O cinema é muito marcante por iconizar personagens. Don Corleone, Darth Vader, Tyler Durden e Hannibal Lecter foram alguns. E um deles, certamente, é Robin Hood. Tendo sido representado pela primeira vez no cinema em 1922 por Douglas Farbanks, o personagem já teve 14 representações nas telonas, incluindo a versão da Disney e até uma de Tom e Jerry, em 2012.

Nessa 15ª, a responsabilidade ficou com Taron Egerton, ao lado do diretor Otto Bathurst, para trazer uma nova visão da história tão icônica e já muito contada do fora da lei que roubava dos ricos para dar aos pobres. Entretanto, mesmo que o roteiro comece apresentando uma narração que afirma essa ser uma história nunca contada, o longa é a mesma coisa que os outros, mas pior. Muito pior.

Fica complicado numerar todos os erros de um único longa como Robin Hood – A Origem. Do primeiro ao último minuto, este, que é o primeiro longa do diretor britânico, só contabiliza erro atrás de erro. O seu primeiro é apresentado logo de cara. Vendido como inovador, a trama é apresentada através de uma narração do próprio Egerton, mas o mesmo não sendo o personagem, narrando a história em terceira pessoa. Justificativa? Nenhuma.

A narração, por sua vez, é escolha mais desnecessária do longa, já que, toda a contextualização da jornada e da ambientação serve apenas para explicar ao espectador que aquilo, supostamente, deveria ser uma história nova. Seu objetivo é apenas esse, já que, a mesma contextualização e ambientação é realizada já com os personagens minutos depois, já dentro da história.

A mesma falha está na apresentação dos personagens, principalmente de Hood e Maid Marian. Aliás, Marian – interpretada tristemente por Eve Hewson – é introduzida como uma interessante personagem, já que a mesma é apresentada como uma ladra. Porém, sua “profissão” não é de importância alguma para o decorrer da história. Já que a mesma não atua como uma ao e nem serve como inspiração para Hood, jogando qualquer importância à personagem no lixo.

Sua presença no filme, no fim das contas, é apenas para atrapalhar o desenvolvimento da trama, forçando um romance paralelo, para dar mais “fidelidade” à história do lorde inglês.

Hood aqui também não faz jus a sua essência. Por mais que o longa não siga a risca a questão do “a história nunca contada”, o roteiro de Ben Chandler e David James Kelly não se aproveitam do cerne do personagem como justiceiro. Sua justificativa para a atitude, ao invés de seguir o espírito de justiça e bondade, segue uma linha mais de raiva, utilizando também a falta de reciprocidade no amor como um motivo para agir dessa maneira.

Toda a construção de Hood – que aliás, ganha este sobrenome gratuitamente, além de passar a ser chamado de Rob, para dar uma “modernizada” – é mal escrita. Todas as falas, as justificativas e o desenvolvimento são todos banais. E não só na trajetória de Hood, já que o desenvolvimento de Little John também é outra tristeza. Além do background do longa, que consegue trazer um conceito interessante do conflito político e religioso, porém, tudo é descartável.

O espectador não se importa com a trama paralela, porque a mesma não é bem desenvolvida e os personagens não ajudam.

Ben Mendelsohn aparenta ter focado em uma filmografia vilanesca caricata. Seus personagens, por mais que mudem de universo e figurino, mantém-se os mesmos. Aqui é pior pelo fato de Bathurst sentir um gosto curioso por gritos. A todo momento há um exagero artístico na representação dos personagens, que para certificar uma afirmação ou uma ação, gritam desnecessariamente.

E não só Mendelsohn não entrega uma boa atuação. Robin Hood – A Origem traz um elenco diversificado e com filmografias deleitáveis. Jamie Foxx que o diga. Porém, todas as atuações aqui presentes são péssimas e medíocres. Egerton, que até então só mostrou destaque com Kingsman: Serviço Secreto (2014), é banal como Hood e não se mostrou competente para construir o personagem. O mesmo se apresenta como malandro e convencedor, mas sua trajetória vai matando essa característica, mas de repente, ela retorna, sem qualquer justificativa narrativa.

Por mais que Bathurst não tenha demonstrado um potencial na direção do elenco, poderia ter ao menos focado em trazer uma narrativa divertida. Ledo engano. O britânico pega o já péssimo texto de Chandler e Kelly e transforma a narrativa em algo massante e chato.

Sua direção já cansa antes dos primeiros 30 minutos e não demonstra qualquer tentativa de melhora. A escolha em trazer constantes cenas de câmera lenta na hora da ação foi péssima, principalmente por não conseguir trazer um ritmo empolgante ou chamativo para todo o “universo” construído. Mas o pior está em adaptar situações modernas com artefatos antigos.

No caso, Bathurst demonstra uma guerra de arcos e flechas como se fossem metralhadoras, incluindo uma perseguição de charretes – digna de vergonha alheia – como se fossem possantes em alta velocidade. E claro, a batalha final, que traz essas características ao extremo, é uma situação forçada de roteiro que só faz o espectador colocar a mão na consciência e se questionar o que está sendo exibido.

São poucas as defesas para as escolhas em volta de Robin Hood – A Origem e todas são limitadas a direção de arte e um pouco na ação, isso porque quando Bathurst não utiliza a câmera lenta, até traz boas coreografias. Entretanto, a direção de arte até encanta os olhos, mas de forma limitada. Não há o convencimento de nada, com materiais superficiais e equipamentos clichês.

O roteiro de Chandler e Kelly também trazem seus momentos de glória, porém tudo é deixado como terceiro plano, já que todos os diálogos foram construídos de maneira amadora. Não é a toa, já que todo o time não teve qualquer experiência com um longa anteriormente, não sendo apenas o primeiro filme do diretor, como também dos dois roteiristas.

Ao todo, Robin Hood – A Origem são duas horas tristes de pura vergonha alheia. A comédia, que deveria estar implementada no filme, fica por conta das vergonhosas cenas dirigidas por Bathurst e das péssimas atuações de todo o elenco. No fim, este é mais um filme com Robin Hood no título, trazendo mudanças mal elaboradas e aproveitadas, reforçando mais uma vez uma tecla já muito imposto no cinema. Não há diversão, atualização ou qualquer competência nessa versão de Hood, dando ainda mais saudade da raposa com roupa verde de Wolfgang Reitherman.