Em dias atuais de movimentos feministas espalhados pelo Brasil e pelo mundo, um filme brasileiro raro e singular mostra necessariamente como as mulheres conseguiram conquistar tantas coisas e o quão pouco os homens mudaram de 1950 para hoje.

A obra é adaptação do livro ‘’A Vida Invisível de Eurídice Gusmão’’ de Martha Batalha e é dirigida pelo cearense Karim Aïnouz, conhecido pelos filmes ‘’Madame Satã’’, ‘’O Céu de Suely’’, ‘’Praia do Futuro’’ e agora pelo A Vida Invisível, cujo foi indicado pelo Brasil para tentar uma vaga no Oscar em 2020 de melhor filme estrangeiro. Além de Karim ter feito parte do roteiro, os méritos também vão para Murilo Hauser e Inés Bortagaray. O filme desbancou ‘‘Bacurau’’ que recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, em maio.

O filme ao invés de drama, leva a denominação de ‘’melodrama tropical’, por conter diversos significados. Além de se passar em um estado de clima em si tropical, abranger uma atmosfera selvagem, com muito verde de plantas e no próprio comportamento das protagonistas, justificam o termo. Segundo o diretor, o melodrama ajudaria a ida do filme ao Oscar, pois é um clássico do cinema norte-americano.

Na década de 50 no subúrbio carioca, onde as mulheres eram vítimas do patriarcado e do machismo, Eurídice (Carol Duarte e Fernanda Motenegro) e sua irmã mais velha Guida (Julia Stockler) de personalidades opostas, mas com uma relação inseparável, ambas vislumbravam um futuro melhor –  Eurídice indo viver seu sonho de estudar piano em Viena e Guida se casando com uma paixão. A história acontece entorno da forte relação entre as irmãs e o amor que sentiam uma pela outra. Ainda jovens, acabam trilhando seus caminhos de maneiras diferentes e se afastam, a partir daí, vivem o resto de seus dias na esperança de se reencontrarem.

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Eurídice se casa com Antenor (Gregório Duvivier) um homem abusivo, mas muito real e as cenas difíceis de sexo violento e embate físico – que poucas obras ousam em retratar – mostram explicitamente o tormento que a personagem aguenta e a loucura do homem para chegar ao orgasmo, se assemelhando a um animal. Posteriormente engravida contra sua vontade, porém intimidada por seu companheiro.

Guida divide a atenção do filme equivalentemente com Eurídice, até pelo fato da narração ser feita por meio de cartas que escreve a ela. Passa talvez, até por mais dificuldades, sendo expulsa da casa dos pais por estar solteira e grávida, se vendo obrigada a levar uma vida miserável e aos poucos conseguir renda para criar o filho.

Ao longo do filme as personagens passam por situações de sofrimento profundo e o longa-metragem aborda temas bastante necessários e nada romantizados, como a gravidez de mulheres pobres e solteiras e o tratamento que o homem extremamente machista dava às mulheres em época de regime patriarcal. As protagonistas ao enfrentarem suas batalhas, contam com o auxílio de mulheres secundárias: Filomena (Bárbara Santos) companheira de Guida e Zélia (Maria Manoella) amiga de Eurídice.

As excelentes atrizes, muito bem ensaiadas, exibem uma performance magnífica e com naturalidade interpretam mulheres que se indagam se serão o que a sociedade impõe ou se as colocam como prioridade.

Carol Duarte atua sem falhas, fazendo com que a jovem protagonista sofra muda e consiga falar bem além das palavras. Com pouca estrada em longas, a impressão que se tem é de estar assistindo a uma atriz com anos de experiência e isso fica evidente em seu olhar, seu comportamento, suas expressões corporais e em seu barulhento silêncio. A versão de sua personagem mais velha é vivida pela musa Fernanda Montenegro que tem participação crucial ao final da trama. Atuando com sutileza e ao mesmo tempo com grande intensidade, seus 5 minutos de aparição já são o bastante para promover a comoção que o fim da sessão merece.

Julia Stockler trabalhou com maestria em uma personagem atirada, sem medo das consequências, que vai se revolucionando ao decorrer do filme, e entrega uma mulher cheia de dores, mas repleta de força e esperança.

A produção do filme contou relativamente com poucas parcerias (mas boas) e teve um orçamento de aproximadamente 6 milhões de reais. Provou que, mesmo com baixo orçamento e poucos parceiros, é possível realizar uma ótima produção – tendo nesse caso, a participação de excelentes atores e um bom time de roteiristas.

O filme que é sobre uma época e não de uma época, consegue transmitir ao espectador pânico ao fazê-lo pensar que muitas mulheres passaram por aquilo. Essa história também ecoa no presente pela palheta de cores mesmo que antigas, com características atuais e ultra saturadas. O som é muito bem trabalhado e as trilhas sonoras, regidas muitas vezes pelo piano de Eurídice, fazem com que todo o contexto de produção se cumpra, transmitindo ao público sensações reais e próximas.

Em A Vida Invisível, as irmãs deixam que a vida lhes corra diante de seus olhos, perdem sonhos e possíveis amores, devido à condição de ser mulher, de baixa renda, em uma sociedade machista. Karim Aïnouz brilha, tratando com uma ternura emocionante um tema tão delicado e necessário. Pelo mundo afora existem milhares de vidas invisíveis, machucadas e entristecidas. Dar visibilidade a elas foi de extrema sensibilidade e urgência.