Quando e onde a trama se desenrola?

Em “Atômica”, thriller de suspense e ação que estreou essa semana (31) nos cinemas brasileiros, a agente do MI6 Lorraine Broughton (Charlize Theron) é enviada para Berlim em 1989, bem próximo do final da Guerra Fria, para investigar a morte suspeita de um ex-companheiro de trabalho e recuperar uma valiosa lista com os nomes de agentes duplos espalhados pelo mundo.

Mas, antes de mais nada, vamos entender o contexto que envolve a trama…

Após o término da Segunda Guerra Mundial e o suicídio de Hitler em 1945, o Estado nazista deixou de existir e os países aliados vencedores ocuparam e dividiram a Alemanha para custear as perdas da guerra. Em maio, os russos capturaram Berlim e a cidade se dividiu no setor soviético ao leste e setores franceses, ingleses e americanos a oeste. Vale ressaltar que o Japão (aliado alemão) se renderia apenas em setembro, após os EUA lançarem duas bombas atômicas no país.

Por que isso é importante? Porque logo após o término da Segunda Guerra, as duas potências vencedoras (EUA e União Soviética) começariam uma rivalidade que se espalharia pelo mundo: a Guerra Fria. Sem confrontos militares diretos, ambos os lados fortaleciam suas alianças, polarizando o planeta entre os regimes capitalista e comunista. Com os avanços na corrida armamentista, o mundo vivia sobre permanente estado de tensão, diante da ameaça de um conflito nuclear.

 

Como surgiu o Muro de Berlim?

Sendo assim, a Alemanha se tornou a nação símbolo de dois blocos e sistemas político-econômicos antagônicos, e quem sofria com isso era o povo.  Separada por uma linha imaginária entre os mundos capitalista e socialista, a população da cidade também passou a escolher as condições de trabalho e de vida que queriam para si e suas respectivas famílias. E o lado ocidental, mais conhecido por suas liberdades democráticas e progresso na economia – pois tinha o apoio de tecnologias e investimentos vindos dos países mais ricos – para muitos, passou a ser o “ideal” para se viver.

De 1949 a 1961, estima-se que quase 3 milhões de pessoas fugiram da Alemanha comunista para os setores ocidentais de Berlim. Somente no mês de julho de 1961, 30 mil pessoas migraram para o outro lado. Para evitar que isso continuasse acontecendo, no dia 13 de agosto, soldados da Alemanha oriental começaram a construir a barreira composta por arames farpados e cercas, que anos depois se tornaria literalmente o Muro de Berlim.

Há relatos de que pelo menos 12 mil berlinenses que trabalhavam no lado oriental e 53 mil que trabalhavam no lado ocidental, mas moravam no oriental, não conseguiram voltar ou chegar ao trabalho por conta do elemento surpresa (o muro começou a ser construído de madrugada e sem aviso prévio). O pior de tudo é que famílias e casais foram separados repentinamente, do dia para a noite, sendo proibidos de retornar para o lado ocidental.

 

Quais são as agências de espionagem envolvidas na trama?

Embora muito conhecidos no mundo da fantasia e ficção, os serviços de inteligência secretos tiveram realmente um papel muito ativo no mundo “real” durante a Guerra Fria. Até por conta da sua influência, as duas grandes forças de espionagem na época eram mesmo a CIA (norte-americana) e a KGB (soviética).

E de maneira semelhante as histórias que sempre ouvimos, era de fato um submundo desprovido de conceitos como moral e ética, onde para cada “agente secreto” infiltrado em uma missão, havia centenas de funcionários públicos anônimos coletando dados e informações no dia-a-dia e fornecendo ao lado inimigo na Guerra. Em um mundo dominado pela paranoia e o medo de não se confiar em ninguém, ambos os lados desenvolviam tecnologias de destruição cada vez mais poderosas, rápidas e engenhosas.

Para encerrarmos essa primeira parte do especial, vamos conhecer um pouco mais sobre as três agências envolvidas na trama (para entendermos que não há nenhum ‘mocinho’ na história), além dos personagens e suas funções no filme:

 

MI6 (Reino Unido)

Personagens: Chief ‘C’ (James Faulkner) e Eric Gray (Toby Jones)

Apesar do Reino Unido ser uma potência incontestável no século XX e ter sido influente em vários capítulos importantes da história da humanidade (como a própria Segunda Guerra), o MI6 ainda era uma força emergente no quesito “espionagem” durante a Guerra Fria. Logo ao término da Segunda Guerra, o oficial da inteligência russa Konstantin Volkov tentou desertar para o Reino Unido oferecendo o nome de todos os agentes soviéticos infiltrados na Inteligência Britânica.

Entretanto, o acordo foi rejeitado pelo líder da Seção de Contraespionagem na época. Posteriormente, descobriu-se que esse líder – que ficou por dois anos no cargo – era Harold Adrian Russell Philby, um próprio agente soviético infiltrado no serviço britânico, que comprometeu vários programas e operações paramilitares, incluindo parcerias com a CIA norte-americana.

Se recuperando dos danos e reforçando seu esquema de segurança, o MI6 finalmente conseguiu ter um papel mais relevante na Guerra Fria, sendo bem-sucedido em missões contra os oficiais soviéticos, resultado de operações de um “terceiro país” não identificado, que recrutava fontes soviéticas viajando para o exterior na Ásia e na África.

 

CIA (Estados Unidos)

Personagem: Emmett Kurzfeld (John Goodman)

A CIA também não escapou de algumas crises de espionagens durante a Guerra Fria. Em 1950, foi anunciada a prisão do físico inglês Klaus Fuchs, um dos principais pesquisadores de energia atômica do laboratório americano. O FBI descobriu o envolvimento de Fuchs com o Partido Comunista e com o vazamento de informações confidenciais para Moscou, um dos casos mais graves de vazamento de informações do período.

No mesmo ano, o FBI prendeu o engenheiro elétrico Julius Rosenberg e sua esposa, Ethel, suspeitos de participação na “conspiração Fuchs”. Mesmo alegando inocência até o fim, inúmeros apelos em sua defesa e a falta de provas, o casal foi condenado à morte e executado em junho de 53. Em 1986, a agência desafiou as leis e o próprio Congresso americano, envolvendo-se em negociações para a venda de armas ao Irã, em troca da negociação de libertação de cidadãos norte-americanos presos no Líbano. A história mostra que, mesmo indiretamente, ajudaram a fortalecer um estado que se voltaria contra eles mesmos poucos anos depois.

 

KGB (União Soviética)

Personagens: Aleksander Bremovich (Roland Moller) e Yuri Bakhtin (Jóhannes Jóhannesson)

Realmente, “sutileza” nunca foi uma palavra que definiu o serviço de inteligência soviético. Após os países aliados terem formado a OTAN, Moscou criou em 1955 o Pacto de Varsóvia. Assim, podia agir dentro dos países pertencentes ao pacto, operando nos seus serviços secretos, na imprensa e nas associações de trabalhadores. A central soviética de informação e espionagem era uma das mais fortes e se tornou praticamente onipresente, por atuar em todas as camadas da sociedade.

Sempre houve inúmeras alegações contra a KGB. Denúncias de assassinatos e frequentes violações de direitos humanos contra presos políticos, invasão forçada a outros países e até influência decisiva na iniciativa do governo da Alemanha Oriental de erguer o Muro de Berlim, são algumas delas. Nos anos 80, um avião de passageiros da Korean Air Lines foi derrubado ao invadir o espaço aéreo soviético e ignorar as advertências das autoridades do país. Morreram todos os 269 ocupantes do avião, mas o episódio permanece obscuro até hoje.

Não se sabe o motivo da aeronave ter ignorado os avisos da força aérea russa, mas acredita-se que se tratava mesmo de uma ação de espionagem de algum inimigo. Os passageiros civis teriam servido como escudo dos espiões, que não acreditariam na derrubada do avião. Infelizmente, não foi o que aconteceu.

 

Completam a trama os agentes de campo: Lorraine Broughton (Charlize Theron), David Percival (James McAvoy), Delphine Lassalle (Sofia Boutella), Merkel (Bill Skarsgard), James Gascoigne (Sam Hargrave) e Spyglass (Eddie Marsan). Contarei mais sobre eles em outra oportunidade.

Fãs do cinema de espionagem não podem perder este filme! Espero que tenham gostado e aguardem a parte 2 do especial, que sairá muito em breve!

 

E você, já assistiu ou está ansioso para ver? Concorda ou discorda da análise?

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