SINOPSE

“Nostalgia da Luz / Nostalgia de La Luz (Nostalgie de la Lumière)”, de 2010 é um documentário coproduzido por diversos países, entre eles Chile e França, que se passa no deserto do Atacama, abordando várias óticas diferentes. De um lado temos o maior observatório astronômico do mundo, onde os cientistas observam o espaço, desde 1962. De outro temos as mulheres que há 30 anos percorrem o imenso deserto em busca dos restos mortais de seus familiares desaparecidos durante a ditadura de Augusto Pinochet, que assassinou mais de 40 mil pessoas e torturou pelo menos outras 20 mil. Os dois prismas se entrecruzam, quando a narração do diretor nos faz entender que ambos olham para o passado e procuram por corpos, sejam celestes ou humanos.

NOSTALGIA DA LUZ- Nostalgia de La Luz (2014) 2

Não fosse os dois focos citados, já suficientemente interessantes, o deserto ainda revela outras descobertas dialogando com a história do Chile e da humanidade. Temos o fato de o Atacama ser a única mancha marrom no planeta, vista do espaço, nunca se alterando, por sua falta de umidade e alta concentração de sal. Os corpos das vítimas da repressão escondidos no deserto, muito se parecem com as múmias dos povos pré-colombianos encontrados por arqueólogos no mesmo deserto chileno. Existe ainda o relato de prisioneiros políticos do governo que ficaram presos em um campo de concentração, reutilizando uma antiga mina de salitre, antes habitada por mineiros, em um regime escravo no final do século XIX, que os matava da insalubridade do trabalho desumano e da pobreza. Quando morriam, amobos, eram enterrados próximos dali e também tinham seus corpos “mumificados” pela aridez do deserto.

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Dirigido pelo premiado documentarista chileno Patricio Guzmán, conhecido por produções como “A Batalha do Chile / La batalla de Chile: La lucha de un pueblo sin armas” (1975) é um longa-metragem ensaístico com um olhar delicado e reflexivo como poucos, onde ele imprime suas próprias percepções, como exilado político que foi, bem como o depoimento de pessoas que viveram o mesmo período. É como se o seriado “Cosmos” (1980-2014) de Carl Sagan ou Neil de Grasse Tyson encontrasse um documentário sobre a ditadura, mas sem causar estranhamento, em uma simbiose improvável, que só poderia ser pensado por um artista com um olhar muito amplo e sensível. E é esta ideia original que torna o filme único e imperdível, ainda que ele infelizmente seja quase inalcançável nos cinemas, por ter ficado pouquíssimo tempo em cartaz e com um atraso de meia década.

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O documentário foi lançado em 2010, mas só chegou em alguns poucos cinemas brasileiros, quase cinco anos depois, em Janeiro de 2015 e ainda circula por alguns cinemas de arte pelo país, distribuído pelo Instituto Moreira Salles. Como o próprio cartaz brasileiro do documentário observa, os astrônomos do Cerro Calán – Observatorio Astronómico Nacional, construído no Chile por americanos e europeus na década de 60, buscam respostas sobre o universo e vida extraterrestre, observando luzes emitidas milhões de anos no passado. Entretanto os familiares das vítimas da ditadura Pinochet não conseguem uma explicação para o que foi feito com os corpos de seus parentes a pouco mais de 30 anos atrás. Esta é a dicotomia discutida no filme, de forma filosófica e sociológica, tentando compreender o comportamento humano e a forma como lidamos com nossas memórias históricas.

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Mais irônico ainda, era ter residido entre os presos da ditadura, um astrônomo, que ensinava os colegas de cárcere a observar o céu translúcido, com telescópios improvisados, que ajudavam a marcar as posições das constelações, para amenizarem o tédio e sentirem-se mais livres. Outra contradição é que num evento trágico desses, onde as vítimas e familiares lutam para que a lembrança do sofrimento não se apague e para que não se repita, conhecemos um ex-prisioneiro que guardava as dimensões da prisão inteira na sua mente. Ele contava os passos do terreno e calculava de cabeça as metragens e localizações, o que garantiu que quando solto e exilado na Dinamarca, desenhasse um mapa completo do local, nos mínimos detalhes. É incrível que uma pessoa possa ter uma memória tão eficiente, quando um país inteiro, por vezes, pareça sofrer uma amnésia de sua história recente.

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No início do ano Guzmán recebeu, por “El Botón de Nácar” (2015), o Urso de Prata de Melhor Roteiro, no Festival de Berlim, sendo que muitos críticos e jornalistas defendem que merecia o Urso de Ouro de Melhor Filme, no lugar de Taxi (2015), do iraniano Jafar Panahi. Premiações à parte, a verdadeira vitória de um cineasta é ter seu trabalho assistido pelo maior público possível e para isso ele necessita ser distribuído. Nostalgia da Luz também foi amplamente premiado, mas esperamos que El Botón de Nácar, não chegue aos cinemas brasileiros com um lapso de tempo tão grande, como o primeiro citado.

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Um relato cinematográfico pode ser considerado bem sucedido, como meio de comunicação e artístico, quando pode ser transportado para outros contextos e regiões, servindo como objeto de identificação, mesmo em localidades que ele não teve intensão de retratar. Nos últimos meses, no Brasil, tem ocorrido manifestações contra o governo, principalmente nas redes sociais, sendo que algumas delas pedem o retorno de uma ditadura militar para o país. É bem possível que se estas pessoas tivessem assistido a documentários como este, talvez tenham repensado sua posição, por isso é sempre uma lástima que as salas de cinema não disponibilizem mais espaço para este tipo de produção audiovisual, com conteúdo de tamanha importância. Além disso, temos nossos próprios desaparecidos durante o regime ditatorial brasileiro, motivo pelo qual criou-se a Comissão Nacional da Verdade, também criticada por pessoas que deveriam assistir mais filmes de Patricio Guzmán.

Trailer do filme: