Diz a lenda que, no alto do Monte Everest, vive uma grande criatura mágica, repleta de pelos brancos e com dentes enormes e amedrontadores, conhecida por ser forte, poderosa e… incrivelmente fofa. Depois de “Pé Pequeno”, filme da Warner. Bros também focando na mitologia dos yetis, a DreamWorks apresenta o filme Abominável, que se utiliza da clássica abordagem de criaturas adoráveis para encantar o público e, desde o início, conquistar a atenção dos espectadores.

 

O filme conta a história de Yi, uma jovem que acaba afastando sua família e amigos após a morte do pai. Trabalhando em vários empregos para juntas dinheiro, acaba encontrando um yeti ferido em seu telhado, desenvolvendo aos poucos uma relação de proximidade com a criatura denominada Everest. Junto com dois amigos, Yi embarca numa aventura para levar o yeti de volta ao seu habitat natural enquanto são perseguidos por uma corporação milionária.

É inegável que a premissa pode não ser das mais originais, pois uma rara criatura fugindo de uma corporação cruel é uma história já contada algumas vezes – como em “Okja” ou até mesmo “Rio” –, mas Abominável consegue se destacar não só em sua estética e trilha sonora, mas também na construção da mitologia dos yetis, que continua a surpreender o espectador conforme a história se desenrola. Não é mais apenas uma criatura grande, peluda e musculosa: o novo yeti apresentado possui uma relação mística com a natureza, poderes mágicos que permitem um espetáculo de cores e texturas da mais diversas para agregar à composição visual do filme.

Assim sendo, os poderes de Everest justificam o significante uso de cores para compor o longa-metragem, fazendo com que coisas simples da natureza se transformem em algo esteticamente grandioso para conquistar o interesse dos espectadores: se a narrativa por si só não for o suficiente para prender a atenção, o visual de Abominável faz isso com total elegância e prazer. Um bom exemplo de tal qualidade estética está na cena em que Everest faz um campo de flores amarelas se tornar em uma grande onda para transportar ele e seus amigos – o excesso de amarelo, em seus mais diversos tons, fazem com que a cena se torne ainda mais grandiosa e rica em detalhes, transformando a estética em algo mais chamativo do que a própria história, que também não deixa a desejar.

Em relação à história, o filme se mantém simples, mas, ao mesmo tempo, profundo. O sofrimento de Yi em relação à perda do pai se torna um fator de extrema importância no roteiro, sendo evidenciado ao espectador a partir dos diálogos e relações da personagem com as pessoas ao seu redor, incluindo seu nome parceiro grandalhão. A protagonista encontra, na música e no sonho de viajar, uma forma de se sentir mais próxima de seu pai, o que acaba guiando suas ações e formas de pensar ao longo da narrativa.

Não só isso, a música também mantém uma relação de sentido com o filme em si, o que faz com que os momentos musicais tenham um significado narrativo, não sendo apenas para cumprir espaço ou divertir a criançada. Sendo um conforto para Yi e a forma desta se sentir mais próxima do pai, portanto, a música produzida pelo violino da protagonista se torna tão importante para a narrativa quanto a estética desenvolvida a partir dos poderes de Everest.

Os antagonistas da história também são, de certa forma, marcantes. Por já ter visto tais formidáveis criaturas em seus anos de explorador, o velho senhor Burnish foca todos seus recursos para capturar e vender a criatura – seja viva ou morta –, enquanto a doutora Zara se mantém firme em seus ideais de querer capturar Everest para explorar sua espécie única. Ao assistir ao filme, o espectador pode perceber, pouco a pouco, uma reviravolta se aproximando acerca dos antagonistas, o que não atrapalha, de forma alguma, o desenrolar da trama ou a emoção proposta em tal momento narrativo.

Com personagens mesmo caricatos e com atitudes e desenvolvimentos fáceis de se prever, a complexidade e o grande carisma presente em muitos deles ainda são suficiente para manter o espectador interessado em seus desenvolvimentos ao longo da trama. Abominável, assim, se mantém uma significativa animação com um enredo comum e previsível, mas com um desenvolvimento artístico que encanta pelo olhar, pela audição e pelo sentimentalismo, talvez não sendo memorável ao público, mas com certeza o conquistando em seus belíssimos momentos em tela.