Ao procurar informações sobre a Pagú Pictures, o espectador descobrirá a frase “O Cinema Está Vivo” como o principal lema da distribuidora, uma visão bastante abrangente acerca da sétima arte, defendendo a ideia de que tal modo de contar histórias vive em uma constante expansão de forma e significado. Responsável por longas como “Aos teus olhos”, “Tugstênio” e “Gabriel e a Montanha”, o espectador agora é presenteado com o filme “Dafne”, dirigido por Federico Bondi, uma bela história de compaixão, amadurecimento e amor.

Dafne é uma jovem mulher com Síndrome de Down muito próxima de sua mãe, mas com uma relação não totalmente consolidada com o pai. Após a matriarca da família falecer inesperadamente, Dafne se vê vivendo apenas com o pai e, aos poucos, se reconciliando com ele em uma relação de parceria para superarem, juntos, a perda que sofreram. A protagonista é desenvolvida como uma mulher extremamente dedicada, correta e organizada, sendo apaixonado pelo que faz e pelas pessoas em sua vida, o que inicialmente já a faz adquirir uma relativa afeição do espectador e guiar a história de uma maneira cativante e extremamente sentimental.

Outra coisa que marca o espectador logo no início da obra é a fotografia: composta não só de paisagens extremamente belas, a composição estética apresenta um significativo tremor de câmera em determinadas cenas paradas, o que leva ao espectador a sensação de desestabilidade, a qual também é ressaltada pelo estado dos personagens após o acontecimento. O público, assim, se vê imerso, durante grande parte do filme, em um sentimento instável de desequilíbrio e inquietação, que vai se transformando, conforme segue o roteiro, em uma espécie de conforto e harmonia, concluindo a narrativa com uma simplória – mas eficiente – sensibilidade que permite ao espectador soltar o ar que nem sabia que vinha segurando, no peito, desde o início da história.

Os personagens também são um ponto extremamente positivo desta obra, sendo estes interpretados por atores igualmente convincentes. Primeiramente, é possível perceber que os personagens secundários possuem uma tremenda importância no decorrer da trama, pois os diálogos e interações destes com Dafne guiam o espectador a conhecer, cada vez mais, a protagonista interpretada por Carolina Raspanti, mergulhando em seus pensamentos, desejos e visões de mundo a partir de suas relações interpessoais. Estes, portanto, por menor que sejam suas aparições, conquistam seu espaço na tela e merecem uma significativa atenção para que, assim, possam auxiliar o espectador a entender a concepção e imagem de Dafne perante o mundo.
Já entre os personagens principais, o pai da protagonista, interpretado por Antonio Piovanelli, demonstra de forma sutil – e, ao mesmo tempo, brilhante – seu estado psicológico abatido e desgastado, deixando claro aos poucos um estado de depressão que, por não ser compreendido por sua filha, leva o espectador a sentir uma explosão de sentimentos a cada briga e desentendimento dos dois personagens. Já o papel da protagonista, que dá nome ao longa-metragem, igualmente é interpretado de forma magistral, ganhando a atenção, entendimento e afeto do espectador logo em suas primeiras cenas, desenvolvendo uma personagem extremamente carismática e rica em detalhes, que não só vai, aos poucos, superando a morte da mãe, como também transforma a dor em uma grande lição de amadurecimento.

Por fim, a história por trás do longa-metragem pode ser extremamente simples, mas é apresentada de forma bastante inteligente e bem construída para guiar os sentimentos e a percepção dos espectadores, possibilitando ao público passear por uma montanha russa de emoções ao longo de uma hora e meia de filme, se esforçando em mostrar que a vida muitas vezes apresenta surpresas ruins, mas a simplicidade e o simples ato de sentir podem ser o caminho para superá-las. “Dafne”, portanto, obtém sucesso em apresentar uma história repleta de emoção e sutilezas, se tornando uma obra não só de superação, mas de autodescoberta e amadurecimento, passando a mensagem de que, às vezes, um sentimento ruim não deve ser apenas superado e esquecido, mas sim transformado em algo positivo – como esperanças, memórias e mudanças.