Entre as modas mais proeminentes de Hollywood, duas se destacam: remakes e franquias. Primeiramente vê-se a necessidade de, carentes de novas ideias, recriar filmes que já obtiveram seu sucesso, a partir de uma nova visão que traga um novo sentido para a obra como um todo – as vezes, nem isso –, como por exemplo Adoráveis Mulheres, livro já representado em dezoito obras fílmicas, cada uma com seu olhar próprio em relação ao material original. Já em outra perspectiva, quando determinados filmes funcionam, sejam remakes ou não, sente-se a necessidade de explorar seu universo narrativo o quanto lhe for rentável, trazendo sequências que buscam alcançar o sucesso de seus antecessores. Maria e João, filme que busca trazer o já consagrado conto de fadas em uma visão mais forte e sombria, consegue se manter, facilmente, preso à ambos estes estigmas.

Uma espécie de remake baseado na possibilidade de construir uma franquia, a obra dirigida por Oz Perkins traz Maria, uma jovem que é expulsa de casa e, junto de seu irmão mais novo João, é obrigada a perambular pelas sombrias florestas alemãs, onde vive, atrás de moradia e comida, se deparando com uma senhora um tanto peculiar que esconde terríveis segredos das crianças.

É inegável que, inicialmente, em uma camada mais visível e superficial, o filme atinge o que se propõe, trazendo uma sagaz releitura do tão antigo conto: faz com que o espectador divida com os personagens a tensão que segue a narrativa assim como uma criança seguindo migalhas de pão. Em uma interpretação mais profunda da obra como um todo, entretanto, vê-se claramente uma falta de objetividade no produto final, onde a própria obra não consegue se sustentar por si só.

Tal fato se deve à constante tentativa de vender Maria e João como uma franquia, forçando no espectador uma constante sequências de referência, quase como se estivesse clamando pelo interesse do espectador de não deixar o filme acabar nos créditos. Seja citando sedutores lobos na floresta, apresentando personagens pouco utilizados que mantém suas trajetórias em aberto, ou até mesmo prometendo novas aventuras para os protagonistas, Perkins faz com que o filme se torne apenas uma sombra daquilo que almeja, um dia, se tornar.

A fotografia surpreende em uma contextualização geral onde filmes de terror, normalmente, não se preocupam tanto com a beleza de seus quadros. A estética da floresta consegue misturar, com uma artística harmonia, a beleza do ambiente com os horrores que ali se escondem – assim, consegue ser tão arrepiante quanto é visualmente belo. O jogo de luz e sombra marca as cenas internas da casa da bruxa – que dessa vez não é feita de doce, mas quase lá –, fazendo com que os cenários, tanto internos quanto externos, sejam um ponto forte de Maria e João, pois quando não imerge o espectador na aflição vindoura da trama, encanta-o  com a densidade visual de sua estética.

A beleza da obra, entretanto, não é o bastante para ofuscar o defeito citado anteriormente. Por um lado, Perkins obtém sucesso em criar uma identidade característica de tudo aquilo que propõe: um fascinante, mas sombrio, mundo de contos de fadas; mas por outro, faz com que Maria e João seja apenas uma obra beirando o vazio, quase como se sua única intenção fosse abrir caminho para uma nova franquia, não se sustentando como uma obra própria de si mesma.

Assim, o novo filme que traz, novamente, a batalha de dois irmãos contra uma bruxa da fartura, funcionaria muito melhor como um prólogo ou, então, como o primeiro episódio de uma vindoura série. Perkins, portanto, implora ao público pela chance de explorar este universo, quase como se estivesse gritando, ao longo do filme, “olha o que eu conseguiria trazer se vocês me derem essa chance”. Porém, como o futuro é incerto, fica a dedução: se fizer sucesso o bastante para render continuações, Maria e João trará consigo uma franquia bastante promissora e deveras criativa,  mas se parar por aí, algo bastante provável pela descomedida abundância de histórias deixadas pra trás, infelizmente se tornará apenas mais uma obra qualquer esquecida pelo tempo.