Por Anderson Fernandes.

Conflito amoroso? Roteiro com diálogo profundo? Não estamos falando de Woody Allen, mas de Hong Sang-soo (“A Visitante Francesa”).

Segundo o escritor Donald Ritchie sobre o cineasta Japonês Yasujiro Ozu, ele possuía apenas um assunto, a família, e apenas um tema, sua dissolução. Neste caso não seria sobre costumes japoneses, mas o que podemos ver dissoluto é a relação de um casal sul-coreano em preto e branco, que possivelmente seja o forte de Hong Sang-Soo, as relações interpessoais e como elas podem ser complicadas.

A crônica quotidiana de comédia dramática nos apresenta Kim Bongwan (Kwon Hae-hyo), um editor literário de meia idade atravessando crise existencial, crise essa que nos da à impressão de permear boa parte de sua vida. A película volta-se exatamente para o caso extraconjugal do editor, que apesar de ser brilhante em suas colocações de índole quando divaga com sua nova funcionária, parece não perceber o que acontece ao seu redor. Certos momentos da trama Bongwan deixa o espectador com dúvida se suas intenções são de pura covardia e canalhismo ou meramente de sua ingenuidade, em outros instantes busca motivos externos para desmerecer seus próprios erros.

Além da figura de seu protagonista, o diretor nos apresenta a Areum (Kim Min-hee), a funcionária do editor em seu primeiro dia de trabalho e que já acaba por se envolver em sua trama particular e cômica. Podemos dizer que ela estava no lugar errado na hora errada. Areum é uma personagem tão profunda quanto o anterior, entretanto totalmente diferente no modo de enxergar. Também tem papel importante no contexto da história Lee Chang-sook (Saebyuk Kim), a amante de Bongwan e Cho Yunhee, a esposa.

 

 

O filme inicialmente nos coloca na parede e nos faz pensar sobre o que realmente está a acontecer devido a sua falta de clareza e detalhes sobre a temática, algo muito bem pensado pelo cineasta para cativar o interesse do público sobre o decorrer da história. A falta de linearidade em alguns momentos sempre é bem-vinda e no geral agrega a produção, em “O Dia Depois” não foi diferente, trazendo mobilidade à melancólica transição de fatos da narrativa.

Se parar e ver em sua vida, todas as importantes conversas são tratadas ao redor de uma mesa, seja ela de um bar, restaurante ou de escritório, Hong Sang-Soo nos faz acreditar que isso é verdade, as decisões e idiossincrasias de seu protagonista e seus coadjuvantes são inteiramente declamadas ao redor de mesas, em cenários de ambientes internos de não tirar o fôlego, mas combinados com a falta de cores deram a harmonia necessária para que a fotografia ficasse aprazível.

As boas atuações são algo a se destacar, porém o grande pilar do filme está no roteiro, mais precisamente nos diálogos, se Poe disse que “os olhos são a janela da alma”, certamente podemos chamar o roteiro de “olhos”.

É um belo filme, que segue a linha underground das produções asiáticas em fugir de efeitos especiais dos blockbusters e dessa forma criar obras delicadas, “além de passar a mão em alguns prêmios”, grande agregação ao currículo do sul-coreano.