O Cine PE vai chegando ao seu final, em uma noite mais tranquila, com apenas cinco filmes exibidos, entre curtas e o último longa-metragem da competição, “Meu Tio e o Joelho de Porco”, dirigido por Rafael Terpins. O festival mostrou ao que veio numa seleção que refletiu uma busca por temáticas sociais emergenciais, uma pluralidade regional e também um diálogo entre os mais variados tipos de cinema, daqueles que desejam uma aproximação com o cinema clássico e também dos mais autorais, panorama visto nas mostras de curtas.

Assim como uma competição bem nivelada entre os longas, algo que satisfez a plateia do cinema São Luiz, sempre bastante interativa. Faltando apenas a noite de premiação para o encerramento do Cine PE, a última noite de filmes fechou bem o festival.

Maturidades

Um curta-metragem que realmente chamou atenção nessa última exibição de filmes foi a ficção paulista “Sweet Heart”, de Amina Jorge, um filme que conta a história de uma jovem imigrante chinesa descobrindo-se no meio das ruas da Liberdade, bairro oriental da cidade São Paulo. Num diálogo sutil entre uma garota que afirma e reafirmar suas convicções na cidade, enquanto ainda reflete resquícios de uma tradição familiar. A maturidade é o centro dessa narrativa de 21 minutos, mas também passa pela forma como a diretora aborda essa temática e sua visão ao retratar aquele mundo particular da garota protagonista.

A câmera que parece ser uma amiga da personagem acompanha aquele dia com naturalidade, afastando-se de qualquer tipo de artificialidade nos registros dos dramas presentes ali. Não há nenhuma imposição sobre forçar um debate acalorado entre esse tradicionalismo oriental com o crescimento da garota, as coisas apenas acontecem no ritmo do mundo normal. Se isso pode sugerir alguma monotonia ao filme, deve ser dito que esse interesse nas pequenas ações da protagonista faz com que seja criada uma aproximação entre público e personagem, por mais banal que as coisas possam parecer, “Sweet Heart” cria um desejo por saber ainda mais daquela trajetória, algo que se conecta de forma fácil à vivência do público.

Assim, esse retrato quase episódico, de pequenos fragmentos cotidianos na Liberdade é comum e o melhor, espontâneo. O espectador vê a garota ajudando seus pais num restaurante asiático, conversando com sua amiga sobre manifestações e o que pensam disso, vê também a garota assistindo a um filme pornô no quarto dividido com um irmão – escondida e com medo de ser pega. Tudo bastante naturalizado, apenas fragmentos dessa passagem tão comum, nem romantizada, nem problematizada.

Com um rigor fotográfico interessante, com um visual sem muita saturação, encontrando paisagens urbanas visualmente interessantes, “Sweet Heart” vai ganhando uma atmosfera convidativa.

A protagonista começa a manter um interesse pelos garotos que trabalham no restaurante, claramente de outra classe social. Em qualquer filme nasceria um conflito dramático, uma cisão por completa entre aquele ambiente oriental e a pulsão sexual em relação a alguém completamente diferente. No entanto, mais uma vez Amina Jorge ameniza o drama para gerar empatia naquela reação, as coisas são o que são e os conflitos, na verdade, podem ser incorporados nesse processo de amadurecimento. Se os jovens empregados demonstram certo preconceito provindo de uma ignorância, também não é o lugar da problematização, mas mostrar de forma bastante afetiva como essa configuração pode ser mudada pela relação humana. Amina Jorge traz interesse ao lugar cotidiano, aos sentimentos comuns, inebria-se com aquilo que é normal, mas carrega uma intensidade justamente por isso, por trazer sentimentos tão comuns e tão presentes. “Sweet Heart” demonstra em suas escolhas, e principalmente em seu olhar, uma maturidade muito grande, uma mente autoral pensante que sabe muito bem os caminhos que escolhe.

A memória afetiva e o resgate de um passado recente

O longa da noite, “Meu Tio e o Joelho de Porco” foi o terceiro documentário da competição e trouxe algumas lembranças do filme do dia anterior do festival. “Henfil” buscava trazer aos jovens a memória de uma figura importante em veículos de grande destaque, alguém que apesar do resgate ser necessário ainda tem sua história recontada. Por outro lado, “Meu Tio e o Joelho de Porco”, de Rafael Terpins, tenta resgatar aquelas histórias que parecem serem apagadas nas construções da cidade de São Paulo, onde o sempre frenético cenário de efervescência cultural, também sofre com uma pulverização da memória. Terpins resgata a memória familiar da banda Joelho de Porco, grupo que dialogou com as experimentações do rock psicodélico até o movimento punk paulistano, gerando influências para uma série de grupos, ao mesmo tempo em que sofre com certo esquecimento cultural que muitos grupos dessa época tiveram.

A grande questão do filme, e justamente aquilo que o torna diferente é a própria participação do cineasta, que também está em cena, mas como o retrato do Joelho de Porco passa pela memória afetiva de Terpins, um documentário contado através justamente de um agridoce nostálgico. É como se numa espécie de conto salingeriana houvesse ali um narrador não confiável, uma narração que leva o público para um passado romântico de São Paulo, mas sobretudo numa narrativa de interesse por aquele homem, o tio excêntrico na família, o parente que aparecia na televisão de maquiagem no rosto e baixo na mão.

O longa inicia-se com Terpins já comentando que após a morte de seu pai tornou aquele tio a sua principal referência, provavelmente parte dessa ausência foi preenchida com as aventuras de Tico, o tio, e sua banda, o Joelho de Porco. Assim, mais do que retratar, ou informar, o longa está trabalhando nesse resgate que deixa ser contaminado pela nostalgia, que é embalado por um romantismo de outros tempos. O processo de apagamento da memória cultural é incapaz de fazer com que suma os bons sentimentos de quem estava presente ali. É curioso que o filme realmente materializa essa ideia de uma lembrança do retratado. Quem ajuda a narrar o filme é justamente um boneco desse tio, o Tico em miniatura é muito mais do que um simples meio de conduzir o documentário, mas traduz justamente essa lembrança envolta de uma “ficcionalização” nostálgica. Aquele Tico é uma ideia de quem foi aquele homem, de como ele agiria se soubesse que estão fazendo um filme sobre ele. Talvez esse seja um ponto que até faz o filme habitar um local mais cômodo, sem expor algum conflito da própria banda, por exemplo.

Todavia, existe também uma questão que faz o filme ganhar em seu artifício, ganha em demonstrar e transparecer essa ficção da memória, um resgate que torna de fato aquelas história extremamente interessantes. É por isso que “Meu Tio e o Joelho de Porco” é tão divertido, tão marcante, por conseguir compartilhar uma memória afetiva particular com um público geral, transformar as histórias de sua vida numa narrativa ampla e acessível, talvez nem seja necessário perguntar se tudo era daquele jeito, o que mais importa é o que fica, e o Joelho de Porco foi resgatado com bastante sentimento.

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