Já é de conhecimento mundial, a até então “intensa” relação entre a atriz Uma Thurman e o diretor Quentin Tarantino era apenas um pensamento equivocado que o público tinha sobre eles.
Após diversas denúncias feitas contra o gigante produtor Harvey Weinsten, chegou a vez de Uma ir mais além. A atriz afirmou que, após sofrer estupros e assédios do produtor, ela chegou a contar os acontecimentos à Tarantino, que chegou a confrontar Weinstein sobre o ocorrido, porém, nada aconteceu, Tarantino se calou. Afinal, Weinstein era dono da Miramax, produtora parceira de Tarantino. Já conseguiu entender a relação né?

Após isso, durante as filmagens de Kill Bill, Quentin pediu que Uma fizesse uma cena bastante arriscada, em que a atriz teve que dirigir à 64 km/h em uma estrada de terra para que o seu cabelo “se movimentasse da maneira certa”, segundo o diretor. Acontece que esse tipo de cena não deveria ser feita por ninguém menos do que uma dublê experiente em situações desse tipo. Mas Quentin decidiu por fazer uma cena mais barata e basicamente obrigou Uma a fazê-la. O resultado disso foi uma entrada no hospital com diversas concussões que até hoje comprometem o pescoço e os joelhos da atriz. Veja o vídeo do acidente abaixo:

Essa breve introdução nos leva a um ponto muito profundo e extremamente sério. Aos olhos do público, que compra o ingresso de um filme que lhe agrada, que senta na poltrona indicada, com sua pipoca cheia de manteiga e um copo com um litro de Coca-Cola, o cinema é glamuroso. O público não está errado, a indústria cinematográfica é glamurosa, mas o que está por trás desse glamour pode ser muito podre.
Até que ponto a economia no orçamento de uma cena é mais importante que a vida de uma atriz ou um ator? Uma Thurman disse inúmeras vezes que não iria fazer a cena, pois sentia que aquilo poderia ser perigoso demais e que não tinha preparação suficiente. Mas Tarantino ficou furioso “porque levaria muito mais tempo (para resolver)”, disse Uma em uma entrevista concedida ao “New York Times” no último fim de semana.

Quentin Tarantino e Uma Thurman

‘Chegue aos 65 km/h ou seu cabelo não irá ser soprado pelo vento da forma correta e eu vou fazer você gravar de novo.’ Mas eu estava numa caixa da morte. O assento não estava firme no seu local. Era uma estrada de areia e cheia de curvas.

Uma Thurman

O problema é que a questão vai muito mais além do que aconteceu em um filme, com uma atriz, um diretor e um produtor. Apesar de isso já ser inaceitável, Hollywood está recheado de situações desse tipo, das quais nós não fazemos ideia, mesmo depois de toda essa onda de denúncias.
Quem se lembra da pequena Judy Garland, que aos seus 16 anos foi molestada por 40 anões durante as filmagens de “O Mágico de Oz” em 1939? Isso só se tornou público após sua morte, através do livro que o seu ex-marido Sid Luft, que morreu em 2005, publicou sobre a vida de Judy.
Acontece que esse não foi o único absurdo pelo qual Judy Garland passou aos seus apenas 16 anos durante as filmagens do considerado um dos clássicos do cinema. Garland ainda teve que se sujeitar à pressão pela silhueta perfeita, situação que teve um peso enorme em sua vida. A atriz ouviu que parecia ser gorda na tela e foi obrigada a adotar uma dieta absurdamente rígida e a fumar cigarros como distração para pular refeições. Tudo isso teve enorme influência para que a atriz tivesse uma morte tão precoce, aos 47 anos.

Judy Garland em "O Mágico de Oz"

Mas quem imaginava isso até 2005, quando tudo isso veio à tona? Quantos atores e atrizes se sacrificaram e ainda se sacrificam física e psicologicamente para atender à grandes produções que sempre visam o lucro?
Uma cena mais “barata” quase custou a vida de Uma Thurman, assédio e a pressão por um corpo perfeito custou a vida de Judy Garland, que não conseguiu se recuperar de seus traumas adquiridos nos sets de filmagens.
Hollywood (salvo exceções) é glamour apenas a partir do tapete vermelho.