Imagino aqui comigo que todo cinéfilo gostaria de ter tido a chance de presenciar de perto os bastidores daquela obra-prima que tanto adora. Já pensou estar no set de filmagem de “O Poderoso Chefão” com Coppola e Marlon Brando? Ou junto de Steven Spielberg na criação de “Jurassic Park”? Pois é, não foi dessa vez que um desses clássicos incríveis recebeu tal homenagem. Em contrapartida, um outro filme que acabou se tornando bem popular – por motivos completamente diferentes – conseguiu esse feito e chega aos nossos cinemas essa semana.

Considerado o “pior filme de todos os tempos”, “The Room” (2003) – a história de um banqueiro cujo amor da sua vida o traiu com seu melhor amigo – ganhou aos poucos uma legião de fãs e várias exibições em cinemas pelas madrugadas nos EUA, alcançando o chamado status “cult” anos depois do seu lançamento. Não dá para descrever com palavras o que é “The Room” (apenas vejam com os próprios olhos), e um dos fãs mais famosos do longa – o ator e cineasta James Franco – decidiu explorar o mistério por trás “da obra-prima dos filmes ruins”.

Em “O Artista do Desastre”, Franco conta como o misterioso Tommy Wiseau e seu amigo Greg se mudaram de San Francisco para Los Angeles buscando realizar seu maior sonho: participarem de um filme em Hollywood. Antes de mais nada, é importante deixar claro que “The Room” realmente é um filme ruim, que não consegue construir um universo plausível e nem contar uma história coerente, mas isso não quer dizer que as pessoas não possam gostar dele – tentarei explicar um pouco melhor como isso funciona em um parágrafo mais abaixo. Wiseau se considerava um visionário, não respeitando as regras convencionais da indústria (produção, filmagem, o próprio tratamento com a equipe que trabalhou no filme, etc). Usando como guia a essência mais básica do cinema – pegar uma câmera e filmar da forma que der na telha – ele pode não ter feito a obra-prima que pretendia, mas é inegável que seu filme tem um charme bastante peculiar.

Nesse sentido, “O Artista do Desastre” é muito diferente. Nota-se que o filme de James Franco é bem mais “convencional” – uma assumida comédia que não tenta emular a estrutura caótica do filme original e ainda adiciona novos conflitos que não faziam parte do livro cujo filme foi adaptado, para reforçar a dramaticidade da trama. Ou seja, enquanto um é cinema puramente espontâneo e sensitivo (e sem noção, alguns diriam), o outro é meticulosamente pensado, com cada peça no devido lugar – uma forma de “ser” totalmente oposta ao que o projeto homenageado defendia -, se arriscando muito pouco (ou quase nada).

No entanto, graças ao foco na amizade entre Tommy e Greg funcionar e a ótima entrega do elenco, essa abordagem dá muito certo e consegue tornar o longa ao mesmo tempo uma homenagem cativante e merecida ao enigmático Wiseau, mas também um filme competente, forte concorrente a prêmios – contou com boa participação em vários festivais, foi vencedor de um Globo de Ouro e indicado a um Oscar. Além da óbvia função de documentar os bastidores de “The Room”, o longa também  serve como um pequeno retrato de como funciona a própria indústria Hollywoodiana, onde todos os dias centenas de novos atores e cineastas surgem empolgados com seus sonhos e projetos.

Quem é o misterioso Tommy Wiseau?

Em San Francisco, Tommy (Franco) e Greg (seu irmão, Dave Franco) acabam se conhecendo em uma noite após uma aula de atuação. Os dois eram bem opostos: Greg, apesar de bonito, era tímido e introspectivo – personalidade não muito indicada para um aspirante a ator. Já Tommy, era feio, mas completamente espontâneo, sem medo de expressar seus sentimentos – o que não quer dizer que saiba o que está fazendo. Apesar da diferença de idade, ambos se juntam e estabelecem uma estranha amizade quase imediatamente, onde um realmente parece que completa o outro. Entretanto, a excentricidade de Tommy e a carência pela atenção de Greg causariam vários problemas aos dois futuramente.

Ninguém sabe ao certo quem é Wiseau. Seu nome verdadeiro, idade, de onde veio – pois tem um sotaque quase indecifrável – e a origem de toda a sua riqueza (era um milionário que não se preocupava em gastar dinheiro). Inclusive, um dos grandes méritos do filme é não tentar explicar seu passado, pois o que o torna especial é justamente esse mistério. O fato de não gostar de ninguém falando sobre sua vida e a própria maneira sobrecarregada que se veste, com várias camadas de roupas e óculos escuros (parecendo camuflar quem ele realmente é), reforçam essa “aura” enigmática.

Eu adoro a abertura do filme. Em uma das melhores apresentações de personagem principal que vi entre este e o ano passado, Tommy é filmado de costas e lentamente caminha para o palco, até seu rosto ser revelado para a plateia (e nós, espectadores) – o mistério sobre ele irá pontuar todo o filme e sua história. Um homem cujas emoções falam mais alto que tudo. Extravagante, temperamental e quase “niilista”, que acredita que coisas estranhas acontecem simplesmente porque “assim é a vida”.

Sua inabilidade em fazer filmes corresponde a própria incapacidade de jogar futebol – um grande símbolo americano, que ele insiste em colocar no seu filme. Ele sabe o que representa, mas provavelmente nunca assistiu a uma partida, da mesma forma quando perguntado por Greg qual o filme que o havia inspirado a ser ator, não sabia responder – sequer tinha ouvido falar no popular “Esqueceram de Mim”, filme que despertou a vocação no melhor amigo. Tanto ele quanto Greg representam que talento não é tudo, a coisa mais importante na vida é coragem – parafraseando Woody Allen -, a busca por alcançar seus objetivos.

 

 

Paracinema: Afinal, o que as pessoas veem em The Room?

Façamos uma pequena pausa para tentar entender o que as pessoas tanto gostam em “The Room”. É bem difícil explicar por que um filme sem pé nem cabeça como esse é tão “assistível”. Mas certamente vocês vão se lembrar de algum filme ruim, mas tão ruim, que mesmo assim você acabou gostando. Há um termo usado para se referir a filmes que fogem dos aspectos “convencionais” da indústria: o paracinema. Acredita-se que filmes que se encaixam nessa categoria surgiram devido a restrições que os cineastas encontravam para realizar seus projetos (como falta de orçamento, por exemplo), ou a própria busca intencional por um novo tipo de experiência cinematográfica.

Segundo o próprio autor do livro que originou “O Artista do Desastre”, “The Room” se encaixaria no que chamamos de filme trash, graças ao orçamento reduzido (neste caso, mau utilizado, eu diria), produção completamente amadora e, como mencionei, a fuga dos padrões blockbusters convencionais (sem efeitos especiais de ponta e grandes locações). Além, é claro, da sua natureza transgressora, onde as atitudes dos personagens e os diálogos não parecem ter sentido algum, mas segundo Wiseau, carregam altas doses de simbolismo.

Porém, além de ser um filme trash, a natureza artificial e exagerada de “The Room” o encaixa em outro estilo cinematográfico: o Cinema Camp. Os espectadores que conseguem se identificar e gostar desse tipo de filme são atraídos pelo ponto de vista irônico dessas obras, ou seja, são literalmente seduzidos por conta do “mau gosto”. O objetivo do cinema camp é justamente subverter atributos como beleza e bom gosto, com o propósito de desafiar os padrões estéticos e narrativos, neste caso, do cinema (embora o termo se aplique em várias outras artes). Alguns dos maiores expoentes do estilo (que eu enxergo) são John Waters, (de “Pink Flamingos”), Harmony Korine (de “Gummo”) e o ícone do cinema “B”, Ed Wood – o qual Tim Burton fez um filme muito bom sobre em 1994.

A triste realidade superando a doce ilusão

Em entrevista à CNN, Wiseau declarou que após ter sido rejeitado por um produtor em Hollywood, originalmente havia escrito uma peça de teatro, mas devido a problemas de logística, adaptou o roteiro de “The Room” para o cinema. Ele era fã de escritores americanos consagrados como Tennessee Williams e Arthur Miller, ambos vencedores do Pulitzer, e queria que seu filme fosse uma história sobre um verdadeiro “herói americano”, alguém querido por todos e que vivia em um mundo onde o amor prevaleceria sobre tudo. Na minha opinião, Wiseau queria se sentir amado, algo que na vida real talvez nunca houvesse experimentado.

Pelo contrário, havia sido rejeitado a vida toda e possivelmente (por não saber lidar com pessoas) era alguém solitário e vazio por dentro. Sua excentricidade e excessos (de bens materiais e figurinos) poderiam estar compensando o medo de se abrir e sofrer uma decepção – tinha um ciúme desproporcional por Greg, a única pessoa que se aproximou dele e o medo da traição acabou se tornando o tema central do seu filme. Por que alguém o magoaria depois de ter sido tão bom para todos?

E infelizmente, Wiseau foi parar em Hollywood, o lugar que mais julga as pessoas pela aparência e status, como ele e Greg logo descobririam. Odiava ser comparado a vilões, como Drácula ou Frankenstein – recomendações do professor de atuação, que o enxergava como um ‘monstro’ devido a sua aparência e sotaque esquisito. Wiseau queria simplesmente ser um herói, com uma amizade verdadeira e uma “futura esposa” que retribuísse seu amor acima de tudo. Nas suas palavras, queria seu “próprio planeta”, ou seja, uma fuga da realidade.

Curiosamente, duas obras muito famosas dos dois grandes escritores citados anteriormente são recorrentes no filme: “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams e “A Morte do Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller – esta última, que Greg passou a atuar no teatro após o término das gravações de “The Room”. E o que essas duas obras têm em comum com o filme de Wiseau (se é que me permitem uma breve analogia sem forçar a amizade)? A incapacidade da ilusão superar a realidade.

Em “Um Bonde Chamado Desejo”, a protagonista Blanche mente para si mesma e para os outros porque se recusa a aceitar a vida difícil que levava – havia acabado de ter sido despejada e foi morar com a irmã e o cunhado. Essas mentiras permitiam que ela vivesse sua vida “como deveria ser” e não “como realmente era”. O cunhado Stanley, um homem duro e fisicamente agressivo, desprezava tais mentiras e fazia de tudo para desvendá-las. O antagonismo entre os dois durante toda a história representava a luta entre a aparência e a realidade. E a realidade vence, pois as tentativas de Blanche em refazer sua vida com um novo amor e salvar a irmã Stella de viver com o abusador Stanley falham, culminando em um trágico final.

Já em “A Morte do Caixeiro Viajante”, o protagonista Willy sonhava a vida inteira em ser um vendedor de sucesso, alguém com riquezas e liberdade. Para ele, a sociedade havia ensinado que se as pessoas são ricas e com bens, consequentemente serão felizes. Assim, ele achava que só o dinheiro o traria alegria e nunca se preocupou em encontrar a felicidade naquilo que já possuía. E quanto mais se entregava à essa ilusão, invejando conhecidos bem-sucedidos, menos encarava a dura realidade que a família enfrentava.

Certo dia, seu filho Biff descobre as mentiras que o pai contava e o confronta, resultando em uma grande discussão. Após ter seus sonhos frustrados por várias vezes, o final de Willy também é duro e cruel. E assim como os dois protagonistas citados, Johnny, o cidadão modelo de “The Room” – considerado por toda cidade o melhor funcionário, melhor cliente, melhor namorado, melhor amigo e etc – também descobre que vive uma ilusão, e quando finalmente precisa confrontar a realidade, acaba sofrendo o pior final possível.

Considerações finais

“O Artista do Desastre” é inspirador, mas ao mesmo tempo uma história triste, deixando uma sensação bastante agridoce quando feita uma reflexão mais profunda sobre tudo. Como saber se as pessoas estão rindo com você ou de você? Esse talvez seja o grande dilema da vida do misterioso Tommy Wiseau e provavelmente jamais saberemos o que se passa naquela cabeça que mais parece ter vindo de outro planeta.

Para alguém que odiava comédias, involuntariamente ele pode ter feito a mais espontânea de todas. Só as várias participações hilárias, onde além dos irmãos Franco, Seth Rogen, Ari Graynor, Jacki Weaver, Zac Efron e Josh Hutcherson revivem momentos inesquecíveis do filme original – como a cena do telhado ou o famoso “You are tearing me apart, Lisa!” – e as confusões entre a produção já valem o ingresso. E Franco merece todos os aplausos por uma direção segura e interpretação física e psicológica impecável, com todos os maneirismos e nuances do homenageado.

Se “The Room” consegue nos fazer questionar a barreira entre filmes bons e ruins – ou pelo menos ter prazer em reassisti-lo mesmo sabendo da baixa qualidade da obra -, “O Artista do Desastre” documenta de maneira divertida e eficiente uma das histórias mais inusitadas da sétima arte. Entre as perguntas que ficam, como Wiseau conseguiu fazer um filme tão ruim, teria sido proposital ou involuntariamente? E por que o filme continua arrastando plateias todas as semanas para os cinemas, mesmo 15 anos após seu lançamento? Isso talvez nunca saberemos, mas confesso que foi muito divertido acompanhar essa jornada bem de pertinho. Um dos grandes filmes do ano.

Bibliografia:

https://en.wikipedia.org/wiki/Paracinema

https://pt.wikipedia.org/wiki/Camp

https://en.wikipedia.org/wiki/Death_of_a_Salesman#Themes

http://www.sparknotes.com/lit/streetcar/themes/

Entrevista CNN:

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