Boas histórias merecem ser contadas. Diante do caminhar da vida, situações fornecem consequências eternas. Laços de sangue carregam pesos inimagináveis, levados de geração em geração. O drama ‘Sem Fôlego’ – ainda procuro um significado nesta tradução – explora o ciclo de um laço sanguíneo sem cair nas mesmices familiares de outras histórias dramáticas, com o detalhe técnico que faz toda diferença na história. Infelizmente, não basta técnica para encantar, é preciso sempre algo a mais – até forçar, caso necessário – mas aqui, Todd Haynes segue sua ideologia e continua em seu caminhar inicial, e o que era para cativar, acaba atraindo o espectador com fraqueza, sem tanto fascínio.

Quando cito a qualidade da técnica em meu texto, trato principalmente da filmagem e da montagem do longa. Contar duas histórias, praticamente iguais, de forma paralela acaba não se tornando uma tarefa fácil. O grande destaque vai para o ano de 1927, todo apresentado em preto e branco, sob os olhares – ou melhor – os ouvidos de uma personagem surda. Todo o equilíbrio do visual misturado com a trilha sonora integram o espectador naquele ambiente. Espectador esse que passa pela envolvente experiência de migrar, de uma hora para outra, para 50 anos no futuro. Com cor, trilha mais animada, na base de um jazz setentista, mas com o diferencial de quebras constantes com fala, brincando ainda mais com o universo cinematográfico.

Haynes fica nessa brincadeira narrativa todo o filme, com quebras mais secas e diretas entre as gerações. A fotografia dos dois anos são obviamente distintas e tiram, muitas vezes, o espectador do conforto, justamente com a existência dessas quebras, tanto visuais quanto narrativas.

Sob a perspectiva do ouvir, e não do olhar, de uma criança para o mundo ao seu redor é muito bem trabalhado na direção. E as consequências da vida, que, de fato existem, são construídas de forma sólida e convincente. O problema segue no caminhar da história. Toda a construção, não só do universo, mas da proposta, perde-se com a tentativa frustrada de criar um passado paralelo, mas que no final se mostra apenas uma opção interessante de narrativa e uma amostra da consequência entre a vida dos personagens.

É clara, ao subir dos créditos, a luta de Haynes na adaptação da obra de Brian Selznick, mesmo com um roteiro adaptado e escrito pelo próprio autor. O espectador consegue sentir, com firmeza, falta de um algo a mais, e Haynes e Selznick tentam preencher esse vazio com narração em off, coberta com uma animação tecnicamente encantadora, mas sem carga dramática. Existe o peso na narração e a beleza nas imagens, mas ainda não atinge de forma certeira como Haynes, nitidamente, queria.

Além da técnica muito bem trabalhada, com um tom da fábula infantil, Haynes, que já tem sua peculiaridade no ritmo da narrativa – algo memorável em seu drama ‘Carol’ (2015) – caminha de diferentes formas pelo andar das crianças. Como primeiro trabalho na carreira de Millicent Simmonds, a americana domina a tela de forma instigante e surpreende com um potencial ainda não muito explorado, e faz uma bela parceria com a já grandiosíssima Julianne Moore. 50 anos depois, a atuação se tornou um tanto quanto obsoleta, já que Oakes Flegey – vindo de ‘Meu Amigo, o Dragão’ (2016) – não apresenta uma entrega no mesmo nível da jovem. Já Moore e Michelle Williams permanecem no seguro, sem muita exigência ou um trabalho mais elaborado. Por ser um trabalho sob os ouvidos infantis, as duas estão mais ofuscadas, mas dominam o ambiente quando aparecem.

Toda a emoção e o encanto de ‘Sem Fôlego’, infelizmente, ficam apenas com os personagens. Para o espectador, sobra um leve sorriso no rosto pela bonita história, mas uma certa decepção pelo filme não entregar toda a carga dramática que ele aparenta ter. Com isso, sobra se encantar com uma bonita fábula e só.