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Com seu estilo de direção cheio de humor negro “a lá” irmãos Coen ou Guy Ritchie, o diretor romeno Corneliu Porumboriu ganhou muita notoriedade dentro e fora do seu país com os filmes ‘A Leste de Bucareste’ (2006) e ‘Polícia, Adjetivo’ (2009), que juntos do próprio ‘O Tesouro’ foram todos premiados no prestigiado Festival de Cannes. Um feito extremamente importante para o próprio cinema, levando em consideração o baixíssimo orçamento de suas produções, provando mais uma vez que para fazer um grande filme não é necessário gastar rios de dinheiro.
Seu mais novo trabalho ‘O Tesouro’ reside em um contexto muito simples. Passando por uma situação financeira difícil, Costi (Toma Cuzin) tenta levar a vida sustentando sua esposa e filho, quando seu vizinho Adrian (Adrian Purcarescu) faz uma visita para lhe pedir algum dinheiro emprestado. Costi ouve seu problema, mas infelizmente não pode ajudá-lo. Alguns dias depois, entretanto, Adrian volta a falar com Costi, mas desta vez lhe apresenta uma proposta: se Costi conseguir alugar um detector de metais, há uma lenda que seu avô enterrou um tesouro no quintal de um terreno da família durante a invasão dos comunistas à Romênia e caso ambos encontrem esse tesouro, o mesmo seria dividido meio a meio entre os dois.

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Talvez o grande êxito da simplicidade de ‘O Tesouro’ é que os personagens pareçam mesmo pessoas reais. Através de problemas cotidianos como a dificuldade em pagar as contas ou de educar um filho, o diretor Porumboriu faz com que o espectador se identifique e se importe com os personagens. O roteiro do próprio diretor obedece a sua lógica interna, não há uma clara tentativa de manipulação do espectador para que ele possa gostar ou não do protagonista ou um excesso de situações gratuitas que forcem o filme a ficar mais interessante ou envolvente. Costi é apenas um homem comum, que lê histórias de Robin Hood para seu filho e está passando por dilemas que qualquer um de nós poderia estar na mesma situação.

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Mas apenas filmar o cotidiano em si não seria suficiente, portanto a história de ‘O Tesouro’ é cheia de significados. Sempre que falamos de dinheiro, precisamos reconhecer que a ganância é inerente a algumas pessoas, bem como as diferenças ideológicas que podem surgir quando começamos a nos relacionar com alguém que não conhecemos bem. E ainda temos a questão burocrática, o envolvimento da polícia e o interesse do governo em tesouros que podem ser considerados patrimônio nacional. Como lidar com tudo isso? Por meio de excelentes atuações do seu elenco, que realmente parece estar vivenciando os conflitos do filme, as decisões da direção parecem ser completamente verossímeis.

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Outro ponto que chama a atenção é a ausência praticamente total de trilha não diegética. Os enquadramentos, a iluminação e movimentações de câmera são bastante sutis para não desviar o foco da história com artifícios técnicos e estilosos. A direção de arte também combina com o tom do filme, sem a necessidade de chamar exageradamente a atenção. Mal comparando, ‘O Tesouro’ é um exemplo de filme que se aproxima bastante de um Dogma 95, pois o objetivo principal é de realmente contar uma história.

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Através de uma direção intuitiva e sem vícios de Corneliu Porumboriu, ‘O Tesouro’ é uma grande surpresa a ser exibida no circuito nacional. Um drama simples e conciso, mas muito interessante e curiosamente envolvente. A edição mantém o ritmo da história fluindo pacientemente, acrescentando camadas de significado ao que está acontecendo no momento, sem a deliberada intenção de impressionar o espectador. Há um realismo emocional genuíno ali, ou seja, talvez pela curiosidade ou por nos colocarmos na situação do protagonista, uma vez envolto pelo filme é impossível abandoná-lo. Quem ainda não conhece o cinema romeno ou a filmografia deste diretor muito interessante que é Porumboiu tem a oportunidade de ficar de olho nele daqui para frente, pois o mesmo se mostra um profissional muito competente e promissor.