Enquanto, para alguns, o nazismo já se encontra batido no audiovisual – dado tamanha quantidade de obras que abordam esse período hediondo da História humana –, muitos ainda encontram, no tema, uma oportunidade de refletir sobre o passado e, mais ainda, sobre o presente. Com novas abordagens e visões, desde o indicado ao Oscar “Jojo Rabbit” até o estreante “Uma Vida Oculta”, o impacto do fascismo na primeira metade do século XX continua trazendo histórias extremamente relevantes, seja social ou artisticamente, e é assim que Meu Nome é Sara, de Steven Oritt, se sustenta: trazendo ao público uma reflexão intimista e inovadora sobre aqueles imersos na guerra.

O filme traz a história de Sara Góralnik, uma polonesa judia, de 13 anos, que perdeu sua família pelas mãos do nazismo. Após conseguir fugir para a Ucrânia, assume a identidade de uma amiga para esconder sua religião, assim conseguindo um emprego com uma família de fazendeiros, em troca de comida e moradia. A obra é baseada em uma história real, onde o filho, Mickey Shapiro, produziu o longa metragem para honrar a história da mãe, hoje a falecida Sara Shapiro, fundadora da USC Shoah Foundation, organização filantrópica que busca dar voz a testemunhos do Holocausto.

  

Ela tem orelhas de judia”, diz o fazendeiro. Meu Nome é Sara gira em torno deste triângulo dramático, composto por Sara (agora com a identidade de Mania), Pavlo e Nadya, o casal de fazendeiros. Desde o início, a desconfiança de ambos em relação a identidade da garota marca a tensão de cada uma das cenas, onde fica claro ao espectador que nenhum dos dois acredita totalmente na jovem empregada. Tal aflição faz com que o público compartilhe, com a protagonista, do constante medo de seu segredo ser exposto – mesmo que não chegue aos pés do que Sara realmente sentiu, temendo por sua vida.

É aí que se encontra a grande genialidade da obra de Oritt: bem no fundo, ambos sabem o segredo de Sara, e o espectador é levado, pela linguagem utilizada, a entender isso. Em diversos momentos, a composição das cenas evidencia a desconfiança de Pavlo e Nadya, seja na entrelinha de diálogos, olhares ou planos detalhes; mas, em meio à desconfiança, encontra-se o medo, pois aqueles que forem pegos ajudando judeus são sentenciados ao enforcamento, e ambos temem, justamente, pela vida de suas crianças. É assim que o diretor reflete sobre a natureza humana, contrapondo a bondade com o inerte instinto de sobrevivência, onde ambos aceitam, indiretamente, colocar suas vidas em risco pela garota, contanto que ela continue os enganando.

A partir disso, o espectador é convidado a refletir sobre o que faria em tal situação, a qual abrangeu grande parte dos povos submissos ao nazismo durante a Segunda Guerra: mesmo odiando-os, será que temos coragem de desafiá-los? Enquanto é fácil para o público abominar o genocídio causado pelo Terceiro Reich, vistos infinitos filmes e séries sobre o assunto, será que todos, na situação, teriam a coragem de colocar a vida em risco para desafiar tais atos hediondos? Oritt reflete, portanto, acerca da moral em tempos de medo.

Não só isso, Meu Nome é Sara aborda todo seu contexto histórico de uma forma um tanto mais intimista com sua protagonista, não focando no que ocorre ao redor, mas em tudo o que Sara deve fazer para se manter segura. As relações que Sara deve construir para sobreviver, ao longo da obra, é o que marca toda sua trajetória, fazendo parte de um joguete complexo que delimita seu papel dentro da casa de Pavlo e Nadya. Mantém seus segredos e compartilha das rivalidades de ambos, afim de conquistar a afeição de seus anfitriões. Além disso, com sua vida em risco, decide por deixar momentaneamente sua cultura de lado, comendo carne de porco e se aprofundando nos simbolismos cristãos, indo contra aquilo que acredita para ter, ao mínimo, uma chance de ver o dia de amanhã.

Oritt, assim, apresenta uma obra que constitui dois conceitos já estabelecidos – o tema do nazismo e o formato da cinebiografia –, mas não se limita a isso, entregando um produto final complexo sobre as ações humanas em meio ao terror. Com inúmeras biopics focadas em pessoas famosas que conquistaram o sucesso, prova-se que vidas comuns merecem, sim, serem retratadas em meios audiovisuais, trazendo reflexões e percepções do mundo nos olhos daqueles que não são lembrados diariamente. “Sobreviver será a nossa forma de se vingar”, diz sua mãe. Meu Nome é Sara, a partir disso, trata de uma vida comum, na qual sua protagonista teve de esconder sua própria identidade para evitar sua extinção, algo que ocorreu – e ainda ocorre – com um grande número de pessoas ao redor do mundo, direta ou indiretamente.