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Talvez dar o título de herói ao personagem Donato não tenha sido uma boa ideia, já que Wagner Moura teve um outro personagem seu intitulado de heroi pelo público brasileiro (mas negado pelo roteirista Bráulio Mantovani), o viril e durão Capitão Nascimento nos filmes “Tropa de Elite”. O motivo para muitos não aceitarem Donato como heroi, é o fato de não entenderem por quê Wagner, um ator tão competente, pôde interpretar um gay. Mas não é o simples fato de ser um personagem gay que Donato não mereça o título de herói. Donato, apesar de ser guarda-vidas (é assim que chamam o salva-vidas na região nordestina), não conseguiu salvar o amigo de seu futuro namorado e fica quase todo o filme sem saber o que quer realmente de sua vida. Aí vem a seguinte pergunta: que ato heroico teria um sujeito vazio e sem perspectiva de vida?
O longa de Karim Aïnouz, (de “Madame Satã”, em que Lázaro Ramos, nas mãos de Karim, se mostrou um bom ator sem nem mesmo deixar o espectador impaciente com a irritante cantoria de seu personagem) causou polêmica (sinceramente, sem necessidade) apenas por ter cenas de sexo entre os personagens de Wagner Moura e o ator alemão Clemens Schick. Muitos saíram das salas dos cinemas “ofendidos” pelo fato de os personagens centrais terem uma relação homo afetiva. As cenas não são pesadas. Mas o fato de ver o “Capitão Nascimento” numa relação sexual com outro homem, causou indignação.
Esse é o erro de gente que imortaliza um ator por causa de seu personagem de sucesso, elas não aceitam que os atores façam diferentes personagens.
O fraco roteiro ficou por conta do próprio Aïnouz e Felipe Bragança, diretor e roteirista (que já trabalhou com Aïnouz no roteiro de “Céu de Suely”), que é pouco ágil e vai perdendo o interesse na terceira parte (o filme se divide em três partes). Embora tenha alguns momentos engraçados, “Praia do Futuro” conta com a presença de Jesuíta Barbosa (um excelente ator por sinal) que parece meio perdido em seu personagem e não tem carisma e nem se quer se esforçou para que ele ganhasse o devido brilho que merece. A dramatização é complicada e não leva a lugar algum, já que não é relatada em que época é passada a história e deixa umas lacunas. A trama é tão frágil que não funciona nem mesmo como pretexto para agradar ao público gay. Mas, mesmo assim, o diretor demonstra sensibilidade ao tratar o lado intimista do argumento.