“Somos nossos piores inimigos”. Viver em sociedade exige determinadas compreensões e respeito. No entanto, os inimigos vêm, cada vez mais, retomando suas forças, funcionando como um verdadeiro muro para específicas ideologias. Em Corra (2017), Jordan Peele mostrou para o que veio de verdade, mesmo depois de já ter feito muita história na comédia americana. A partir do terror, Peele enxergou uma forma de ser mais incisivo em sua mensagem e visão sobre, não só a sociedade americana, mas também sobre o próprio ser humano.

Enquanto o cineasta escolheu uma crítica mais direta em Corra, aqui, em Nós, ele não cansa de trabalhar simbolismos e metáforas poderosas, e ainda assim, conseguir cutucar de forma direta a desigualdade e repressão.

Com determinados líderes mostrando cada vez mais sua face, o mundo se mostrou um ringue, onde muitos se viram no direito de declarar seu ódio e o seu pior lado por se sentirem livres das consequências. Como produtor, Peele esteve ao lado de Spike Lee quando o mesmo decidiu tratar exatamente sobre isso em Infiltrado na Klan (2018). Preconceitos de séculos passados continuam mostrando sua face ainda hoje, e, por mais triste que pareça, esses inimigos estão tomando o lugar. Do mesmo modo que essas minhas análises não são gratuitas, nada em Nós é aleatório.

Por mais que Peele inicie sua obra seguindo uma clássica linha do gênero, nada ali entregue é desimportante, nem as informações sobre os esgotos e nem a situação de desorientação de uma jovem criança. Nesse ponto, Nós se torna um filme de observação e análise.

Peele não chega ao nível de Aronofsky de construir uma narrativa mais complexa, composta 100% com metáforas bíblicas. A escolha de Peele, no entanto, foi de fazer um filme dúbio, para conversar ainda mais com seu aproveitamento dos Doppelgangers (ser fantástico das lendas germânicas que possui o dom de representar a cópia idêntica de uma pessoa).

Em Nós, Peele trabalha a dualidade do começo ao fim. Sua direção se aproveita da técnica espelhada para suas concepções. A câmera não cansa de trazer seus conceitos dúbios através do explícito e do implícito, aproveitando-se do espelho para contar uma cena ou colocar dois objetos iguais no mesmo plano, porém os dois sendo muito diferentes. Tanto no cinema quanto na vida real, o espelho não representa nossa verdadeira persona. Em filmes, apresentar um personagem através do espelho significa mostrar que aquela não é sua vida verdadeira, mas sim uma versão dela. Na vida real, não deixa de ser a mesma coisa. Levantar a mão direita em frente do espelho, faz parecer ser a esquerda. Por mais inferior que seja, o recente Não Olhe (2019) entregou esse mesmo conceito, mas de uma maneira bem explícita, até pelo próprio uso do espelho.

Aqui, Peele faz isso através de sutilezas, como quando ele apresenta duas aranhas, uma, de pelúcia e grande; enquanto a outra, real e pequena. Ou dois barcos. Um, iate, grande, rico e charmoso, e o outro, bote, pequeno, pobre e deselegante. Ou as próprias famílias presentes no longa. As duas, compostas por quatro integrantes, uma negra e a outra branca. Neste ponto, especificamente, o roteiro realiza uma das muitas críticas sociais sobre a realidade americana, focando, no caso, na desigualdade socioeconômica. Além, claro, de trabalhar na trama central, com o uso dos Doppelgangers de cada indivíduo.

Isso é só uma primeira análise sobre as diversas camadas que Nós estabelece em apenas duas horas de longa. A dualidade implícita que Peele traz está na técnica cinematográfica da obra. Com a direção, Peele consegue trazer dois filmes em um só. Através das camadas mais explícitas, o cineasta entrega um roteiro mais expositivo e uma narrativa mais popular, com os tons cômicos bem encaixados. Por outro lado, Peele também traz uma outra visão mais implícita, não explicando determinadas situações, deixando o público refletir por si só sobre determinados pontos. Porém, mantendo a narrativa fechada que ele quis contar.

Nós, então, comprova ainda mais a evolução do americano como cineasta. Seu brilhantismo também está em sua construção do terror. O diretor, produtor e roteirista não só trabalha tudo o que o gênero propõe, com toda a tensão envolta de cenas mais nervosas, usando planos fechados e efeitos sonoros fortes, como utiliza do terror para criticar, algo que o gênero precisa aprender a fazer mais e algo que o público precisa respeitar. Filmes de terror, aos poucos, acabaram perdendo sua força devido a obras vazias, mas também pelo fato de um determinado público classificar o gênero como um produto apenas para tomar sustos.

No entanto, o estilo sempre estabeleceu uma camada mais profunda para determinados assuntos, o que enfraquece o uso de termos nojentos como “novo terror”. Como o próprio Jordan Peele publicou em seu Twitter, Nós é um filme de horror. Não só por toda a sua profundidade, mas por trabalhar com uma realidade monstruosa, onde os maiores medos estão tomando forma e dominando.

Ao fazer isso, o cineasta é tecnicamente formidável. Tanto o roteiro quanto a direção são surpreendentes. A forma como seu texto constrói a narrativa, trabalhando perfeitamente passado e presente – brincando novamente com a dualidade – transporta o espectador para uma experiência. Apesar dos diferentes patamares, é muito fácil lembrar de David Lynch em Nós, principalmente após a terceira – e suposta última – temporada de Twin Peaks.

A comparação não vem só a partir dos uso de Doppelgangers, mas também pela maneira como os dois trabalham a loucura ou a representação da maldade e de nossas piores versões e, principalmente pela conclusão niilista existente nas duas obras. Outra comparação é na parte de atuação. Lynch consegue tirar o melhor de seu elenco e Peele realiza a mesma façanha. Por mais que o jovem Evan Alex seja o principal ponto negativo do elenco – devido a uma falta de experiência profissional – todos os outros presentes entregam trabalhos suficientemente maduros.

Winston Duke oferece o principal tom cômico que o filme precisa e que consegue ser bem mais equilibrado do que Lil Rel Howery em Corra. Isso porque Peele cria uma justificativa bem mais plausível para o uso do humor dentro da sua narrativa. Devido as polaridades do longa, caso o personagem “normal” de Duke entregue um tom mais cômico, realizando constantes piadas, seu Doppelganger é, necessariamente, mais sério e bruto, fazendo com o que o humor em momentos inoportunos encaixem de maneira mais funcional.

O destaque, por sua vez, vai para Lupita Nyong’o. A vencedora do Oscar não surpreende pela qualidade da atuação e encanta em suas duas versões. Lupita apresenta uma força extraordinária não só na personagem, mas também como atriz. Mesmo com um destaque para os dois estilos de atuação, ela encanta como Red, com quem apresenta uma visão não só sombria como também muito seca e direta, sendo impecável em fala e também corporal. Esse holofote merece atenção, principalmente por Lupita representar o cerne da história e ser o centro do verdadeiro significado do longa, o que justifica os constantes planos fechados nela.

Nós, então, apresenta-se como algo muito além de sua superfície. Jordan Peele decidiu ir além da narrativa direta de Corra e a partir de simbolismos e metáforas espirituais, bíblicas e sociais, consegue ser tão duro quanto em seu filme anterior. Por essas características, Nós demonstra um potencial enorme para ser discutido e analisado por muito mais tempo, por sua demonstração seca e brutal da nossa realidade, com retratos sociais dolorosos e reflexivos, envolvendo preconceitos, porte de arma, desigualdade social e a vitória do medo. Peele não só se provou um cineasta capaz, como único e prova que ainda tem muito a nos mostrar, como Nós também ainda tem muito o que ser reverenciado.