Enquanto diversos filmes de ação tentam trazer, em si, algo a mais, se esforçando para trazer reflexões ou discussões relevantes em meio a um caótico cenário de socos, tiros e explosões, certamente correm o risco de cair em uma decadente trivialidade, sendo raso, banal e, frequentemente, superficial. Um grande acúmulo de testosterona que se considera inteligente ou deveras original, mas que, muitas vezes, simplesmente não consegue ser nada disso.

Mas, ainda que exista uma minoria que realmente consegue balancear a ação com uma reflexão relevante, este não é o caso de Troco em Dobro, novo filme da Netflix. A obra estrelada por Mark Wahlberg, entretanto, se encontra em um outro grupo, sendo um mainstream de ação que, diferente de muitos, se propõe a ser exatamente isso, sem disfarces ou tentativas falhas de ser mais do que realmente é: nada mais e nada menos do que um dinâmico filme de porradaria que busca entreter seu público durante suas quase duas horas em frente à tela.

A trama acompanha Spenser (sim, com “s”), um ex-policial que, anos atrás, espancou seu próprio chefe – o capitão da polícia – por ter agredido sua própria mulher. Após ser liberado da prisão, cinco anos depois, o chefe que uma vez foi alvo da raiva de Spenser é encontrado morto, e as suspeitas da polícia viram mais uma vez para o protagonista, até que um jovem policial, colega de Spenser, é morto e usado como bode expiatório para o crime. A partir disso, o protagonista se junta a Henry e Hawk, um já idoso professor de boxe e seu mais novo aluno, respectivamente, para desmascarar a corrupção por trás de ambas as mortes e limpar o nome do falecido colega.

Mesmo sendo o centro de toda a trama, Wahlberg compartilha os holofotes com o experiente Alan Arkin, o grande – literal e figurativamente – Winston Duke, e a cômica Iliza Shlesinger. Cada um dos três personagens compõem adendos à personalidade de Spenser, complementando a narrativa com um grupo disfuncional que proporciona uma continuidade mais eufórica à trama.

Ainda assim, o que os personagens de Wahlberg e Duke têm de habilidades nas cenas de ação, Arkin e Shlesinger têm na comédia – ainda que os dois primeiros ainda consigam gerar algumas risadas ao público. E é assim que a obra consegue conquistar seus espectadores, com um equilibrado balanceamento entre o dinamismo e o humor, apresentando um ritmo pontualmente acelerado capaz de conquistar, ao mesmo tempo, risadas e entusiasmos.

A corrupção policial é, durante a trama, bastante contestada, mas nunca aprofundada, pois a obra, em si, reconhece que aquele não é lugar para tamanha reflexão. Ainda brinca, inclusive, com as noções de bem e mal, trazendo em Spenser a clássica figura hollywoodiana do homem branco que quer, acima de tudo, fazer o bem e ajudar todos ao redor, indiferente às consequências ou, até mesmo, à própria lógica – quantos filmes você já viu com um protagonista assim?

O diretor Peter Berg, logo, entrega exatamente aquilo que propõe: um divertido filme de ação que, mesmo não sendo importante, épico ou socialmente relevante, sabe rir de si mesmo e, acima de tudo, se reconhece como uma peça audiovisual exclusivamente de entretenimento, sem tentar, de forma alguma, ser maior do que realmente é. Claramente não entrega o bastante para marcar a memória de seu público durante anos e anos, mas diverte a ponto de trazer boas risadas e, ao mesmo tempo, dinamismo e porradaria em dobro. Assim, a obra talvez com mais cara de Mark Wahlberg do que todas as outras, Troco em Dobro se prova uma significativa adição ao catálogo Netflix, além de uma ótima escolha para aqueles que buscam obras onde a ação e a comédia falam mais alto do que qualquer tentativa de significar algo além do mais simples entretenimento.