Não importa o gênero, cinema é resultado de força. Filmes, além de boas histórias, necessitam da força. Não bruta como de franquias de filmes de ação, mas aquela que envolve personagens cativantes em suas ideologias e jornada, além de um texto coeso com sua proposta e uma organização que faça o espectador embarcar na narrativa por completa. Em resumo, é preciso de força. As Rainhas da Torcida chegou a apresentá-la, mas não a manteve por grande parte de seu roteiro.

Diante de uma proposta parecida com o longa Do Jeito que Elas Querem (2018), de dar uma visão única e própria às mulheres – mais especificamente às mulher mais velhas – há uma mensagem profunda entre suas camadas, ambas sobre a idade não refletir nos desejos humanos e um número não impedir determinadas atitudes. Aqui, o filme de Zara Hayes consegue ir um pouco além, sem o foco em uma vivência sexual, mas sim o da própria vida em si. 

O longa apresenta diversas semelhanças com outro do segmento: Antes de Partir (2007). Não só em seus personagens idosos, como também colocar em pauta a discussão sobre aproveitar a vida diante do saber – e o aceitar – da morte. É nesse ponto que existe a força do roteiro de Shane Atkinson, de não só trazer a dura reflexão sobre o aproveitamento da vida, mas também estipular discussões sobre a posição das mulheres socialmente. A força é clara e iminente, porém, é desperdiçada diante uma narrativa tediosa e com um humor explorado de maneira muito baseada no já citado Do Jeito que Elas Querem.

A própria atuação de Diane Keaton demonstra muito da fraqueza que dominou o longa. Há anos, a atriz vencedora do Oscar por Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), vem participando de narrativas não muito exigentes, mas que ainda demonstram certo interesse em comunicar algo maior que sua primeira camada. No entanto, em As Rainhas da Torcida, a atriz se perde em sua interpretação, não gerando qualquer profundidade na complexidade de sua personagem. Com isso, da mesma maneira que acontece no filme de 2018, o destaque passa para sua coadjuvante. Enquanto Jane Fonda recebe os verdadeiros holofotes na obra de Bill Holderman, aqui, o palco dá espaço para a impecável participação de Jacki Weaver. Não só o texto da australiana é mais consistente, como sua atuação se torna digna diante a jornada de sua personagem. O tom extremamente cômico dá espaço também para seus momentos dramáticos e não há a mesma instabilidade presente em Diane. 

Infelizmente, o mesmo não acontece com as outras integrantes. Ainda que o foco esteja na jornada de Martha (Diane Keaton), há uma importância quanto a participação do elenco de apoio – afinal, o nome já diz. Entretanto, o texto não consegue equilibrar os destaques. Há sim uma presença das oito, porém só três ganham um tempo de desenvolvimento – e que, felizmente, conseguem acrescentar, mesmo que minimamente, algo à história. Ainda assim, nada se segura. 

A caracterização de Rhea Perlman é uma das quais funciona como ponto de discussão sobre o posicionamento da mulher, funcionando em primeiro plano, mas não se desenvolvendo da maneira mais orgânica possível, servindo apenas como uma desculpa narrativa para o decorrer da história. Alisha Boe é outra que não consegue recuperar o fôlego do longa com seu núcleo padrão de bullying contra os mais velhos. Ainda que a jovem atriz tente se provar, As Rainhas da Torcida não oferece espaço para a mesma conseguir se destacar. Não só pelo protagonismo estar presente em outras personagens, mas pelo texto não ter potência o suficiente para dar às suas personagens aquilo que merecem. 

A curiosa história de velhinhas buscando suas juventudes de volta através da atividade de líderes de torcida é conquistadora por si só, – muito por também explorar a clássica jornada de uma equipe desacreditada que dá a volta por cima – mas há um desejo incoerente de querer ir além e não entregar o nada. Isso fica ainda mais claro com a montagem problemática do longa, que em muitos cortes abruptos não só faz o ritmo perder foco, como o humor se torna falho. 

Não há construções defeituosas apenas no humor, como também na própria estrutura das personagens e no fraco desenvolvimento de história. Atkinson se mantém linear no cômico, não explorando nuances ou mudanças de tom para realmente fazer aquele universo de curiosas personagens ser algo divertido. O longa não é de todo medíocre, conseguindo sim transportar o espectador para momentos agradáveis, mas nada marcante a ponto de fazer As Rainhas da Torcida algo significativo.