Mesmo depois de 16 anos passados, O Senhor dos Anéis (2001-2003) é uma das franquias mais adoradas e importantes do cinema. Consequentemente, o nome de Peter Jackson sempre chama a atenção, não importa a obra. Mesmo depois do estrondoso sucesso da trilogia fantástica – que lhe rendeu 17 estatuetas do Oscar – Jackson conseguiu trazer obras curiosas às telonas, como a nova versão de King Kong (2005) e o drama Um Olhar do Paraíso (2009).

Ainda que fosse criticado com a trilogia O Hobbit (2012-2014), Jackson é um nome chamativo, até pela esperança de uma repetição do sucesso. E não só como diretor, até porque, como produtor, esteve envolvido em filmes como Distrito 9 (2009) e As Aventuras de Tintim (2011), ambos elogiadas pela crítica. Porém, todo grande astro erra alguma vez.

Mesmo que o neozelandês já tenha sido criticado pelo retorno à Terra Média, tanto público quanto críticos não esperavam que o curioso projeto da adaptação da tetralogia Máquinas Mortais sairia tão errada assim. Por mais que seu nome não esteja na cadeira de diretor, o mesmo esteve a par do projeto, sendo não só produtor, como também um dos roteiristas, o que deixa ainda mais duvidoso de como três cabeças conseguiram fazer algo tão massante e ruim como este filme.

Ao lermos o nome de Jackson em qualquer cartaz, já imaginamos algo grande e fantasioso. De fato, o longa entrega as duas características. Inclusive, a trama traz um conceito extremamente interessante, que realmente convida o espectador a fazer parte daquele universo e consumi-lo.

Tudo isso, Christian Rivers consegue fazer nos primeiros 15 minutos de longa, que traz uma belíssima perseguição entre as Cidades Tração – termo designado para as cidades, que depois da Guerra dos Sessenta Segundos, movem-se como máquinas – além de apresentar características curiosas e chamativas sobre aquele universo.

Assim, o espectador já se sente impacto com tudo aquilo e encara a aventura que os espera. Entretanto, tudo fica apenas dentro desses 15 minutos.

Ao mesmo tempo em que se espera o tom mais fantasioso e grandioso de Jackson em tela, uma fundamental característica que sempre chamou e chama a atenção de seus filmes é o visual. Característica essa que aqui também não é decepcionante. Não só as Cidades Tração encantam os olhos, como também toda a ambientação e figurino criado àquele universo.

Porém, diante tanta beleza visual, Jackson, Philippa Boyens e Fran Walsh não conseguiram focar em uma narrativa plausível, coerente e convidativa o suficiente para o público se manter atento.

Como dito anteriormente, até há uma construção inicial interessante, com uma representação física do que seria um conflito político entre cidades, no qual o mais forte sempre procura sobressair o mais fraco em busca de poder. No entanto, toda essa qualidade fica em último plano e é ofuscada por uma narrativa que envolve romance adolescente, personagens mal desenvolvidos e a clichê jornada de vingança.

O primeiro erro do longa já está na apresentação de personagens. Não que há uma falha na apresentação em si, mas sim no ato de apresentar personagens. Dentro das duas horas de duração, o longa apresenta mais de 20 personagens, sendo muitos gratuitos e com pouca importância em tela, o que, não só torna inexistente o desenvolvimento deles, como também gera uma confusão na narrativa.

Até porque, apesar de adaptar o primeiro volume de uma tetralogia, o filme se fecha em sua proposta – isso porque, caso retorne a bilheteria esperada, pensam em uma franquia, mas caso ocorra o contrário, não desperdiçaram história. Com isso, muitas coisas são apresentadas, deixadas de lado e resolvidas de forma rápida na conclusão.

Momentos como esse, não só deixam todo o decorrer confuso, como desnecessário para o verdadeiro centro da trama. Mesmo que o longa acompanhe a personagem de Hera Hilmar, todo o interesse do espectador não consegue focar nela, mas sim no universo, justamente o ponto que não é desenvolvido.

A proposta da aventura de Hester é pífia, sem qualquer novidade ou diferencial de outras aventuras pós-apocalípticas como Maze Runner (2014-2018) ou Divergente (2014-2016). O desenvolvimento é o mesmo, as revelações são as mesmas e a resolução pode até ser chamada de cópia.

Nisso, vemos que Máquinas Mortais, de modo geral, traz uma construção inédita, com discussões modernas recheadas de reflexões importantes sobre humanidade e política, além de uma interessante analogia com mitologia e suas metáforas. Entretanto, o foco foi em fazer uma história básica adolescente, recheada de frases prontas e um humor desgastante que qualquer roteirista iniciante escreveria melhor.

A produção procurou não arriscar os milhões de dólares investidos ao entregar uma narrativa já muito comum. O resultado entregue, então, foi uma versão de Transformers com uma participação de Peter Jackson. O cansaço, a chatice e má qualidade da história são bem parecidos.

E junto com a história, nada mais se salva. Mesmo com suas feições caricatas, Hera é a que menos incomoda em tela, diferente do parceiro Robert Sheehan, um verdadeiro ruído desde o primeiro minuto. Hugo Weaving é outro que não consegue entregar um bom trabalho, mantendo-se com um personagem caricato em busca do poder supremo do mundo, tornando-se um típico vilão vazio, sem qualquer propósito interessante e sequer desenvolvido.

Isso sem falar dos outros milhares de personagens apresentados de forma gratuita. Mas um que chama a atenção é o Shrike (sim, nome clichê também), interpretado via captação de movimento por Stephen Lang. O suposto vilão entra na característica de bom visual do filme, porém sua participação funciona para apenas três coisas.

A primeira é para provar um conceito que foi jogado pelo roteiro, entregar a solução da trama na mão da protagonista (literalmente) e criar uma carga dramática horrorosa encaixada após cenas de ação, reforçando ainda mais a raiva do espectador, que desde os primeiros 30 minutos já espera a resolução previsível do filme.

Inicialmente, o antagonista chama a atenção quanto a sua proposta, mas ela foi resultada de uma barriga e uma justificativa para criar dificuldades a protagonista em sua jornada. O mesmo acontece com a personagem da sul-coreana Jihae. Também apresentada de forma jogada, ela é vendida como algo extraordinário, mas é representada apenas como mais uma guerreira forte, falhando em trazer qualquer empoderamento que estava proposto.

Para ajudar, a direção de Rivers é desgostosa. O neozelandês sempre esteve mais envolvido na parte de efeitos especiais – tanto que recebeu o Oscar por seu trabalho em King Kong – e isso não demonstrou ser uma qualidade crucial para arriscar na direção.

A câmera de Rivers não traz nada de novo. Diante um cenário visualmente encantador, o diretor não explora isso a seu favor, com planos padrões e movimentos de câmera que tinham a intenção de exaltar o personagem, mas devido ao exagero, resultou algo amador.

O que também não ajuda a direção de Rivers é a montagem do longa.  A edição está presente apenas para reforçar o quão ruim tudo foi construído e faz tudo piorar, principalmente em cenas de grandes acontecimentos. Ela funciona apenas na cena inicial, depois passa a ter sérios problemas de organização, exagerando com cortes secos em momentos que não exigem a técnica, o que resulta em erros de continuidade gravíssimos e perda de ritmo.

Ao todo, Máquinas Mortais se provou um desperdício. Sem qualquer desenvolvimento bem feito e foco nos temas realmente chamativos, sua trama é cansativa e enjoativa, sem gerar qualquer prazer no espectador, que luta para se manter acordado durante sua longa duração. Por sua vez, o longa está longe de manchar a filmografia de Jackson. A obra só mostra que muitas vezes um rosto bonito não vale nada sem conteúdo.