Hollywood tem que saber a hora de parar. É compreensível todo o cenário de indústria e o quanto de dinheiro é envolvido em cada projeto, mas há momentos em que é preciso parar. Em 1978, John Carpenter levou aos cinemas uma marco no gênero terror.

Halloween não só trouxe um ótimo título para a história do cinema, como ditou muita coisa que vemos hoje em tela. Mas como um bom professor em uma sala lotada e bagunceira, os alunos não conseguiram aprender nada.

Com um filmografia marcada pela comédia, David Gordon Green foi o responsável por reviver a história de Michael Myers e Laurie Strode quatro décadas anos depois dos acontecimentos do filme de Carpenter, excluindo todas as outras sequências da linha temporal.

O motivo principal dessa exclusão está na baixa qualidade dos filmes e da distância do original, tanto que Halloween III – A Noite das Bruxas (1982) nem trata de Myers. E por incrível que pareça, é a mesma coisa que acontece aqui.

Chega a ser compreensível a escolha em fazer um filme mais dinâmico e rápido, afinal, o público muda devido ao tempo, junto com o cinema. Porém, não há justificativa quanto a mudança a não ser mercadológica. No longa de 78, Carpenter e Debra Hill criaram um roteiro primorosamente bem montado, dando justificativa e sentindo à história.

Obviamente, muito da qualidade do roteiro vem do baixo orçamento que o limita. Mas há uma adaptação sobre isso, inclusive com a essência de Myers. Meticuloso e frio, o assassino se diferencia de outros slashers como Jason Voorhees e Freddy Krueger por seu trabalho mais cadenciado. Há um controle, porque Myers demonstra poder sobre a vítima e seu ataque vai acontecer no momento desejado.

Já nesta nova versão, Myers se transformou em um assassino desesperado, tendo o dobro – até quem sabe o triplo – de mortes do primeiro filme, sem qualquer controle narrativo.

A trama explora uma montagem com cortes rápidos, escolha que, consequentemente, foge da proposta estabelecida em ser uma sequência direta do clássico, filme no qual Carpenter explora tudo com calma, deixando Myers como um monstro calculista, que brinca com o público enquanto cria tensão até a morte das personagens.

Aqui, essa narrativa é inexistente. Myers se torna um assassino compulsivo, atacando qualquer um que vê pela frente com uma variação maior de mortes descontroladas e em maior quantidade, como dito anteriormente. A fuga da qualidade do primeiro filme está também na construção do roteiro. No texto de Carpenter e Debra tudo é bem construído.

Os personagens são bem trabalhados, a trama tem seu tempo de construção e os acontecimentos ocorrem naturalmente. Nessa sequência – com mais características de releitura – tudo é muito jogado. Há mais personagens que o primeiro longa, o que impede de uma construção mais natural, em razão do filme exigir mais tramas, mas ainda na mesma duração de 01h40.

Isso atrapalha no desenvolvimento da história e deixa muitos furos incômodos durante a trajetória da trama.

Não há uma relação com os personagens e toda a construção da ambientação é pobre e incoerente. Um exemplo está na presença de Myers na cidade. Aparentemente, o assassino se tornou famoso na região, mas, ao mesmo tempo, parece que ninguém o conhece, principalmente a polícia, que constantemente traz um discurso de medo e nervosismo sobre a sua presença.

Contudo, aos poucos, demonstra ignorar a presença do mesmo. Nesse segmento, o roteiro, que conta com a contribuição de Danny McBride, entrega uma cena de quase dois minutos com dois policiais conversando sobre a comida que levaram ao turno da noite, reforçando não só a tentativa frustrada de humor, como também a de deixar a história mais mundana.

Na questão do cômico, o texto beira ao ridículo. Como todo o resto da narrativa, tanto Green quanto McBride trabalham um humor desconexo e mal encaixado. Nada flui e é nítida a tentativa de deixar algo hilário, mas que não condiz com a cena em questão, o que reforça ainda mais a fuga dos dois em tentar algo próximo da obra prima de Carpenter.

Inclusive, o maior erro do filme está em sua venda. Halloween (2018) realmente funciona como entretenimento, mas está longe de estar próximo de um filme de terror, quanto mais próximo de ser uma sequência do filme de 40 anos atrás. O discurso de “vamos apagar todas as sequências ruins do filme” não conversam nem um pouco com o resultado apresentado. A tensão, o roteiro bem escrito e a trama em si não estão presentes em tela, tornando-se uma ofensa aos fãs do clássico, mas ainda assim, uma diversão ao público atual.

Por mais que os elementos negativos se sobressaem, a direção de Green traz elementos interessantes, sendo essa uma das melhores fotografias da franquia. Seus movimentos de câmera fazem um diferencial no péssimo texto, incluindo um belíssimo plano sequência, mas diferente do primeiro filme – citando-o mais uma vez – é construída sem justificativa.

A qualidade também está presente na relação entre Myers e Laura, muita próxima de um Batman e Coringa sobre a falta de um ser o motivo da inexistência do outro. Contudo, esse embate entre os dois demora para acontecer, mas é entregue com esmero nos minutos finais do longa. Laura, por sua vez, não é balanceada em relação a sua sanidade e objetivo. Referindo-me a Sarah Connor em O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final (1991), a personagem de Linda Hamilton é classificada como louca pelo exterior, enquanto ela se demonstra objetiva.

Aqui, Jamie Lee Curtis muda de um para outro sem cuidado algum, não dando uma essência única para gerar uma relação intimista com a personagem. Entretanto, seu embate contra o Bicho-Papão é a melhor sequência do filme. A direção finalmente consegue trabalhar tecnicamente o exigido no longa inteiro.

Nitidamente, o tempo também ajudou no amadurecimento de Jamie como atriz, que convence com a personagem, apesar dos erros significativos citados acima. Quanto ao resto do elenco, o filme finalmente se iguala ao de 78, com péssimas atuações secundárias.

Um exemplo está no retorno de Will Patton na pele do policial Hawkins. Sua participação é da maneira mais descartável possível, servindo apenas como uma referência e para reforçar o discurso – constantemente repetitivo – dos acontecimentos do primeiro filme.

Judy Greer, na pele da filha traumatizada de Laurie, entrega uma atuação banal com uma personagem com potencial, mas mal trabalhada. Para finalizar, Andi Matichak se revela a mais descartável, tendo a pior trama envolta todas as outras.

Sendo relativa, a diversão aparentemente existe ao público atual. A trama não exige muita concentração e o ritmo é constante e íntimo dos espectadores modernos. Nisso, Halloween, ao invés de se mostrar uma sequência direta do clássico, mostrou-se uma releitura do personagem, desenvolvida ao público jovem, que clama por filmes de terror para serem aproveitados em turma e divertidos.

Infelizmente, essa narrativa escolhida é a principal culpada do preconceito em relação ao gênero, não dando a credibilidade que ele merece. Obras de terror, desde sua origem, trouxeram questionamentos, seja sobre nossa sociedade, religião ou sobre nós mesmos. Portanto, junto com o medo e a tensão, faziam o espectador refletir sobre algo. O próprio Halloween (1978) é assim. A criação de um personagem frio, sem pudor e sem explicação mental faz o espectador temer o desconhecido. Afinal, quem é Michael Myers?

Aqui, nada disso é presente. Como já dito, o longa passa a credibilidade de ser sério e ser uma continuação da mesma obra que criou os questionamentos citados acima. A falta disso gera um incômodo em quem espera não só um bom filme de terror, mas pelo menos um bom filme. Não há a exigência de todo terror ser algo sério e tenebroso. A Morte Te Dá Parabéns (2017), por exemplo, funciona como um terror leve para adolescentes e está tudo bem.

A falta de coragem em montar uma narrativa mais lenta para uma boa construção, faz de Halloween, até então, a maior decepção do ano.