Um assassinato. Vários suspeitos. 

Essa é, resumidamente, a trama de Entre Facas e Segredos, apresentando uma sequência de acontecimentos claramente comum em relação ao gênero do mistério policial. Marcante em diversos livros e filmes, o mistério faz o espectador emergir na narrativa apresentada, tentando resolver os enigmas propostas ao se perguntar, assim como os personagens, “quem é o culpado?”. Tal questionamento leva ao subgênero whodunnit (who done it?), onde o público é apresentado à vários suspeitos e espera ser surpreendido no final da história com uma revelação devastadora. O novo filme de Rian Johnson, entretanto, vai muito além de uma simples revelação devastadora.

Conheça os Thrombey, uma família classe alta com as mais diversas personas – desde uma famosa guru lifecoach até um jovem cyberbully extremista. O que eles têm de ricos, entretanto, têm de hipócritas e egocêntricos. Vivem à custa de uma relação instável e desconcertante com o patriarca, Harlan Thrombey, famoso escritor de mistérios ao melhor estilo Agatha Christie, declarando seu amor ao chefe da família sempre que possível, visando mais seu testamento do que qualquer noção mínima de afeição verdadeira.

A única pessoa que realmente se importa com o velho senhor Thrombey é sua enfermeira pessoal, Marta, que leva a relação muito mais na amizade do que como profissão. Sempre que possível, os mais diversos Thrombeys sanguessugas dizem a Marta – claramente a protagonista da história – que ela faz parte da família, mas pequenos gestos ao longa da obra deixam claro o que realmente sentem por ela: no máximo a toleram, tratando-a como uma simples empregada, desprezando sua cultura e país de origem.

Após uma festa que reuniu os principais Thrombeys na mansão de Harlan – a qual é ironicamente descrita como um tabuleiro do jogo Detetive –, o acontecimento que guia a narrativa dá as caras: o famoso autor é assassinado. Qualquer membro da deturpada família tinha tanto motivo quanto oportunidade para cometer o crime, e a partir disso entra em cena o detetive Benoit Blanc – uma clara analogia à excentricidade e, ao mesmo tempo, genialidade de Hercule Poirot e Sherlock Holmes.

A trama se desenvolve a partir desses pontos, mostrando o caminho de Marta para fora desse labirinto de pretensão, imodéstia e traições que estruturam a família Thrombey – ou, no caso, desestruturam. A crítica feita à ganância desse grupo de pessoas se torna cada vez mais clara conforme o roteiro avança, mostrando a transformação de bondosos familiares a monstros inescrupulosos à mera citação de lucro. Se tiverem que passar por cima de outros, menores – ou até dos próprios familiares –, não hesitarão, contanto que consigam aquilo que lhes é de direito: o dinheiro conquistado por outro.

Mesmo não sendo uma comédia propriamente dita, o humor é um elemento fundamental para a composição do longa-metragem, com momentos cômicos intercalados ao imprescindível suspense vindouro do gênero. Não um humor escrachado, como o do inspetor Clouseau em “A Pantera Cor de Rosa”, mas uma jocosidade espontânea que contribui e complementa não só a proposta do longa, mas toda sua construção narrativa. A obra consegue, assim, manter de forma brilhante o equilíbrio entre o humor e o mistério, se tornando única em sua própria composição de identidade.

O que marca ainda mais a obra, entretanto, são suas admiráveis reviravoltas: “tem um buraco dentro do buraco da rosquinha”. A surpresas chegam ao espectador para abalar sua noção narrativa desde o primeiro ato do longa metragem, onde tudo que entende-se sobre a história pode mudar, repentinamente de uma hora a outra – tenha cuidado nas idas ao banheiro durante o filme. Assim como o humor e o mistério, portanto, o próprio conceito de reviravolta marca a identidade do filme – segundo o dicionário, giro, volta rápida em torno do próprio corpo –, fazendo com que o espectador, até o final da história, se perceba tonto e perdido em relação às tamanhas voltas do roteiro – que nunca deixam de lado a genialidade.

Em relação a uma visão mais técnica, é possível dizer que o elenco de uma obra audiovisual, certamente, chama bastante a atenção do público para esta, e em Entre Facas e Segredos não é diferente.  Um filme com Chris Evans, Jamie Lee Curtis, Toni Collette, e Christopher Plummer – entre outros, como Katherine Langford e Jaeden Martell, de “13 Reasons Why” e “It: A Coisa”– certamente chama a atenção do público, e esta obra em específico não deixa a desejar. Cada ator se mantém brilhante em seu papel, com estereótipos extremamente divertidos de milionários em suas mais diversas formas degeneradas. Ressalta-se também a atuação de Daniel Craig e LaKeith Stanfield, respectivamente como o detetive Blanc e o policial responsável pelo caso, ambos guiando a narrativa que vai além dos Thrombey e agrega ainda mais sentido à trama, junto com a atriz Ana de Armas, protagonizando o longa de forma magistral – afirmar que este é um dos seus melhores papéis certamente não fará ninguém vomitar.

Entre Facas e Segredos se prova, portanto, uma brilhante e talentosa reinvenção dos clássicos de mistério policial – mais especificamente do subgênero whodunnit –, com um eficaz equilíbrio entre a jocosidade e o suspense, guiando o espectador a uma gama de reviravoltas que tornam a obra ainda mais genial. É, assim, uma aula de criatividade envolta a um tema já consagrado na ficção, fazendo com que tenha mais identidade própria acerca de sua originalidade do que muitas obras ao redor. Muito além do mistério, entretanto, o filme de Rian Johnson é uma reflexiva crítica acerca da ganância e hipocrisia humana, espelhando a realidade já conhecida pelo espectador em um conjunto de elementos audiovisuais divertidos, perspicazes e, mais do que isso, extraordinários.