Nós, como público, estamos acostumados a acompanhar histórias clássicas, com jornadas já pré-determinadas e dentro do padrão daquilo conhecido como “jornada do herói”. Por sua vez, cineastas procuram se desvirtuar da fórmula para melhorar a experiência do espectador. E, ao mesmo tempo que pode resultar em uma obra certeira, também pode falhar miseravelmente. O drama húngaro Entardecer – que marca o segundo longa de László Nemes como diretor – fica entre as duas realidades. Isso porque, ao mesmo tempo que a narrativa funciona em não trazer algo muito explícito – sem revelações fáceis sobre os personagens – o longa cansa com sua repetição técnica na direção.

Nemes esbanja qualidade técnica em sua produção. A ambientação pré-Primeira Guerra é realmente bela, com destaques para figurino e direção de arte, características constantemente presentes em produções com tratamento histórico. Nisso, o diretor húngaro não entrega o óbvio, e isso é perceptível logo em seus primeiros minutos. Isso porque o cineasta trabalha todos os 141 minutos de filme com planos mais fechados em sua protagonista, o que demonstrou uma aposta do diretor na atriz Juli Jakab, com quem já trabalhou anteriormente em Os Filhos de Saul (2015).

Por mais que essa escolha não pareça estranha – afinal, ela é a protagonista – a câmera de Nemes é sufocante e muda em curtos momentos do longa, fazendo com que todo o visual do filme se limite a nuca e ao rosto da atriz húngara. Nemes mantém os mesmos movimentos e os mesmos planos durante toda a duração, o que justifica o cansaço causado, até pela seu controle narrativo ser muito grande, fazendo a história caminhar em um ritmo próprio.

Por sua vez, o cansaço é recompensado em determinados momentos. Esse controle narrativo citado traz o que de melhor o roteiro – escrito ao lado de Clara Royer – apresenta. O texto não entrega de bandeja o mistério e a dúvida da personagem principal. Tudo é feito com cautela e faz o espectador embarcar na história atrás das mesmas respostas da protagonista e até de outras que não são dadas em primeira instância.

Tudo isso transforma Entardecer em uma obra chamativa e interessante por si só. Entretanto, o mistério, com o caminhar da narrativa, vai perdendo forças, justamente pelo controle colocado por Nemes. Ainda que haja o interesse pela jornada, muito dela não se demonstra forte o suficiente para carregar o espectador até a conclusão, já que o mesmo se perde com o mesmo visual fechado e a montagem repetitiva. Sobre isso, momentos do longa se mostram desnecessários, e que poderiam ter sido cortados para a história ser apresentada de uma maneira mais natural e até mais leve.

Por mais que essa, aparentemente, não tenha sido a proposta do cineasta, foi o risco que ele escolheu tomar. Infelizmente, o resultado não é 100% agradável.

Com Entardecer, Nemes se destaca como um grande cineasta dessa geração. Mesmo que haja escolhas arriscadas, sua realização é tecnicamente magnífica. Ainda que cansativa, seu controle com a câmera, para fazer o espectador acompanhar a personagem durante toda a narrativa, gera diversas cenas belas, com planos sequência e longos que abrilhantam. Porém, a beleza não se sustenta completamente, ainda mais com um grande público acostumado com narrativas mais fáceis.