Em 2008, uma nova proposta para o cinema teve seu início. Um “universo” compartilhado de histórias na telona, com cruzamento entre tramas e personagens. 10 anos depois, em 2018, esse compartilhamento teve o seu ápice com o longa “Vingadores: Guerra Infinita”, o qual quem vos escreve descreveu como “um marco na história do cinema”, pela incrível habilidade dos roteiristas em inovarem no padrão de tramas de super-heróis e entregarem um filme coeso e com espaço para mais de 20 personagens diferentes. E agora, após 21 filmes, o longa que promete ser um grandioso fechamento para concluir e reverter o dramático fim do universo chega às telonas: “Vingadores: Ultimato”. Mas infelizmente, só promete.

O primeiro indício de que o filme pode não ser tudo aquilo que se esperava mostra-se no primeiro frame. Sem nenhuma introdução e sequer um fade, uma pequena sequência com o personagem Gavião-Arqueiro e sua família mostra que o estalo de dedos de Thanos matou toda a família do herói. Uma tentativa de escancarar o drama do personagem em uma sequência desnecessária, visto que o filme apresenta e resolve conflitos e dramas muito maiores em pequenos diálogos durante todo o tempo, momentos os quais talvez precisassem de mais desenvolvimento para que o mínimo de coerência fosse mantida. Alguns exemplos são: a fusão de Bruce Banner com o Hulk, que não é desenvolvida em mais do que 2 linhas de diálogo; a função da Capitã Marvel no filme, que parece ser utilizada SOMENTE para resolver problemas aparentemente impossíveis de serem solucionados; entre outros pontos que não são explicados, quando o mínimo de esclarecimento era necessário.

Ao mesmo tempo, um ponto da drama que teve o tempo necessário de tela, foi absurdamente mal trabalhado. Trata-se do conflito entre o Capitão América e o Homem de Ferro, que vem sendo cozinhado desde 2016 com o longa “Capitão América: Guerra Civil”. Perde-se muito tempo mantendo o conflito ativo, para ser resolvido sem fluidez em poucos diálogos.

Apesar disso, a tensão entre todos os integrantes do time de heróis consegue ser bem desenvolvida, e graças às atuações de Scarlett Johansson e Chris Evans, excelentes sequências são apresentadas. Robert Downey Jr., por outro lado, pouco convence como Tony Stark, mesmo nas cenas mais emblemáticas do herói. A sensação que fica é que o ator cansou de ficar no personagem e acredita que basta ser ele mesmo, tirando o potencial de muitos momentos do filme. Brie Larson é outra que se destaca pela superficialidade, com uma atuação bem menos carismática do que no filme “Capitã Marvel”, o que acaba sendo um grande prejuízo para o filme.

Agora voltemos a nossa atenção para um dos principais problemas do longa: furos na trama. Sabe-se que todos os longas do estúdio foram baseados em histórias em quadrinhos, material que vem sendo publicado ao longo de 80 anos e que não tem necessidade de tanta rigidez quanto a coesão das histórias e dos entrelaçamentos feitos. Ao longo de 21 filmes, poucas e irrelevantes falhas transpareceram para o cinema, mas agora neste último filme, são dezenas de pontas soltas ou incoerentes que são apresentadas na tela. Infelizmente, uma delas é o ponto chave do filme: viagem no tempo.

Temos uma infinidade de longas-metragens que tem seus roteiros baseados em viagem no tempo, alguns bons e outros nem tanto, mas sempre com um mínimo de clareza em regras estabelecidas para tal ação. “Vingadores: Ultimato” é baseado em viagem no tempo, possui diálogos que fazem piada de diversos filmes do gênero, mas não consegue estabelecer uma lógica própria para si. Não há preocupação com consequências, cria-se linhas do tempo alternativas e não se dão ao trabalho de explicar os desfechos de diversas ações e desdobramentos. É tudo feito às pressas, com pouca atenção e foco somente em criar frases de feito e cenas deslumbrantes para os fãs. A bagunça dos quadrinhos é definitivamente estabelecida nos cinemas.

Mas como era de se esperar, o roteiro preguiçoso e apressado tem uma execução grandiosa com muitas cenas que podem emocionar pela combinação de nostalgia, trilha sonora e mortes de personagens importantes.

Por fim, “Vingadores: Ultimato” não é um filme que honra o legado do primeiro universo cinematográfico, possui grandes furos em seu roteiro, mas muito provavelmente agradará a grande massa de fãs ao apelar pela emoção e nostalgia.

O longa volta aos cinemas brasileiros hoje, como parte de uma campanha mundial de relançamento que evidenciam o desespero em atingir o primeiro lugar nas bilheterias mundiais. Marco que não tem o menor significado real, dado que não considera a inflação em todo o período, ou seja, sempre terá um filme que “baterá” um “recorde”. A “nova versão” do filme inclui comentários de um dos diretores, uma pequena homenagem ao Stan Lee e ainda uma cena com efeitos não finalizados, que nada agrega ao filme.