Assim como muitas das crianças que viveram sua infância em meados dos anos 90 e 00, passei muitas manhãs da minha vida acompanhando as aventuras dos Power Rangers e sua interminável luta contra o mal na televisão. Lembro também do filme lançado em 1995 – com o mesmo elenco da série de TV – e da forma simples como ele abordava os conflitos e as motivações dos personagens.

Muito provavelmente sendo influenciado por outras adaptações cinematográficas de apelo ‘infanto-juvenil’ da época, como ‘As Tartarugas Ninja’ (1990), ‘Super Mario Bros.’ (1993) e ‘Double Dragon’ (1994), aquele filme dos Power Rangers também usava a cultura pop para trazer mais apelo a seu público-alvo. Isso explica os figurinos despojados e o visual bem caricato e extravagante, que certamente ao serem revistos hoje em dia despertam aquela reação: ‘nossa, como isso era trash!’.

Fiz essa introdução para explicar alguns pontos que serão importantes para nortear essa análise. Primeiro, apesar de ter essas lembranças de infância, com exceção do jogo de Mega Drive que eu amava, não sou o que chamariam de ‘fã de carteirinha’ dos Power Rangers, portanto, não tinha tanta expectativa em cima do filme e não carregava muita esperança de que fosse ser alguma obra-prima do gênero.

E, em segundo, sabemos que os tempos mudaram, as crianças e adolescentes de hoje não são tão ingênuas como antigamente, e produções geralmente voltadas a esse público (como filmes de super-heróis) têm se levado muito mais a sério, aproveitando até para tocar em alguns temas de maneira mais aberta, como a sexualidade, por exemplo. Sendo assim, vamos ver como essa nova versão se saiu.

Dirigido pelo pouco conhecido Dean Israelite (de ‘Projeto Almanaque’), o filme já ganha pontos por tentar fazer algo que a outra versão cinematográfica não se preocupou: contar a origem dos jovens heróis, além de como e onde eles se conheceram. É claro que nem todas as tentativas funcionam, e ‘Power Rangers: O Filme’ oscila bastante entre erros e acertos, como veremos mais à frente.

A história se passa na pequena cidade Alameda dos Anjos, onde na detenção de um colégio, Jason (Dacre Montgomery), Billy (RJ Cyler) e Kimberly (Naomi Scott) acabam se conhecendo. Posteriormente, eles encontram Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.), também alunos. Milhares de anos antes disso, houve uma batalha épica pela posse de um poderoso cristal que seria um perigo para o universo se caísse em mãos erradas. Sendo assim, antes de morrer, o guardião Zordon enterrou o cristal e ordenou que ele só se revelasse quando algum ser humano digno e de bom coração aparecesse.

Toda a interação no colégio é claramente inspirada no clássico ‘O Clube dos Cinco’, do eterno John Hughes. Cinco adolescentes de origens muito diferentes, unidos pela detenção e pelo fato de se sentirem incompreendidos, desajustados e pressionados pelas convenções sociais do dia-a-dia. Isso traz consigo um elemento nostálgico muito divertido, mesmo que um dos personagens chegue até a usar a frase: ‘bem-vindo ao clube’, demonstrando a falta de sutileza do roteiro, que será uma marca ao longo de todo o filme.

Falando no roteiro do indicado ao Oscar John Gatins (com mais três companheiros), o desenvolvimento do filme tem pontos bem positivos, só que conta com algumas ressalvas que incomodam bastante. Começando pelos elogios, o início do filme é bem ágil e energético, envolvendo o espectador com os personagens de maneira bem atraente. Sem muita explicação, a equipe começa a ser reunida e interage muito bem tanto entre si quanto na descoberta dos seus poderes.

Os integrantes dos Rangers correspondem a estereótipos já um tanto batidos no cinema, como Jason, que é o ex-astro de futebol americano que a cidade inteira conhece; ou Kimberly, que é a rebelde odiada pelas patricinhas da escola; Billy, o nerd esquisito e sem amigos, mas engraçado e genial e etc. Entretanto, isso não chega necessariamente a incomodar, graças ao bom desempenho do desconhecido elenco e da química que eles demonstram nas interações uns com os outros. Mesmo com um pouquinho de excesso como alívio cômico, Billy se destaca por ser o personagem mais simpático.

Os outros integrantes da equipe são Zack, o asiático que falta às aulas e tem um problema de saúde na família e Trini, a latina que frequentemente está de mudança e não consegue fazer novas amizades. Eu creio que o filme irá fazer muito sucesso entre o público adolescente justamente por ser uma história sobre jovens incompreendidos e por isso fica fácil se identificar com a personalidade de algum deles. E há momentos bem realizados para criar essa conexão com a audiência, como a cena da fogueira, por exemplo. Completam o elenco os astros Bryan Cranston como a voz de Zordon e Bill Hader como o engraçado Alpha 5.

Mas, como eu mencionei, o longa tem seus problemas e eles podem ser determinantes para que alguém não goste do filme. Considerando que é um filme de super-heróis e dos Power Rangers, não é surpresa alguma aguardar ansiosamente para vê-los em ação. Mas, há no filme um problema estrutural muito parecido com ‘Quarteto Fantástico’, por exemplo. A abordagem mais séria exige realmente uma maior dedicação do tempo no desenvolvimento dos personagens, mas é um erro apostar apenas nisso em praticamente dois terços de um filme com mais de 2hs de duração.

Em ‘Batman Begins’, por exemplo, creio que a maioria vai concordar que a origem do personagem é muito bem contada e exatamente na metade do filme (em torno de 1hr e 10min) ele já surge como o Homem-Morcego, pronto para combater o crime em Gotham. No segundo ato de ‘Power Rangers: O Filme’, no entanto, o ritmo agitado do início cai drasticamente e ocorrem poucos conflitos e apostas, tornando o filme bastante entediante para algumas pessoas. É como se tudo estivesse sendo pacientemente construído para um épico clímax final, que, na verdade, nunca ocorre.

Vilões costumam ser problema também, e aqui não é diferente. Sei que muitos vão argumentar: ‘ah, mas na série de TV a única motivação é dominar o mundo e destruir os Power Rangers’. Mas isso não é argumento a ser levado a sério. Se a geração e os temas abordados amadurecem, as motivações precisam no mínimo acompanhar essa evolução para parecerem mais plausíveis. Lembrem-se que o nível de exigência dos realizadores de filmes irá subir proporcionalmente ao nível de exigência do público. Parem de aceitar qualquer coisa!

Elizabeth Banks interpreta Rita Repulsa como uma caricata vilã obcecada por ouro e poder, que está atrás do cristal escondido por Zordon. Entretanto, sua ameaça nunca é sentida tanto pelo exagero na composição da alienígena, que acaba a tornando mais engraçada do que assustadora, quanto por decisões ingênuas tomadas, como deixar os heróis escaparem, claramente para ser detida por eles depois… Como se importar com heróis que você sabe que não correm risco algum? Isso sem mencionar algumas inconsistências menores de roteiro e piadas mal colocadas, como a do ‘ordenhar o boi’.

Outro fator importante em um blockbuster como ‘Power Rangers’ é o visual, e nesse sentido o filme não deixa a desejar. Os mais saudosistas podem sentir falta das fantasias collant bem coloridas, ou das famosas faíscas em meio as batalhas, mas as novas armaduras também são muito estilosas e parecem plausíveis. Já o design dos Zords (os robôs gigantes que os heróis pilotam) não são muito atrativos, além de aparecerem pouco. A coreografia nas cenas de luta é bem básica e, honestamente, tira um pouco da magia do espetáculo do programa de TV, cheia de acrobacias absurdas. Destaque para a trilha sonora, que conta com um rock bem contagiante.

Portanto, ‘Power Rangers: O Filme’ atinge sua proposta de agradar (de modo geral) aos fãs mais fiéis da série original, sem precisar ficar fazendo referências a todo o momento (a música tema é tocada de maneira bem tímida, inclusive). Há momentos bem inconsistentes especialmente no roteiro, como a conveniência da oscilação da super força dos personagens, ou o celular que quebra na mão de Kimberly e depois reaparece intacto, uma tesoura cravada na parede de maneira absurda, ou um papel atirado longe que reaparece com Billy em um momento muito oportuno e manipulativo.

A direção do jovem Israelite começa muito promissora, utilizando formas criativas de movimentar a câmera – como na perseguição inicial com o carro – mas logo cai no padrão ‘câmera tremida’ de ação que os Transformers de Michael Bay certamente aprovariam. Inclusive, há até uma piada com o personagem Bumblebee. É um daqueles filmes que você precisa confiar na premissa desde o início, porque dificilmente ele irá te ganhar com o passar do tempo. Fica a seu critério deixar se envolver ou não por aqueles personagens.

Embora sua mensagem de união e amizade pareça um tanto manipulativa e pouco sincera, o filme acerta em outros pontos como a diversidade do elenco (dá a entender que uma das personagens é homossexual, a propósito), escapando de armadilhas como ‘jogar na cara’ do espectador alguma lição de moral. Todos são tratados como pessoas comuns, com suas escolhas e opiniões próprias. Sendo assim, entre altos e baixos, ‘Power Rangers: O Filme’ pode até parecer que está apenas surfando na onda atual de filmes de super-heróis, mas não deixa de ter seu charme e conquistar alguns simpatizantes.

E você, já assistiu ou está ansioso para ver? Concorda ou discorda da análise? Deixe seu comentário ou crítica (educadamente) e até a próxima!