“Pedro Coelho” é um personagem do início do século passado, protagonista dos livros infantis “As Aventuras de Pedro Coelho” e subsequentes, escritos e ilustrados por Beatrix Potter. Agora, 116 anos depois da primeira publicação, o personagem protagoniza o filme que carrega seu nome, numa combinação de live action e computação gráfica, produzido pela Sony Pictures Animation. E em uma era onde as produções destinadas ao público infantil são, em sua maioria, vazias de significado, o longa se comporta como uma verdadeira fábula, apostando nas relações entre os animais (e humanos) para apresentar valores morais, sem errar a mão.

O filme acompanha a história de cinco coelhos órfãos, que se aventuram diariamente para roubar comida da horta de um senhor inglês, o qual deseja capturar os animais para fazer uma deliciosa torta de coelho. E mesmo sendo bastante simples, a trama apresenta duas premissas que não são usuais em nosso país: em algumas regiões da Europa os coelhos são pragas domésticas, e mesmo sendo mais “fofos” que os ratos, são roedores tanto quanto e podem fazer verdadeiros estragos; e também o hábito de comer coelho, bastante comum no hemisfério norte e que pode parecer uma grande atrocidade para nós, mesmo que seja possível encontrar a iguaria em alguma seletos mercados aqui no Brasil. E vale ressaltar que apesar de aproveitarem a época da Páscoa para promover o filme, a trama não apresenta nenhuma relação com a data comemorativa.

Com leveza e algumas passagens bastante engraçadas tanto para adultos como para crianças, o diretor Will Gluck (responsável pelas comédias “A Mentira” e “Amizade Colorida”) conduz a história do filme após a morte do senhor rabugento, e a vinda de seu sobrinho para cuidar da casa do interior. Os coelhos, no entanto, ao invés de tentar conquistar o novo morador com a sua “fofura”, compram uma nova briga, que agora apresenta motivações que vão além dos alimentos da horta. No elenco de humanos, temos Domhnall Gleeson como o novo responsável pela horta desejada pelos coelhos, que surpreende com uma atuação caricata na medida certa, sustentando cenas completamente absurdas com uma incrível naturalidade, onde muitos adultos se identificarão com as revoltas do cotidiano. Por outro lado, Rose Byrne, que interpreta a vizinha artista plástica e interesse amoroso do jovem rapaz, não transparece a inocência e carisma exigidos pela personagem, e acaba entregando algumas cenas tolas e sem profundidade.

 

 

O elenco de vozes da versão original conta com Daisy Ridley (Star Wars Ep. VII) e Margot Robbie (Esquadrão Suicida), porém aqui no Brasil serão exibidas sobretudo cópias dubladas, impossibilitando reconhecer a atuação das atrizes.

A trilha sonora do filme é carregada de músicas “pop” de fácil reconhecimento, transformando algumas sequências em agradáveis experiências. Todavia, o filme se perde quando, no final, tenta se passar por um musical com os animais cantando, sem a menor necessidade ou adequação. Talvez essa sequência em especial não seja de todo mal em sua versão original, mas a versão adaptada ao nosso idioma consegue agradar somente as crianças pequenas.

Por fim, devemos destacar os artistas que trabalharam na execução dos efeitos visuais do filme, pois conseguiram entregar animais muito próximos do fotorrealismo e ao mesmo tempo transparecer emoção na animação dos personagens. Mesmo sendo em sua essência um filme para crianças, “Pedro Coelho” não subestima a inteligência das mesmas e no todo, entrega bons momentos de divertimento familiar.