Você amaria a mesma pessoa se ela trocasse de corpo todos os dias? Por mais complexa que essa pergunta pareça ser, no fundo sabemos que a resposta é fácil. Mas o que a torna difícil é a realidade na qual vivemos hoje. Em uma atualidade em que redes sociais dominam as vidas de cada um, a impressão é a que conta. As fotos precisam ser alegres, em lugares exuberantes e precisam provar para os outros o quanto somos felizes e vivemos vidas perfeitas. A mesma atualidade traz aplicativos de relacionamento no qual o visual é o que realmente importa, colocando o caráter e o interior de cada pessoa em segundo plano. E nisso, também temos o reality Catfish (2012-). Nele, é possível observar o quanto a aparência também acaba se sobrepondo ao caráter, já que em vários casos, por mais  que você “ame” a pessoa, se ela não for visualmente ao seu desejo, o amor desaparece. Por isso, caro leitor, é a pergunta que faço para você.

O cinema é uma belíssima arte quando consegue te fazer refletir sobre suas atitudes, ideologias e realidade. ‘Todo Dia’, por mais que traga estruturas clichês em seu roteiro e direção, o longa transmite uma mensagem maior que seu “exterior”. Algo a se observar quanto a própria proposta da história e ao próprio cinema. Muito se olha a primeira camada de tudo, e pouco se discute sobre suas entrelinhas. O roteiro de ‘Todo Dia’ traz metaforicamente uma discussão importante sobre caráter, mas principalmente sobre se colocar na pele do outro e entender suas dificuldades, seus pensamentos, seu passado. Mas, como quase tudo no mundo atualmente, o visual se torna o mais importante.

Assim, ‘Todo Dia’ se mostra um filme agradável. A direção de Michael Sucsy é padrão, e acaba não explorando muitos dos atores ou na linguagem, e isso acaba resultando seu trabalho em uma obra segura, sem abusar diferentes formatos. O roteiro também não surpreende tanto. Até chega a forçar certos momentos, mas se estabiliza no básico. Apesar de até ser bem escrito, Jesse Andrews aparentemente excluiu detalhes importantes da obra de David Levithan. É clara a existência de uma exploração mais aprofundada do autor sobre essa história, principalmente de um aprofundamento no passado de “A.”, que o filme apenas pincela. Aliás, Andrews explorou diversas vezes pequenas pinceladas para não só apresentar passagem de tempo, mas acrescentar situações para aumentar a duração do filme. Isso porque algumas dessas situações deixaram pontos interessantes para trás, como quando “A.” acorda no corpo de um garoto cego (a cena não é um spoiler, até porque sua presença no filme não alcança um minuto).

Mas, por mais que a direção e o roteiro se mantenham no padrão, os dois trabalham muito bem a relação de “A.” e Rhiannon, misturada com as mudanças corpóreas. Os dois conseguem diversificar nas pessoas e isso passa uma bonita mensagem de não importar o exterior, mas sim o interior de cada um. Parece clichê, mas ao observar o mundo de hoje, é perceptível que as coisas mais simples andam se perdendo, e o que parece padrão hoje, no futuro se tornará algo incomum. E em meio a um mar de romances adolescentes, ‘Todo Dia’ consegue encontrar algo original e que não perde um potencial de análises, discussões e reflexões. Obviamente, esse tratamento é mérito de Levithan, que não só entendeu o universo adolescente, como também soube se diferenciar e ainda conseguir colocar em questão alguns pensamentos. Até porque, o mesmo tratamento também pode ser interpretado como jovens bissexuais se sentem, sendo essa uma importante reflexão a se fazer para acabar com “classificações” antiquadas.

 Ainda que o filme consiga trazer esses pontos diferenciados, existem problemas graves quanto a sua montagem. A própria cena citada do garoto cego é muito mal encaixada e a forma como é colocada passa a ser forçada. Dentro disso, há diversos erros de continuidade, com cortes mal feitos e cenas divergentes colocadas uma atrás da outra, perdendo sentido no caminhar da história. Muitas dessas situações passam a incomodar, como um ruído visual. Mas nada que tire a experiência do espectador assistia a uma obra leve, divertida e reflexiva sobre a relação com as pessoas.

Elogiada por autores como John Green (A Culpa É Das Estrelas), Scott Westerfeld (Feios) e Jodi Picoult (Dezenove Minutos), a obra de Levithan explora a concepção de amor de forma primorosa em uma sociedade julgadora. Em um presente cenário, onde pessoas são imediatamente definidas por suas ideologias, sejam elas políticas, amorosas ou da própria vida, ‘Todo Dia’ instrui sobre não julgar de forma imediata e fazer entender e se colocar no lugar de terceiros. Talvez assim não só passamos a valorizar o caráter humano, como também possamos entender pensamentos diferentes dos nossos e matar uma ignorância que atrasa o desenvolvimento saudável da humanidade.