicos, quanto aquelas crianças, aqueles pais e mães desoladas e aquelas vidas destruídas, não tem a chance de simplesmente chegar aos créditos e voltar ao conforto de seus lares. Fayyad traz consigo uma obra mais assustadora, destrutiva e pavorosa do que muitos filmes de terror por aí, justamente pela própria noção de horror apresentada ser vindoura da mais pura realidade – você pode até não ver, mas cada gota de sangue e lágrima continuam a cair logo ali, do outro lado do mundo.

The Cave será reprisado no National Geographic nas seguintes datas e horários: 05 de fevereiro, às 13h20; 07 de fevereiro, às 21h45; 08 de fevereiro, às 23h10; e 09 de fevereiro, às 18h00.