Quando ‘Batman Vs Superman – A Origem da Justiça’ chegar aos cinemas nesta quinta-feira, 24 de março, poderemos observar o nascimento de um novo universo cinemático e a polarização do gênero, dividido entre Marvel e DC Comics.

Nos últimos anos, os filmes de super-herói – bebendo da fonte dos quadrinhos – tomaram conta das salas de cinema e passaram a frequentar a parte de cima dos gráficos de bilheteria, ultrapassando a barreira dos bilhões de dólares americanos. Nem sempre foi assim.

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‘Superman Vive’ (‘Superman Lives’, no original) é o filme que não aconteceu. Através da história de sua ‘não-existência’ podemos vislumbrar o destino obscuro que os anos 90 reservaram para os super-heróis, quando as editoras eram assombradas pela falência e executivos que nunca haviam lido um quadrinho decidiam que colãs eram cafona, mas uniformes reluzentes e batalhas com aranhas gigantes eram necessários.

Todo o respeito deve ser prestado a saga do Superman estrelada por Chistopher Reeves entre 1978 e 1987 – ainda que o quarto episódio precise ser absolutamente esquecido -, mas o filme que estabeleceria o potencial dos heróis das HQ’s na sétima arte seria ‘Batman’, em 1989. Através das mãos e da visão peculiar de Tim Burton, construiu-se uma Gotham City muito próxima da que efervescia na mente dos fãs.

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E no meio da década de 90, não haveria nome melhor do que o de Burton, diretor de dois longas de Batman, para assumir o comando do ressurgimento do kryptoniano em Hollywood, mas o projeto estaria cheio de peculiaridades bem antes de Burton chegar com suas próprias.

Jon Peters estava vivendo o Sonho Americano. Com uma juventude problemática, as coisas em sua vida começaram a funcionar apenas quando ele ingressou ao negócio da família, tornando-se cabeleireiro, depois cabeleireiro de celebridades, como Barbara Streisand. Os contatos com as figuras certas de Hollywood transformaram-se em portas abertas: Peters tornou-se produtor, assinando filmes como ‘Rain Man’ e o já mencionado ‘Batman’.


Jon Peters com os trajes de Batman e Superman.

Em uma época em que os computadores ainda não haviam dominado a função de armazenar todas as informações, Peters fez o dever de casa em meio a papelada e acabou por descobrir que os direitos de Superman estavam disponíveis. Sem demora em negociar, adquiriu os direitos para iniciar o projeto que reintroduziria o herói alienígena ao cinema.

O retorno do Homem de Aço buscaria sua premissa, ou ao menos um conceito, em um arco de história extremamente relevante nos quadrinhos da época: ‘A Morte e o Retorno do Superman’.

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Enquanto nos dias de hoje é comum observarmos os “caras dos quadrinhos” assumirem posições fundamentais nas produções heroicas para o cinema e televisão (Mark Millar, Jeph Loeb, Geoff Johns, Robert Kirkman), a confiança colocada neles na década de 90 não era a mesma.

Kevin Smith, um nerd convicto, que já havia atraído alguma atenção para si após o relativo sucesso de dois de seus filmes, ‘Balconistas’ e ‘Procura-se Amy’ (que acabava de chegar aos cinemas), conquistou a chance de roteirizar o retorno de Kal-El.

Kevin Smith

Smith teve a oportunidade de ler uma versão do roteiro que já estava em desenvolvimento, depois precisou sentar-se com um executivo da Warner após o outro, dizendo o quanto aquilo era horrível, até que Lorenzo di Bonaventura, o homem no topo da pirâmide, perguntou o que faria de diferente. Então, um conhecedor do personagem nos pormenores das páginas das revistas, teria a oportunidade de trazer a morte e o renascimento do grande escoteiro azul para as telas. A combinação seria perfeita, mas o roteirista ainda precisaria ser aprovado pelo produtor.

Três regras para escrever o roteiro de ‘Superman Vive’, por Jon Peters:

1. Nada de colã azul e capa vermelha;

2. Superman não pode voar;

3. Ele precisa lutar com uma aranha gigante no terceiro ato.

Nesse ponto, ‘Superman Vive’ anota os primeiros parágrafos da sua curiosa história de criação e produção. Através do cômico relato de Kevin Smith, podemos elaborar uma perspectiva de o quanto seria difícil concluir o longa-metragem.

“Aranhas são as assassinas mais violentas do reino dos insetos”.

Mais tarde, Peters negaria as duas primeiras “regras”, mas manteria-se firme quanto a presença da aranha gigante. Smith segue reportando mais demandas do produtor que ele, enquanto roteirista, precisava atender.

“Você quer que eu escreva uma cena onde Brainiac luta com ursos polares?”

Kevin Smith cumpriu seu contrato, atendendo aos pedidos do produtor. A história que envolvia morte e ressurreição de um ícone, aranhas gigantes e ursos polares precisava encontrar um diretor. Jon Peters alega que Tim Burton sempre foi sua primeira escolha, que se concretizou quando o contrato de ‘pay or play’ foi firmado. Milhões de dólares já estavam gastos.

O diretor de ‘Batman’ e ‘Os Fantasmas Se Divertem’ é reconhecido pela atmosfera e a assinatura visual que carrega consigo desde seus primeiros trabalhos, o que pode garantir o título de ‘diretor-autor’. Burton estava decidido a contar a história a seu modo, então o roteiro de Kevin Smith foi ignorado e o trabalho retomado basicamente do zero.

As criações de Tim Burton e o envolvimento de Nicolas Cage estarão na segunda parte desse especial.