Esqueça Curupira, Lobisomem e Boitatá. Baseado nos livros ‘O Mais Misterioso do Folclore Brasileiro’ e ‘O Mais Assustador do Folclore Brasileiro’, da autora Luciana Garcia, selecionamos personagens, um tanto desconhecidos do nosso folclore, com boas histórias e com um potencial para as telonas.

Carbúnculo (“A Salamanca do Jarau”)

Mito originado do Rio Grande do Sul, a história do Carbúnculo, ou “Salamanca do Jarau”, como é mais conhecido no Estado, tem início no tempo dos padres jesuítas, de acordo com o blog “Portal dos Mitos”. Na época, existia um sacristão, que morava na cela de pedra aos fundos da igreja da praça da aldeia de Santo Tomé, na Argentina. Certo dia avistou uma criatura, parecida com um lagarto, sair de uma lagoa vizinha, a principal diferença do animal era a joia presente em sua cabeça. Após captura-lo, o sacristão descobriu o poder que o animal possuía, de dar riquezas infinitas e de se transformar em uma bela mulher. Sendo assim, o sacristão passou a devotar seus cuidados ao bicho, esquecendo-se de Deus e dos homens da aldeia, que por inveja, prenderam e condenaram o sacristão à morte. A história diz que o sacristão vive até hoje no Cerro do Jarau, em Quaraí, no Rio Grande do Sul, ao lado do Carbúnculo. Segundo o livro de Luciana, o Carbúnculo é tipo um gênio, capaz de realizar qualquer desejo, mas a dificuldade de captura-lo é uma de suas características, já que com sua joia, consegue cegar os gananciosos, além de ser bastante veloz.

Enquanto a lenda apresenta o Carbúnculo como um lagarto, ele normalmente é descrito como um animal pequeno, como um gato, um cachorro e até uma ave. Como inúmeras lendas, o Carbúnculo possui versões diferentes dependendo a região ou o povo, mas é possível concordar que sua história renderia um bom filme, se bem trabalhado, principalmente se explorasse o visual da criatura e a mensagem, além do visual de campo aberto e das grutas que Quaraí renderia.

Jurupari

Criado no Amazonas, o Jurupari tem mais de um tipo. De acordo com o site “No Amazonas É Assim”, umas das versões da lenda traz o Jurupari como um ser que visita os seres humanos durante o sono, causando pesadelos assustadores, chegando ao ponto de impedir o grito de socorro das vítimas. O Jurupari, também é confundido com o Anhangá, espírito que os indígenas classificam como o protetor dos animais, mas concordam que tanto o Jurupari quanto o Anhangá são espíritos diabólicos. Tal figura demoníaca foi imposta pelos jesuítas, e os indígenas, procurando explicações para o mal que criava imagens assustadoras durante o sono, aceitaram, tanto que a definição de Jurupari é “ser que vem à nossa rede”. Uma outra versão traz o Jurupari como um jovem que veio à Terra arrumar uma esposa para o Deus Sol. Uma outra história diz que, durante um tempo em que o governo era exercido pelas mulheres, o Deus Sol alegou que as matriarcas contrariavam suas leis e instituiu que o sexo masculino deveria se tornar independente do sexo feminino e instituiu festejos e segredos que só os homens poderiam conhecer. Luciana apresenta uma terceira visão da criatura, um pouco parecida com a dos índios, onde ele é responsável pelos pesadelos, além de causar sonambulismo e insônia.

O Jurupari não apresenta uma forma física precisa, mas costuma se enfeitar com flores, que ao mesmo tempo sendo ridículo, também é assustador, já que suas altas gargalhadas ecoam pela floresta. Apesar de seu visual florido não chamar tanta atenção, Jurupari poderia render uma história misteriosa, com uma mistura do terror apresentado na franquia ‘Hora do Pesadelo’ (1984) e mitologia. Sua forma física até poderia ser deixada de fora, explorando o inexplicável e utilizar muito das gargalhadas misteriosas em meio a floresta amazônica.

Cabra-Cabriola

Com a boca cheia de dentes afiados, voz grossa e chispas de fogo saindo dos olhos, nariz e boca, a Cabra-Cabriola é considerada mais temida que o próprio Lobisomem e a Mula Sem Cabeça, segundo o site “Folclore Brasileiro Ilustrado”, da UOL. De acordo com a lenda, a Cabra-Cabriola ataca quem anda pelas ruas desertas nas sextas a noite e está sempre à procura de meninos malcriados para devora-los. É astuta, fétida e inteligente, capaz de preparar estratégias para entrar nas casas, incluindo imitar vozes para enganar. Originalmente de Pernambuco, o mito, derivado da África e trazido pelos portugueses, tem outras versões em Alagoas, Sergipe e Bahia, segundo Luciana. No mito da África, acreditava-se que a criatura era um duende que tomava forma de cabra e costumava atacar mães enquanto amamentavam, bebendo o leite direto dos seios e devorando as crianças. Visualmente interessante, a Cabra-Cabriola poderia render um filme de terror no estilo ‘It – Uma Obra Prima do Medo’ (1990), explorando o medo das crianças, além de passar a mensagem de bom comportamento, o único problema de seguir com esse roteiro seria um possível filme “infantil” como resultado.

Capelobo

Do tamanho de um homem, corpo coberto de pelos longos e negros, focinho igual de um tamanduá, um pé arredondado, perigoso, impiedoso e veloz. Esse é a criatura de um mito comum na região do norte brasileiro, especificamente no Maranhão, Amazonas e Pará, segundo Luciana e o site “Sua Pesquisa”. Com uma vida ativa na madrugada, o Capelobo perambula por barracas, casas e acampamentos, emitindo gritos, alimentando-se de filhotes de cães e gatos, além dos caçadores, que além de mortos, tem o seu sangue tomado pela criatura. Parecido com o Lobisomem, alguns folcloristas, de acordo com “Sua Pesquisa”, dizem que o Capelobo é uma espécie de lobisomem, mas do norte do país, tanto que em algumas tribos da região do rio Xingu, dizem que certos índios conseguem se transformar na criatura. Aprendemos com o cinema que filmes de terror na floresta são boas escolhas (as vezes, só o roteiro que não), como foi possível ver em ‘A Bruxa de Blair’ (1999), ‘Pânico na Floresta’ (2003), entre outros. Agora, imagina no meio da floresta brasileira um monstro tenebroso correndo atrás dos caçadores, principalmente se houvesse uma boa exploração de seu visual.

Apesar de poucos nomes aqui nessa lista, é possível observar a riqueza da nossa mitologia, e orgulho também. Mesmo tendo filmes como ‘O Saci’ (1951), ‘O Coronel e o Lobisomem’ (2005) e até o musical infantil ‘Lendas Brasileiras’, não conseguimos explorar tanto nossa mitologia no cinema, mesmo vendo, através dessa lista, que temos potencial, pelo menos de personagens, para não só expandir o folclore brasileiro, mas produzir filmes com histórias fantásticas e até educativas.