Impossível não se deleitar e não se emocionar com a empreitada pioneira do escritor e diretor israelense Ofir Raul Graizer. Seu refinado jeito de conduzir uma história poeticamente tocante, fala diretamente com o público mais sensível. A beleza de O Confeiteiro – que estreia esta semana no Brasil – está em sua narrativa, em sua açucarada fotografia e na doçura de sua edição – isso sem mencionar os deliciosos planos detalhes das sobremesas como tortas e do preparo de saborosos cookies.

Graizer obteve um lírico e bonito resultado que, ao mesmo tempo, culmina um impressionante espetáculo cinematográfico.

Terno e sofisticado, O Confeiteiro foi selecionado para estar na disputa do Oscar ano que vem na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. E ele traz as características principais de um filme no qual votantes da Academia gostam de premiar.

Thomas, um jovem e talentoso confeiteiro e proprietário de uma loja, tem um caso amoroso com Oren, um israelense casado que frequenta o estabelecimento constantemente em Berlim. Oren compra doces de Thomas e logo após comprar um presente de aniversário para seu filho, eles se beijam e passam a ter um caso amoroso por um ano.

Oren volta ao seu país de origem e fica sem dar notícias a Thomas. Tentando entender o motivo de seu sumiço, Thomas viaja até Israel em busca do paradeiro do amante. Lamentavelmente, Thomas descobre que Oren morreu em um acidente de carro.

Sem levantar qualquer suspeita, Thomas se instala na vida de Anat, viúva do parceiro. O confeiteiro, que de início iria apenas conhecer a família de Oren, começa a trabalhar no pouco frequentado café kosher (comidas que seguem rigorosamente o livro sagrado dos judeus) de Anat.

Com as gostosas receitas de Thomas, o café começa a bombar e a relação entre eles vai ficando intensa, fazendo com que Anat se apaixone lentamente por ele, sem saber do seu segredo. Com isso, ele passa a compartilhar silenciosamente a mesma dor de ter perdido o mesmo homem.

Não bastasse isso, o choque de culturas e a prática do judaísmo que Thomas não leva muito em conta, tem uma aproximação com Hannah, mãe de Oren e Motti, seu irmão. Enquanto Hannah se mostra gentil, Motti não faz questão de se mostrar inóspito.

Não por acaso, o filme do diretor Ofir Raul Graizer foi laureado com seis prêmios no Ophir Awards de Israel, incluindo nas categorias de Melhor Filme, Diretor, Roteiro e Atriz (Sarah Adler), porém, infelizmente, ficou de fora do Globo de Ouro.

Nada como terminar o ano assistindo a um filme repleto de lirismo, elegância e sutileza de uma bela imagem contundente nos mostrando que não há barreiras quando se ama. Os protagonistas vivem em mundos e culturas distintas: um é alemão, o outro é judeu e mesmo assim eles não dão a mínima para isso, porque o amor que os envolve é mais forte e está acima de qualquer preceito religioso.

As diligentes cenas de carícias e sexo são de uma ternura ímpar que respeita os limites do pudor daquele público mais conservador (talvez este seja o único erro que o diretor tenha cometido – mas não deixa de ser esbelto).

A solidão e a dor de perder a quem se ama está estampada não apenas na fisionomia de Thomas, que se aproxima da família de Oren para se sentir mais próximo dele e saber mais sobre sua vida. Está também na suavidade de cada detalhe que o filme nos apresenta e no fato dele se adaptar aos costumes de um país onde sua nacionalidade é hostilizada.

Enfrentando a tudo isso em silêncio, Thomas é suficientemente crível para nos convencer de que deixar tudo para trás é um risco necessário que precisou correr.

O Confeiteiro é perfeitamente comestível visualmente e a cereja deste bolo recheado de meiguice e blandícia como cobertura, é seu sedutor e puro argumento. Sua refinada fotografia é um espetáculo à parte valorizada por belas locações que contribui para transmitir comoção e acredite: nas mãos de um diretor preocupado com este detalhe, cada caída de folha, cada passo das pessoas nas ruas nos transmite a emoção de ver algo tão formoso.

Imperdível!