Da mesma forma que o cinema passa por suas fases, os próprios gêneros passam pela mesma situação. E mesmo com sucessos antigos envolvendo o melhor amigo do homem, há alguns anos que a cultura de obras cinematográficas com narrativas do ponto de vista canino vem tomando conta das telonas. Ainda que a jornada tenha começado com adaptações da série de livros de W. Bruce Cameron, nenhum longa chegou a se destacar, – pelo menos não positivamente – devido ao roteiro expositivo e banal, como já apresentado nas críticas. Meu Amigo Enzo, por sua vez, consegue chamar a atenção com diferenças criativas e com mais qualidade cinematográfica, mesmo seguindo a mesma característica técnica dos longas anteriores. 

Enquanto as adaptações de Cameron seguem uma linha narrativa costumeira, com os cães expressando sentimentos através de palavras, mesmo que ela esteja explícita em tela, a direção de Simon Curtis adotou um caminho diferente. O veterano cineasta foi sensato ao dar uma maior liberdade para seu ator de quatro patas demonstrar o real sentimento através de seus movimentos, o que foi satisfatoriamente bem encaixado com o texto menos expositivo de Mark Bomback – o que se deve muito pelo seu trabalho em Planeta dos Macacos: O Confronto (2014) e Planeta dos Macacos: A Guerra (2017).

Ainda que a história siga seus passos clichês do gênero dramático, há pequenos toques de inovação que ganham os olhares do público, principalmente quando comparado com seus “colegas”. 

Além da liberdade dada ao cão, o texto de Bomback ganha mais profundidade ao trabalhar sua história, com toques mais reflexivos e complexos, ainda que clássicos. E da mesma maneira que Quatro Vidas de um Cachorro (2017) trabalha o sentido do ciclo da vida, – muito bem ensinado em O Rei Leão (1994) – Meu Amigo Enzo entrega com esmero seu mesmo conceito, conseguindo integrar a uma narrativa menos infantil, mas não menos emocionante.

O estilo narrativo adotado nos outro longas exploraram uma infantilidade desnecessária para fazer a história caminhar de modo dramático e ainda significativo. Aqui, Curtis e Bomback conseguem gerar equilíbrio entre os pontos fundamentais dentro da estrutura exigida, dando os tons corretos para drama e humor, peso e leveza. O que torna a jornada de Enzo e Denny (Milo Ventimiglia) menos cansativa e muito mais dinâmica. E o ponto para isso funcionar vem da escolha de Bomback para adaptar a obra de Garth Stein, o que, consequentemente, conversa com a montagem do filme.

O texto, no caso, estabelece uma narrativa não só do ponto de vista de Enzo, como também de seu tempo. Ou seja, além das coisas só funcionarem quando o cachorro está presente – o que estabelece uma relação mais potente entre protagonista e espectador – o caminho até o fim funciona de maneira mais ágil, já que o tempo de um cachorro é diferente dos humanos, o que funciona perfeitamente como uma justificativa para a história conter todos os detalhes dentro de um curto espaço de tempo, sem parecer falso ou forçado. 

Outra grande potência está em seu elenco de apoio. Desde o início de This Is Us (2016 -), Ventimiglia provou-se forte nome para papéis dramáticos, ainda que todos sigam o mesmo estilo de interpretação. No entanto, sua presença em tela não só combina com o protagonista, como consegue segurar, profissionalmente, os momentos mais dramáticos. O que acontece também com Amanda Seyfried.

Por sua vez, nenhum dos dois encantam os olhos com suas interpretações, muito porque Curtis não exige muito, até pelo básico ser o necessário para a história ser contada da maneira escolhida. Ainda assim, todo o elenco humano agrada com suas participações, sem qualquer atraso narrativo ou decréscimo. Os olhos são direcionados mesmo para Enzo, ainda que o Golden funcione mais como um fio condutor do que um verdadeiro protagonista. É quase impossível não se encantar com o cão, não só por sua fofura própria, mas pela direção de Curtis ter conseguido dar destaque ao personagem, sem perdê-lo para o roteiro. 

Isso porque há uma conversa muito natural entre as duas técnicas. Mesmo que a câmera de Curtis dê o destaque necessário, Bomback é certeiro em seu texto. As palavras do roteiristas são primordiais para a personalidade de Enzo, que ganha um tom não só mais humano como também mais filosófico sobre a vida e sua função como cão, algo bastante parecido com o conceito da história de Cameron, mas, como explicado, com sua vertente mais adulta, por assim dizer. Seu texto, além de mais maduro, consegue ser mais direto, mantendo a inocência de um cão. A presença da voz de Kevin Costner se provou perfeita para atingir o objetivo, muito pela sua entonação mais madura transmitir suas reflexões de maneira mais convincente e conquistadora. Entretanto, a maturidade do texto resulta em um exagero dramático compreensível, porém, enjoativo, dando ainda mais clareza à manipulação realizada. 

Não só pela presença de Ventimiglia no elenco, mas a narrativa também adotou uma estrutura parecida com a da série de Dan Fogelman, com seus plots dramáticos atrás de plots dramáticos. Utilizar-se dessa estratégia não é de toda ruim, mas não dá uma liberdade para os espectadores se emocionarem sozinhos, dando pequenas forçadas através do texto, da direção e da trilha sonora para tirar as lágrimas do público, custe o que custar. 

Mesmo assim, Meu Amigo Enzo supera seus detalhes emotivos com um texto mais consistente e recheado de analogias ao universo da corrida brilhantemente bem escritas e encaixadas. Mantendo sua força através de uma linda mensagem sobre a importância de viver através dos olhos inocentes, porém filosóficos, de um fofo doguinho, o longa é um afago poderoso para se esbanjar em lágrimas.