O cinema é uma arte em constante renovação. E, embora os produtores tenham um papel importante na maneira como os filmes são conduzidos, é a partir da visão dos roteiristas, diretores e atores que as histórias e a própria indústria se desenvolvem. Denis Villeneuve é uma dessas pessoas. Por isso, costuma-se esperar grandes coisas de suas obras.

Hoje, aos 49 anos, o canadense chega à 89ª edição do Oscar indicado a Melhor Diretor pelo longa “A Chegada”, obra nomeada a outras sete categorias. Mas não é de hoje que chama a atenção – em 2011, seu filme “Incêdios” concorreu a Melhor Filme Estrangeiro. “A Chegada”, sua estreia na ficção científica, é apenas o seu mais novo trabalho, aclamado pela crítica mundial e, por muitos, colocado como uma das melhores produções do gênero.

Mesmo novato, a ficção científica caiu bem a Villeneuve, como o faz ao prestigiado Darren Aronofsky. Ambos os diretores têm estilos bastante particulares, é verdade. Porém, o que aproxima a obra dos dois é não somente o fato de suas respectivas assinaturas saltarem aos olhos do espectador, mas como usam suas produções para questionar o ser humano em si mesmo: enquanto Aronofsky constrói, em tons gélidos, toda a trajetória dos homens em meio à loucura e à paixão rumo ao abismo, Villeneuve usa estes mesmos tons para empurar a humanidade ao seu próprio encontro.

Para entender como ele chegou até aqui, vejamos a trajetória dele nos últimos dez anos:

2008: “Próximo Piso”

Neste ano, lança o sensacional curta “Próximo Piso”, uma crítica impecável ao capitalismo. Com uma fotografia limpa, o diretor consegue mostrar que a dita limpeza é apenas uma farsa em comparação com a realidade da vida, ou seja, os “limpos” são tão sujos quanto aqueles que os servem. Os detalhes do longa sugerem uma direção preocupada com as expressões, a exemplo do modo como foca no rosto do mordomo e usa gestos para ilustrar a “nobreza”. São justamente estas pequenas coisas que fazem com que o curta seja interessante.

2009: “Politécnica”

Chega, então, “Politécnica”, contando a história de um homem que acredita que sua vida foi arruinada pelas feministas com as quais conviveu. Motivado por essa ideia, decide entrar na faculdade e matar todas as mulheres com um rifle.

Amargo e tenebroso, o filme se torna até mesmo agonizante. O preto e branco na fotografia descreve bem como o protagonista vê o embate entre machismo e o feminismo, duas correntes que desunem gêneros em vez de propor igualdade. Villeneuve nos premia com um longa honesto e cruel, que nos propõe, em meio a um cenário triste, uma reflexão mais atual do que nunca.

Um dos grandes destaques da produção é a cena em que um dos protagonistas, depois de um momento de terror, caminha pelos corredores e Villeneuve o espera com uma câmera de ponta-cabeça. Uma metáfora simples, mas que diz muito sobre a situação e a reação da personagem. Quando abre a porta, a câmera gira e devolve a normalidade à cena.

2010: “Incêndios”

Se compararmos novamente com a obra do diretor Darren Aronofasky, “Incêndios” seria como um “Fonte da Vida”: pouco conhecido, mas magistral. No longa de Villeneuve, acompanhamos a história de dois irmãos gêmeos que descobrem, lendo o testamento da mãe, que tem um irmão e um pai, até então dado como morto. É definitivamente um daqueles filmes que te ganha aos poucos, mas que surpreende com um final espetacular.

Em “Incêndios”, Villeneuve vem como diretor e roteirista e nos entrega um filme que tem que ser visto, sendo compilado no top 10 de muitos cinéfilos. Então, largue suas coisas, ligue a TV e aperte o play.

2013: “Os Suspeitos”

Depois do sucesso na crítica mundial por “Incêndios”, Hollywood entrega para Villenueve um dos seus primeiros trabalhos de maior visibilidade, “Os Suspeitos”. O tema central do longa poderia ser resumido como o sequestro de duas garotas, mas, com este diretor, a história nunca é tão simples.

Na época, foi uma produção muito badalada. Afinal, o olhar do filme cai sobre os ombros de Hugh Jackman, que interpreta um pai desolado à procura da filha. Vale destacar também a atuação de Paul Dano, excelente como sempre.

Porém, apesar de tentar criar suspense e ser competente em alguns casos, o impacto final é fraco e o filme acaba sendo um dos menos surpreendentes do diretor. Percebe-se muito da essência de Villenueve no tom de “Os Suspeitos”, mas pouco de sua técnica. É um dos trabalhos mais modestos entre os grandes lançamentos do diretor, mas vale dar uma conferida.

2013: “O Homem Duplicado”

No mesmo ano, lançou um filme com menos expectativa, mas que teve muito mais repercussão. Em “O Homem Duplicado”, nota-se um diretor inspirado, que nos manipula com o jogo de câmeras, mas que também nos recompensa com um dos finais mais discutidos nos últimos tempos.

É uma produção que divide opiniões, é verdade, mas cuja execução rouba um pouco dos créditos que que o diretor recebeu em “Os Suspeitos”. O filme é de uma beleza e estranheza que ainda faz muitos fãs discutirem sua filosofia.

2015: ”Sicario: Terra de Ninguém”

“Sicario” é um bom filme, mas a mão de Villeneuve parece pecar em alguns momentos. Além da produção perder a força por causa de sua duração, ela não traz uma grande história, apenas boas situações.

No ímpeto de superar seu trabalho anterior, como sempre tenta fazer, Villenueve apresenta uma explosão de informações no final capaz de deixar o espectador maravilhado. O plot é simples e forte. Percebe-se, porém, um medo de criar um grande climax para uma história comum.

2016: “A Chegada”

Seja na literatura, games, quadrinhos ou cinema, a ficção científica é um dos gêneros mais complicados de se criar. Há muitos exemplos bem-sucedidos, é verdade, como “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, “Contato” e “Matrix”, que levaram a magia do gênero ao cinema. Mas há ainda mais casos falhos. Por isso, é impressionante que logo na sua primeira tentativa, Villeneuve tenha se saído tão bem.

“A Chegada” provoca no espectador variadas emoções e, principalmente, muita discussão. É um filme que nos transforma e que se torna imenso, mesmo que por algumas horas. Definitivamente, temos aqui um diretor com total controle do material dado a ele.

Villenueve tem tudo para ser aclamado pela crítica daqui alguns anos. Seus próximos trabalhos são o clássico “Blade Runner: 2049” e o tão esperado “Dune”. Sem dúvidas, é um daqueles diretores com potencial de levar as pessoas ao cinema sempre que lançar uma nova produção.