Sylvester Stallone é o típico ator difícil de se enxergar em uma grande variedade de filmes ou papéis. Com uma história de vida de superação, o ator se consagrou na segunda metade do século XX com dois personagens icônicos: Rocky, cujo roteiro de sua autoria traz elementos de sua vida pessoal e foi indicado ao Oscar, e Rambo, história baseada no livro de David Morrell sobre a volta dos veteranos da polêmica guerra do Vietnã. Enquanto a história do lutador encontrou o seu caminho em uma nova franquia de filmes, que provavelmente não vai acabar tão cedo, a história do soldado ainda não tinha recebido um ponto final (e fica aqui o alerta para possíveis revelações da trama do novo filme neste texto).

Stallone aparenta ter uma conexão muito forte com os seus personagens, a ponto de jamais ter se cogitado um filme do Rocky ou do Rambo com outro ator no papel, ou mesmo uma versão mais nova dos personagens (como o filme em produção de Duro de Matar, que trará um novo ator para interpretar o personagem de Bruce Willis mais novo). E essa forte conexão e propriedade criativa sobre eles o dá um domínio inquestionável sobre os rumos de cada um. E mesmo que Rambo não seja um personagem criado por Stallone, o artista assina o roteiro de todos os filmes.

Em entrevistas de 2008, na época do lançamento de Rambo IV, Stallone conta que ele sentia que aquele ainda não era o momento para encerrar de Rambo, que era um filme para o personagem se reencontrar. Nesta mesma ocasião ele conta que foi descartada uma ideia de roteiro na qual o personagem teria que ir ao México resgatar a filha da empregada de seu rancho, justamente por ser uma história que concluiria a história do personagem e ainda não era o momento.

11 anos depois, aqui estamos com “Rambo: Até o Fim”, filme que traz exatamente a mesma história contata por Stallone em suas entrevistas para promover o filme anterior. O primeiro longa traz a história de um veterano de guerra maltratado em uma pequena cidade e, além de uma incrível direção e cenas de perseguição muito bem-feitas, trazia um contexto social relevante para época de seu lançamento. As continuações, conceitualmente, não trouxeram nada de muito relevante além de alguma história que só serve de pano de fundo para vermos o protagonista em ação. Mas é interessante ressaltar que apesar de serem filmes “vazios”, existia uma linearidade na trajetória de Rambo, a qual fica um pouco a desejar neste último filme. Em poucos minutos, o filme nos faz engolir goela abaixo que agora o Rambo não é mais um guerreiro solitário e que formou laços afetivos com a família que vivia como cuidadora de seu rancho. Além disso, a trama se apoia nesses laços e ainda tem como cenário algo inédito para o John Rambo, tornando difícil ao espectador criar alguma conexão com o famoso personagem.

O roteiro traz atos muito bem definidos, mas é inegável a semelhança da história com o longa “Busca Implacável”. Além do cenário e do contexto, a diferença entre filmes fica na eficiência de abordagem dos protagonistas, o que dá um tom muito mais dramático para “Rambo: Até o fim”. E esse tom carregado de drama e cenas fortes transforma o longa em momentos sofridos para o espectador, os quais só conseguem ser aliviados com muita violência, mas talvez não o suficiente para tanta desgraça.

A trilha sonora de Brian Tyler, famoso por alguns filmes de ação e fantasia, tem um tom episódico e heroico, que apesar de belo, não consegue condizer muito com o que vemos em tela. Brian tenta nos dar esperança num fim cruel e sem volta escrito por Stallone.

O que realmente se destaca no longa é a violência gráfica, que nos proporciona um prazer tão grande que nos sentimos sujos. As referências aos filmes anteriores, ausentes até o terceiro ato, surgem nas armadilhas criadas por Rambo para os inimigos e sem nenhuma moralidade ou piedade, o sofrimento dos traficantes de mulheres da trama é o que nos mantém interessados no longa.

Seguindo o discurso de Stallone em 2008, talvez fosse melhor que tivesse um outro filme antes da história de “até o fim” para que o personagem fosse melhor contextualizado e assim se mantivesse uma fluidez entre os longas. A ausência de esperança no “fim” é devastadora, mas ao mesmo tempo inquestionável, afinal é uma história do Stallone e somente ele poderia escrever esse final. E assim, cabe aos fãs do artista e do personagem ficar com o Rambo, até o fim.