É eminente o fascínio que tanto o cinema quanto os espectadores tem por histórias de serial killer. Talvez seja pela dúvida sobre o que leva pessoas normais cometerem crimes desumanos ou, quem sabe, apenas um escape para a realização de um desejo contido. A questão colocada ainda é um mistério, mas é certeza que as obras vão continuar se aproveitando da temática para trabalhar temas sociais de maneira metafórica diante uma história de um personagem, deveras, curioso.

Fatih Akin, como o iraniano Asghar Farhadi, procura em suas obras experimentar trabalhos sociáveis, com construções de narrativas envolvendo o comum, porém, procurando transmitir questionamentos aos espectadores. Por sua vez, O Bar Luva Dourada é sua ovelha negra dentre sua filmografia. Não por ser inferior, mas por se diferenciar do tratamento costumeiro do cineasta, além do tratamento sombrio que a obra envolve. 

No caso, Akin consegue fugir de uma clássica narrativa envolvendo personagens únicos e explora diversos gêneros dentro de um só. Tanto que se torna um complicado classificar seu novo longa, já que o mesmo traz momentos cômicos, aterrorizantes e dramáticos dentro de sua narrativa. E é dentro disso que a obra de Akin se destaca para fugir do clichê absoluto em trabalhar assassinos, já que muitos filmes caem na mesmice de ou trazer uma justificativa para suas atitudes ou simplesmente torná-los seres extremamente desumanos. No trabalho de adaptar a história do alemão Paul “Fritz” Honka – responsável pelo assassinato de, pelo menos, quatro prostitutas de Hamburgo – Akin manteve a preocupação em trazer certo equilíbrio entre os dois pontos.

Honka, apesar da desfiguração – que funciona como uma espécie de afastamento – é apresentado com tons humanos. A abertura da obra é feita com o personagem já em seu primeiro ato violento. Porém, o roteiro, também de Akin, preocupa-se em demonstrar dificuldade em suas atitudes, dando a entender a existência de um conflito interno. 

A apresentação funciona perfeitamente para a introdução, não só de todo o clima, mas também do próprio assassino. Honka é sim brutal e desumano em suas atitudes, mas não por completo. E fica a responsabilidade então de, conforme o desenvolvimento da narrativa, entender o seu mundo, contudo, sem justificar nada. É neste quesito que Akin trabalha sua análise social através das entrelinhas, encaixando discursos sobre uma realidade pós-guerra, xenofobia e a própria realidade difícil da pobreza e da exclusão, tanto financeira quanto social.

A direção toma conta desses quesitos de maneira segura, com um balanceamento saudável entre o tom sombrio e brutal, e seu toque mais “leve” para momentos de respiro. Ainda assim, a violência é presente, mas não com o mesmo impacto visual. Isso porque Akin teve um cuidado impressionante com sua direção de arte. Como é retratado durante os créditos, o cineasta procurou adaptar a realidade de Honka da maneira mais fiel possível e deixar sua “ficção” o mais próximo do verídico. Não é à toa que o mesmo explora uma violência crua em suas cenas, mas a ambientação, como a casa do alemão ou o bar, foram reproduzidas da maneira mais fiel possível, justamente com o intuito de fazer o espectador embarcar naquele universo aterrorizante de um ser igualmente aterrorizante. 

E isso se torna ainda mais fiel e poderoso pela profunda interpretação do jovem Jonas Dassler. A maquiagem perfeita esconde a juventude do ator para manter toda a maldade – mas também inocência – no olhar de Honka. Inclusive, o jovem alemão entrega uma performance de respeito devido a uma maturidade única e que merece o reconhecimento necessário diante sua presença no longa. Além de um trabalho visual impecável, há um trabalho de voz e de corpo único para embarcar de maneira ainda mais profunda no sujo universo de seu personagem. O trabalho com o cômico também facilita o embarque do espectador àquele mundo e àquelas pessoas. O texto ácido do alemão, presente também em outras de suas obras, gera questionamentos diante a plateia, já que há um certo incômodo quanto a rir diante uma realidade cruel. E também é através do humor que Akin demonstra a verdadeira essência daquela realidade construída na base do trauma. 

O ponto discutível também está na própria violência do filme. Neste quesito, há uma demonstração de um poderoso marketing para situações não tão chocantes como há na venda. Diversas outras obras conseguem transmitir um desconforto muito maior diante de cenas parecidas, como é o caso dos filmes do argentino Gaspar Noé. Ainda que a proposta aqui não esteja no mesmo nível de incômodo, Akin transmite o peso necessário para chocar os mais frágeis, e ainda gerar a discussão e análise proposta em sua adaptação. 

Mesmo chocante dentro de seu limite, O Bar Luva Dourada exibe uma história fascinante, conseguindo, paralelamente, discutir um cenário social único do pós-guerra, sem focar muito na compreensão exata da motivação de atitudes tão brutais quanto a do personagem.