O mercado asiático vem há tempos salvando Hollywood de fracassos e baixas bilheterias. Obras como Transformers: A Era da Extinção (2014) e O Destino de Júpiter (2015), por exemplo, tiveram suas bilheterias salvas pelo mercado chinês principalmente. Mas ainda assim, a xenofobia em obras hollywoodianas é constante.

O idioma não é trabalhado, personagens são interpretados por elenco inglês ou americano, justamente pela realidade mercadológica. Como resposta, Jon M. Chu decidiu provar ao cenário americano o verdadeiro poder da Ásia.

Com direção, roteiro e elenco inteiramente asiático/descendente, a resposta veio em grande estilo e banhado em ouro. Contudo, a história segue a mesma linha narrativa de clássicas comédias românticas, com as mesmas tramas, viradas, personagens e estilo de direção.

Não há surpresas quanto a história comum de personagens ricos sendo ignorantes com pessoas pobres e a resolução de enxergarmos todos como iguais ao invés de nos diferenciarmos pela classe social.

Entretanto, o que chama de atenção de Podres de Ricos é a cutucada no cinema americano. Não só na questão da presença completa de equipe asiática, mas também do que se é tratado em tela. A escolha de Singapura já serve como um primeiro aviso.

Além de estar entre os países menos corruptos do mundo, Singapura é também a região que reúne a maior porcentagem de milionários do mundo, com um em cada seis famílias tendo cerca de US$1 milhão em bens, cenário esse retratado no longa.

Não só isso, como também as paisagens retratadas humilham qualquer outra beleza natural. Chu trabalha com naturalidade ao mostrar o máximo que pode toda a beleza do local. O mesmo ele faz com a cultura.

Para mostrar ainda mais do mundo existente fora dos Estados Unidos, Chu usa planos detalhes para mostrar comidas e costumes, deixando o espectador mais próximo daquela realidade. E sua apresentação para todos esses detalhes é da forma mais mundana possível, mesmo com todo o cenário rico dos personagens.

A demonstração da cultura também está na essência das personagens e a forte relação de família existente na cultura asiática. Tanto que há uma fala diretamente crítica aos americanos, classificando-os como individualistas, enquanto lá, prezam pela família.

A prova é demonstrada na trama em si. Adele Lim adapta isso da obra de Kevin Kwan dando destaque para a riqueza em conjunto e não individual, o contrário dos filmes ocidentais.

Neste segmento de inversão de papéis, Chu trabalha muito bem ao colocar os “não-asiáticos” como personagens terciários, sendo eles funcionários de loja, atendentes, faxineiros, garçons e outras profissionais sem destaque na trama.

A união de Adele com Chu fizeram dessas pequenas mensagens críticas ao mercado ocidental a verdadeira paixão do longa. No restante, Podres de Ricos não tenta ser mais do que uma simples comédia romântica divertida e funciona em ser uma distração leve, ainda mais quando trata de deixar o espectador confortável com uma narrativa já muito conhecida.

O humor de Adele conversa muito com a crítica feito ao mercado ocidental, e muito desse humor é bem trabalho não só no texto, mas também nas atuações de Awkwafina e Ken Jeong, responsáveis pelos melhores momentos de leveza na trama.

No entanto, Chu, apesar de realizar bem o trabalho de crítica, falha em pequenos detalhes, justamente em sua crítica. Digo isso relacionado a sua escolha quanto ao idioma. Claramente, para o objetivo de Chu ser atingido, seu trabalho precisava ser em inglês. Mas há momentos do uso da língua local mal realizados.

Personagens mais tradicionais, como os idosos, realmente não se utilizam da língua inglesa pelo respeita a tradição. Contudo, há momentos de conversas aleatórias com o uso da língua local, misturada com a inglesa, sem qualquer justificativa. Porém, esses detalhes não apagam a diversão do longa ou estragam a experiência.

Portanto, Podres de Ricos não tenta ser mais que uma comédia romântica divertida e alegre. Mas com um fundo de crítica sobre a ignorância e individualismo do cenário ocidental.