Esse é um texto com minhas análises sobre vida e obra de Sylvester Stallone com o filme Rocky, o quanto se casa a vida do ator com o do personagem, juntando alguns fatos reais e suposições que sinto ao ver uma das minhas séries favoritas, trago para você só porque Rocky é muito mais do que um filme sobre boxe, mas sim uma saga sobre a vida de um homem que lutou pelo seu sonho.

Para uma melhor experiência, pedimos para que acompanhe o texto a seguir com a trilha sonora da saga Rocky.

 

 

Nascido no dia 6 de julho de 1946, Sylvester Stallone 30 anos depois disse em uma entrevista:

”Todos os dias sinto falta do meu melhor amigo ( Rocky Balboa). Pois, eu nunca mais terei aquela voz, onde eu posso verbalizar o que eu sinto no meu coração. Isso é algo que sempre admirei no personagem, pois se eu disser, você não vai acreditar,mas quando Rocky dizia algo, era a verdade.”

Rocky ou Stallone, já não se pode separar o que existe nessa história. Como a saga de um homem que veio do nada e se tornou uma lenda, fez um ator com o rosto paralisado, devido à um problema de nascimento, se tornou um dos maiores astros de todos os tempos? Como um homem que era constantemente interrompido em realizar o sonhos de ser ator pela sua fisionomia e o pouco talento, veio a nos dar um filme que alimenta as frestas das incertezas?

Como a criança pobre com a boca torta, o menino que fora expulso de 14 escolas, o homem falido que em sua casa conseguia abrir a porta e fechar a janela sentado da cama, fez com que o mundo o olhasse? Como o próprio Stallone nos disse, mais acima, com a verdade, em cada take, em casa muro, em cada queda ou corrida para vencer uma escadaria.

Que as trompetas de Bill Conti soem, que o nome Rocky dance pelos nossos olhos, que o filme aconteça em nossa pisque, que conseguimos respirar o a parar entender como “levantar e continuar tentando.” É com uma coleção de experiências de um ser perdido e a dança com a verdade de um simbolo, que seguimos para esse primeiro capítulo sobre a história e a lenda de um homem. Veremos como a relação da vida de Stallone e Rocky são formidáveis e semelhantes.

 

 

A primeira vez que vemos Rocky, é com uma imagem descendo dos céus pintados com ferramentas humanas, passando por deuses poderosos, acima do medíocre, do caos. O diretor John G. Avildsen nos mostra um homem dentre as cordas, encurralado, temos em pé, meio bambo, um italiano que mostra a face para defender o sonho, o homem que é socado nos olhos, a cada soco dá um passo para frente com o pouco que tem. O andar pesado pendendo para os cantos por onde determina atacar, nos mostra alguém que tem tudo para cair, mas prefere dar razão ao quase nada que tem para se manter de pé.

Junto ao lixo e as migalhas, temos a altura de um homem que caminha por entre solas de sapatos, onde se esquiva dos bicos das botas de quem corresponde ao que dá certo. E o que é dar certo na vida de um lutador que faz lutas arranjadas por 14 dólares?

Talvez fica mais claro, quando entendemos o cachê de 200 doláres, de um desprezado ator de 24 anos, fazendo em um softporn com o nome de “The Party at Kitty and Stud’s”, para ter com o que viver. Foi lá que Stallone ouviu pela primeira vez que: “ O mundo ainda vai ouvir falar do garanhão italiano “– nome do seu personagem no filme, e mais tarde, nome dado para Rocky como lutador. Mesmo entrando na universidade de arte dramática dos Estados Unidos, o rapaz era cotado como sem talento, seu rosto dificultava sua atuação, sua movimentação facial dificultava para se encaixar em alguns papéis .

 

 

Vestindo um roupão com um vermelho apagado, somos apresentados para um homem sem vida com toda a sua verdade ainda para ser colocada para fora. O vermelho gasto é carregado por um homem com o seu poder frágil.

Feixes remetem uma luz amarelada sobre os ombros de Rocky no ringue, que ali é o anunciado que estamos diante de um único momento em que Rocky pode revidar a vida, pode balançar e não cair, pode sentir o peso e ainda sair vencedor. A câmera o cerca debaixo para cima, para que possamos entender Rocky, precisamos ver tudo de uma perspectiva de quem sempre olhou para o topo.

A loja de animais tem um papel fundamental com a vida de Stallone, além de termos o primeiro contato com Adrian – que falaremos mais tarde -, temos Balboa e sua paixão pelos animais. Stallone de fato vendeu seu cachorro Butkus – que está no filme – por 50 dólares por não ter o que comer e não poder oferecer nada para o cão. Stallone sempre revela que isso foi o ponto de virada da sua vida, ele pensava sempre que algo não estava fazendo de tudo, por mais que falassem que nada poderia ser feito. Com 106,00 dólares em sua conta, com o cachorro vendido, sem tv ou algo para comer, a distração em sua casa minúscula era escrever, e foi aí que ele começou a fazer seus roteiros. Butkus foi uma das perdas mais dolorosas da vida de Stallone, mas um dos motivos mais fortes para tudo mudar, e o Petshop no filme é mais uma linda homenagem à esse duro cápitulo.

 

 

Talvez olhar para trás tenha sido doloroso, olhar nos olhos daquele garoto lá no passado que tinha as esperanças transbordando no copo, dando lugar para um homem rejeitado, seja uma das coisas mais dolorosas para todos aqueles que desistem. Esse é um ponto chave do encontro de quem esvaziou o peito para o peso ficar menor por não poder ser, com aquele que respira a esperança a cada canto de sua existência. Rocky, muitas vezes nos prova que saber o nada é a chave de todo o conhecimento, devemos nos livrar do conhecimento do medo, da fagulha da perca, da presa, da ganância e respirar a inocência de uma esperança tola, que uma incoerência que transtorna os intelectuais, dar lugar do revidar para o não cair.

 

 

Quem é Mickey?

Prefiro pensar em Mickey como uma faceta que Stallone ainda vai passar anos depois, o homem que sonhava com uma vida, mas acabou sonhado por ela. Um homem que aos 70 anos ainda guarda coisas no porão, Mickey nos trás uma arrogância sem tamanha muito dada pela amargura do não se realizar-se, pelo prestígio ser dado por quem faz menos que ele. A dolorosa vida de um homem que determina sonho de outros homens, nas mãos de Mickey se encontra um poder que nem ele está preparado para tal, a preparação para o sonho é algo que se deve em uma relação indescritível de mestre e aluno, técnico e atleta. Mickey vê em Rocky um reconhecimento do seu próprio passado, porém nadando para o lado da descrença, do acomodo, da desconfiança em si mesmo. Stallone nos trás um personagem que propõe a dúvida de uma carreira que nada corre como se espera, quem seria o homem que não vingou em suas oportunidades. Quem somos quando não somos os escolhidos? Ou quem somos quando não nos damos a chance de nos escolher, a auto-sabotagem de Rocky é vista nas ruas dos anos de 1976, como também em 2018.

Vemos Rocky tentando evitar que a pequena Marie, ande para caminhos que ele conhece, é uma conversa com a época, os Estados Unidos vinham de uma pesada depressão econômica. Filmes como Taxi Driver refletiam uma geração desperançosa, um protagonista com questões contráditórias, uma verdade pesada, indigesta, crua e viceral. O modo como Marie trata Rocky, é a forma como Stallone era visto por uma sociedade que não sonha e não prospera, era fácul olhar para um ator desajeitado e dizer que nada vai dar certo, Marie nos retrata a desconfiança de quem nasce debaixo continua embaixo, sem perspectivas de ver as coisas do alto.

O fato de Apollo dar uma oportunidade para Rocky, se deve a Stallone ter feito um teste para um filme , onde o papel não era para ele, e por fim em uma conversa final do teste, ele disse por cima que estava com um roteiro que havia escrito, os produtores se interessaram pediram para ver o roteiro, o que é uma raridade hoje em dia. Ao mostrar logo os produtores mostraram empatia pelo roteiro do filme de Rocky, a “sorte” veio por continuar falando, segundo o próprio ator, ele sabia que devia lutar por aquela história.

 

 

Paulie é o literal estado de Stallone na época, o seu maior antagonista, sua raiva no mundo, parece não encontrar seu lugar. Paulie veta que está ao seu lado, pois aos poucos se torna o melhor amigo de Rocky, e até que Stallone, mostrando o que é preciso ser deixado para trás, o que não se deve refletir nas suas ideias, a própria ideia de não ser algo, deve ser a coisa que temos como maior aliada. Paulie é a impaciência de 30 anos sem se tornar nada.

– Comecei à lutar, quando meu velho me disse você não tem muitos miolos, us eo seu corpo.
Rocky

– Minha mãe me disse o contrário, você não tem corpo, use a sua cabeça.
Adrian

 

 

Sem Adrian não existe Stallone.

Adrian é todo o sonho e a verdade sobre ele que existe, é o núcleo de Stallone. Adrian personifica toda a ideia celestial de amar fazer algo, amar ser algo. A partir do momento em que Rocky encontra Adrian, ele tenta impressioná-la com os seus dons pouco impressionáveis, mas como uma verdade decisiva. Talvez pode caber pensar em todo o momento em testes em que Stallone tentou impressionar algum produtor para algum papel, e entendia que estava nas mãos no olhos e na verdade de outra pessoa seu futuro. Só no momento em que Rocky luta com todas as forças e com sua pureza para mostrar para Adrian quem ele realmente é, ela se rende ao bobo da vizinhança, ao malandro com um coração enorme. É sem ter muito que Stallone vende seu cachorro para ele ter o que comer, é sem distração que ele decide mudar sua vida vendo uma luta entre Chuck Wepner x Mohammad Ali. Um aluta de uma lenda, contra um desconhecido, Wepner pela primeira vez na história derrubava o maior boxer de todos os tempos, levar Ali à lona mostrou para Stallone o reflexo do espelho.

Fez Sylvester entender que mesmo que Wepner não tenha ganho, ele construiu em uma lasca do tempo, um momento celestial no mundo do boxe. O dia em que um homem enfrentou um deus do boxe, foi o dia em que um homem se revoltou contra os seus antagonistas e resolveu em 3 dias escrever o argumento de um história de um rapaz que vive nas ruas, quem o olha diz que ele é um malandro, não reside futuro em seus ombros, mas que com uma oportunidade vai se tornar um dos maiores símbolos da história do cinema.

Adrian é a origem de Rocky, é o sonho mais puro e pessoal que resite no ator e no personagem, ela é tão fundamental que o mantém de pé, que movimenta a trama. Podemos assemelhar tal fato coma resistência de Stallone para com qual os produtores que queriam comprar o seu roteiro. Vale lembrar que o ator tinha poucos dólares, passava necessidade, estava falido, tinha 30 anos, uma idade para quem conquistou nada no ramo dos atores dos anos 70, fracassado.

 

 

Primeiro ofereceram 100 mil dólares para a compra do roteiro sem o envolvimento do ator, mas Stallone disse que se não fizesse o filme o negócio não seria firmado, e que no seu íntimo sabia que seria a sua última oportunidade, que o filme fazendo sucesso sem ele como protagonista seria uma coisa que não saberia lidar depois. Foram oferecidos 150 mil, 175 mil, 250 mil para a não participação do ator, que realmente refletia dificuldade de atuação. Nomes cotados para o papel como de Ryan O´Neal, de Love Story era o principal para viver Rocky, mas a verdade de Rocky era tão arrebatadora, a sua Adrian existia tanto em Stallone, que o sonho deveria ser dele, foram oferecidos 360 mil dólares à um homem que nada tinha e ainda sim resistiu, pela única verdade que importa, viver o que merece. Por fim, cortaram o orçamento pela metade, avaliado por 1 milhão de dólares, mais 25 mil para Stallone pela venda do roteiro, com a a sua atuação garantida.

 

 

O nada em Hollywood

A desconfiança em Rocky era tanta, que até no teste para Apollo, o ator Carl Weathers, ao atuar com Stallone, disse que o homem que contracenava com ele deveria não deveria ser Rocky, e que ele deveria melhorar. Tanto produção como o ator hipotecaram bens materiais, por ter estourado o orçamento, o risco do filme ser um fracasso era enorme, mas todos revelam que existia algo ali que contagiava a todos.

Quem é Apollo?

Apollo é tudo que Stallone via nos outros atores, é tudo que sempre quis ser, a desenvoltura, o sucesso, o estrelato, a fama. O combate final mostra para Rocky que todos os seus ídolos, são percalços e embates que ele tem que fazer para ser apenas ele. Apollo são os atores, os diretores, os captadores de elenco e a critica. Tanto o menosprezo de que já era da industria com quem ainda não conseguiu mostrar o seu trabalho, Apollo é o cerne do que se deve encarar quando todas as questões estão contrárias ao seu êxito.

 

 

Stallone pede para Rocky não recuar.

 O pedido de Paulie para treinar Rocky, é um dos momentos mais dolorosos da saga, vemos um homem que nada prospera, com um que nada modifica. A desconfiança gerada em torno do protagonista do filme era tanta, que existiam cenas quem eram colocadas apenas um único take. Muitas pessoas da produção, não enxergavam a importância do drama, a veracidade dos fatos, o quão aquilo seria a inspiração que o povo americano precisava. A luta era de extrema valia para a maioria dos executivos, mas Stallone fazia ainda mais sobre os detalhes, enxergar a construção, foi o que deu combustível para a luta final ter uma relevância ainda maior. Por vezes Sylvester saltava de uma van e começava a correr para ser gravado, muitas vezes sem forças para continuar, era motivado pelos outros, que falavam que a dor é o peso que o personagem precisa, ele é esse peso, a dor é sua verdade. O reconhecimento de Paulie é ao mesmo tempo doloroso e magnifico para Rocky, a sua carência e sua fome pela experiência de se tornar algo dão lugar ao medo de se abrir para as suas próprias falhas, o medo de falar estremece a rocha, dúvida do êxito, e por fim ao olhar o que resta sem Paulie, Stallone desce as escadas e promete ao seu futuro sem êxito, que ele nunca vai existir. Entender que você vai morrer é uma ótima maneira para saber pelo que viver.

Butkus

Ao conseguir os 25 mil dólares pelo roteiro, Stallone foi atrás de seu fiel companheiro Butkuss, onde tinham vendido por 50 dólares, ao chegar na casa do homem que o comprou, o homem sabendo que Stallone iria faze rum filme não vendeu o cachorro por menos de 15 mil dólares, mais uma participação no filme. Stallone comprou Butkus de volta pelo valor proposto e ainda deu um papel para o homem que o revendeu. Butkus participou do filme e Stallone sempre diz que comprar seu amigo de volta, foi uma das melhores experiências em sua vida.

 

 

Estava feito, seria rodado, seria lançado o sonho poderia se tornar realidade ou a última chance de sua vida.

Quem é Stallone no meio disso tudo?

– A quem estou enganando, não estou na classe dele. – Rocky

– Você se esforçou tanto – Adrian

– Não importa, pois eu não era nada antes … eu não era ninguém, mas isso também não importa, eu estava pensando, não importa mesmo se eu perder essa luta. Tampouco importa se Creed abrir a minha cabeça. Porque tudo que eu quero é aguentar até o 15º round. Ninguém nunca chegou até o fim com o Creed, se eu puder aguentar até o fim. O gongo tocar , e eu ainda estiver de pé, saberei, que pela primeira vez na minha vida, não fui um bobo da vizinhança.  – Rocky

Esse diálogo tão poderoso seria retirado segundo os produtores, pois não viam valia nele, mas quando vemos Rocky em meio a possibilidade de ser algo, ele apenas entende que quer existir em alguma fagulha do tempo, sendo no íntimo ou nos olhos alheios, ele apenas queria uma vez acreditar que poderia ser algo muito maior do que já fora. Não como um show, mas como um luta. Stallone implorou para a cena acontecer, e ela veio a ser feita com apenas um único take, com Stallone bêbado mas com uma vontade de fazer com que todos entendam sobre o que era Rocky, sobre quem ele contava, sobre o porque ele lutava tanto para não vender algo descartável na mão de muitos, como sua crença prevaleceu as ações e gostos.

É sobre manter-se de pé, é sobre transformar o inimaginável no incomodo fato de nunca render-se, é sobre a especulação do que ser e do que saber do que é, a partir do momento em que Rocky determina quem ele será com todo o medo que o consome, ele nos revela que por de baixo do véu está um homem que nunca teve uma chance de se provar uma verdade, e a única chance de existir era realmente não desmoronar os deuses, mas se manter de pé quando eles insistem em nos curvar.

Rocky nunca foi sobre um final, sempre foi sobre um começo para todos nós, sempre se revelou a mais pura e bela vida. Por vezes amarga, mas magnifica em sua arquitetura. Stallone na premier do filme, disse que não houve reação dos críticos, não existiu barulho enquanto o filme passava. Decidiu esperar o filme acabar e todos saírem da sessão de imprensa, olhou com os olhos cheios de água para a sua mulher na época e revelou, esperei que todos gostassem, mas ninguém esboçou nenhum reação, solitário na sessão estava Stallone e a tela em branco com os assentos vazios e perguntas do porque, o filme se revelava aos outros sem empatia.

Contrário do que achou, assim que saiu da sessão estavam todos os críticos de pé o aplaudindo. Revelando um verdadeiro fervor que viria a ser. 3 Oscar de melhor diretor, melhor filme e melhor edição, e uma franquia que resiste através do tempo, sobre a história magnifica de um homem que não deixou deuses escrever seu destino, ele não só escreveu como filmou, contou e foi tudo o que sempre foi, sem esquecer a verdade que existe em seu melhor amigo Rocky Balboa.

Fim da primeira parte.