Entre 4 e 7 de junho de 1942, aconteceu no atol de Midway uma das batalhas mais memoráveis da Guerra do Pacífico, marcando fortemente a rivalidade entre Estados Unidos – antes neutro – e Japão na 2ª Guerra Mundial. A Batalha de Midway, assim denominada, aconteceu a partir de um sagaz plano japonês de enfraquecer as forças do oponente, mas o jogo virou quando a inteligência estadounidense conseguiu desvendar os códigos secretos japoneses, antecipando assim o ataque e vencendo o oponente.

77 anos após a batalha, que se iniciou a partir do ataque japonês à Pearl Harbor, estreia o filme Midway – Batalha em Alto Mar, contando a história destes acontecimentos com uma proposta um tanto promissora, mas ridiculamente falha. Não é surpresa que os filmes de guerra desenvolvidos por Hollywood são bastante numerosos, principalmente pelo sentimento histórico nacionalista que marca fortemente a sociedade estadounidense. Vê-se, assim, que o filme dirigido por Roland Emmerich poderia ser um significante adendo à representação artística da História humana, mas não passa apenas de mais um filme histórico de guerra.

Com um elenco relativamente chamativo – com nomes como Luke Evans, Woody Harrelson e Dennis Quaid –, o longa-metragem já promete muito ao espectador desde seu trailer, mas a grande maioria dos personagens é apresentada de forma rasa e banal, fazendo com que se tornem, na melhor das hipóteses, desinteressantes. Desde Ed Skrein, o personagem com maior tempo de tela, até Mandy Moore, sua esposa, são retratados de forma extremamente clichê: ele, o melhor dos pilotos, subestimado por alguns companheiros, obviamente salvará o dia no final; ela, a esposa perfeita, faz de tudo para manter a cabeça erguida em relação ao trabalho do marido.

Uma das principais falhas do filme, assim, se torna a tentativa de ser um épico e surpreendente drama histórico, mas não passa de uma obra com duas coisas predominantes: explosões e acontecimentos previsíveis. Que espectador, em sã consciência, não esperava que o durão almirante interpretado por Woody Harrelson optaria por dar ouvido ao seu excêntrico mão direita – que já havia se mostrado muito perspicaz –, assim escolhendo a opção menos comum que os levaria à vitória?

Para piorar, nos últimos minutos do longa-metragem o roteiro consegue ser ainda mais presunçoso, chegando ao ponto de tentar uma grande tentativa de surpreender e emocionar o público: ele conseguiu destruir os porta-aviões (ninguém esperava por essa, não é mesmo?), mas ainda não voltou… será que nosso herói morreu? A resposta não só é óbvia para quem conhece a história, mas também se torna clara para qualquer pessoa que já assistiu a um filme do gênero na vida.

Além disso, o filme ainda possui acontecimentos demais para contar em seu tempo de tela – mesmo tendo quase duas horas e meia de duração –, fazendo com que diversos momentos que poderiam ter grande profundidade sejam retratados de forma ligeira e insignificante. O personagem de Aaron Eckhart, por exemplo, tem um papel essencial, mas sua trama se desenrola em menos de cinco minutos de tela – se o espectador optar por ir ao banheiro no meio do filme, é capaz de perder todos os acontecimentos importantes envolvendo o personagem.

Porém, mesmo com personagens desinteressantes, roteiro corrido e a tentativa falha de surpreender o público, os atores de Midway – Batalha em Alto Mar ainda conseguem conquistar com boas atuações, sendo uma das poucas coisas positivas apresentadas nesse longa-metragem – destaque para Nick Jonas, que que é uma das poucas surpresas verdadeiras do filme. As cenas que esbanjam efeitos especiais também chamam a atenção, fazendo com que o filme, ao menos, se torne uma boa distração para aqueles que não procuram por uma obra profunda ou inteligente. É, assim, um filme divertido para prestigiar explosões e tiros sem muito mais do que isso.

O sentimento nacionalista também se mostra escancarado durante o longa-metragem (outra surpresa, um filme de guerra estadounidense que esbanja nacionalismo), fazendo com que, ainda mais do que antes, este se torne apenas mais um filme de guerra. Passa, entretanto, a mensagem de que aqueles no comando são os responsáveis pela guerra, e não os soldados, que estão apenas cumprindo ordens – seria possível inclusive relacionar tal característica com as ideias de banalização do mal de Hannah Arendt. Assim, a obra termina fazendo uma homenagem a todos os soldados estadounidenses e japoneses que morreram durante o conflito – talvez a parte mais profunda de todo o longa, um texto branco em uma tela preta.

A falta de profundidade – tanto em seus momentos quanto nos personagens – e sua tremenda previsibilidade tornam Midway – Batalha em Alto Mar uma obra aquém do que poderia e prometeu ser. Pode até ser um bom registro encenado da História humana, mas fica longe de ser uma boa obra artística como um todo, sendo suficiente apenas para entreter durante alguns momentos específicos, mas entediando em diversos outros. Sendo um filme sobre a Batalha de Midway, na qual aviões e barcos guerreiam em alto mar, esperava-se que fosse um tanto menos raso, e que, ao menos, tentasse voar mais alto.