Filmes históricos merecem um gênero diferente no cinema. Por toda a produção necessitar de figurinos primorosos, elenco talentoso e uma fotografia encantadora. Mas além de tudo isso, exige, em primeiro ponto, um bom roteiro. “Troca de Rainhas”, adaptado do romance da francesa Chantal Thomas traz um momento histórico interessante da Europa do século XVIII, e por mais distante do ano 2018, é tão atual quanto. Não só na discussão da imponência feminina, mas sobre o destino definido pelos outros.

Ainda vivemos em tempos onde o certo é fazer o que os definidos como mais experientes mandam, ao invés de tomarmos nossas próprias decisões – as que realmente nos fazem bem. Obviamente, num mandato que define o futuro de uma nação, essa realidade é ainda pior. Sem contar o ano. Mas, só assim aprendemos com a história, e que aqui, temos a troca de Luísa Isabel de Orleães e Maria Luísa de Saboia para virarem princesas – sim, a tradução brasileira está equivocada – uma da França e outra da Espanha. Com potencial o suficiente para impor discussões modernas, o longa escolhe em focar exatamente nessa situação, sem ultrapassar muito. Tanto que o roteiro segue a risca e termina do mesmo modo que começou, caminhando muito para levar a nada, como na história. Mas aqui, o foco está na jornada, principalmente na interna de cada princesa, apesar das mesmas também não se transformarem com o passar do tempo. Contudo, “Troca de Rainhas” mantém sua qualidade no tratamento delicado que Marc Dugain colocou em sua direção.

 Todos os recursos necessários para um bom filme histórico está presente. Os figurinos são primorosos, o elenco é talentoso e a fotografia é encantadora. Mas ainda assim, falta algo a mais. A direção, junto com o roteiro adaptado de Dugain mantém o mesmo padrão. Seu modo cadenciado de dirigir coloca um padrão único para o longa, trazendo momentos mais delicados e, consequentemente, mais lentos para o caminhar da história. Isso leva o desenvolvimento da trama ser arrastada para não chegar a lugar nenhum. Todas as mudanças realmente são circunstanciais, mas ainda supérfluas. A escolha íntima de Dugain usar poucos planos gerais e trazer o espectador mais para o interno da história funciona por pouco tempo. Depois, quando há a espera pelo desenvolvimento, ele se mantém estático na situação. Mas longe disso ser um erro do próprio filme, até pela fidelidade da história. O erro, no ententanto, está na maneira que foi contada.

Não há um convite vantajoso ao espectador, que precisa se dedicar muito a embarcar 100% na história. Entretanto, tecnicamente, Marc Dugain entrega primorosamente seu quarto longa. Com uma fotografia que explora de forma belíssima o interno dos palácios e brinca muito com jogo de luzes, visualmente, “Troca de Rainhas” é encantador, do mesmo modo que o elenco trabalha, principalmente Anamaria Vartolomei e Juliane Lepoureau no papel das princesas. Anamaria, no entanto, acaba sendo mais exigida pela idade, tanto da personagem quanto da atriz e se demonstra madura, já que seu papel é de uma jovem bem mais exigente e questionadora sobre as atitudes políticas da época. Por outro lado, Juliane também trabalha de forma madura, mas mais limitada quanto a sua personagem, que é bem mais inocente e não tão próxima dos acontecimentos políticos da época. A idade da atriz também prejudica em uma entrega mais completa ao papel, mas dentro de suas limitações, o trabalho é bem feito. Por parte do resto do elenco, também há uma realização caprichada, principalmente dos mais veteranos, como Lambert Wilson (“A Incrível Jornada de Jacqueline”) e Olivier Gourmet (“A Garota Desconhecida”).

 Ao todo, “Troca de Rainhas” não traz uma obra histórica tão diferente de outras já realizadas, com técnicas primorosamente bem elaboradas. No entanto, o roteiro, junto a direção controlada e pesada de Dugain provocam um distanciamento do espectador para com um retrato histórico discutível e análitico para uma sociedade complexa e ainda aprofundada em ideologias retrógradas.