Há algo fundamental sobre o curta-metragem que parecemos esquecer. Quando foi a última vez que você assistiu a um curta-metragem nas telas do Cinema? Talvez a pergunta certa seja: quando você viu um curta pela última vez?

Todas as semanas novos filmes encontram espaço nas salas de exibição e seus ingressos são vendidos nas bilheterias, mas nem ao menos os adorados cinemas de rua (que sobreviveram) tem espaço cativo para esses contos audiovisuais. O que parecemos nos esquecer é que o curta-metragem é o formato original do cinema.

Se olharmos para os livros sobre a história cinematográfica, veremos como eram breves os primeiros filmes realizados pelos Irmãos Lumière, Edison, Meliés ou Edwin S. Porter. Eram os primeiros passos do cinema, da fotografia em movimento, que era então muito mais ciência do que arte. Conduzir breves experimentos para desenvolver a tecnologia era extremamente produtivo, além de muito mais barato.

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A Saída dos Operários da Fábrica Lumière (1895)

Há algo que se manteve constante em toda a jornada do Cinema, que agora já ultrapassa a marca centenária: a película, o filme propriamente dito, tem um custo significativo. Esse fato se manteve mesmo depois da tecnologia difundir-se. A medida padrão de um rolo de película 35mm é de 305m que rende cerca de 11 minutos de filmagem a 24 frames por segundo. No caso do cinema, o ditado popular que afirma que tempo é dinheiro, confirma-se quando a câmera é carregada com o negativo.

O jeito de se fazer Cinema mudou, as câmeras tornaram-se digitais e tiveram seu acesso facilitado. Qualquer um pode, virtualmente, fazer filmes de ficção ou tornar-se documentarista. Há incontáveis cineastas, coletivos audiovisuais, estudantes e entusiastas trazendo curtas ao mundo todas as semanas, em um ritmo parecido com o dos grandes estúdios de Hollywood. A diferença fundamental é que esses filmes não chegam ao público e falham na sua missão de serem vistos pelo maior número de pessoas.

Os espaços de exibição, as salas de cinema e os distribuidores não enxergam potencial comercial no curta-metragem. Eles estão errados, conformam-se nesse erro e por essa razão seguem perdendo público para novos formatos de se apreciar a narrativa audiovisual. As pessoas nunca quiseram tanto ver curtas quanto agora que carregam pequenas telas de alta definição em seus bolsos e mochilas. Confira seu histórico no Youtube e terá essa certeza. A maioria dos criadores de conteúdo para essa plataforma preferem e atestam a melhor aceitação de vídeos curtos de 3, 5 ou 8 minutos. Ainda assim, os curtas documentais e as narrativas de ficção parecem renegados.

Curto não quer dizer pior e essa forma da sétima arte exige dedicação dos realizadores envolvidos, não sendo apenas um parque de diversões. Há liberdade sim, mas há complicações também. Contar uma história em poucos minutos exige até mais criatividade do que fazer o mesmo em duas horas. Todo esse empenho as vezes resulta na escolha do realizador, da equipe, em não te deixar ver esse filme. Não te deixar ver esse filme ainda.

O curta-metragem deve ser a primeira incursão do realizador ao mundo cinematográfico. Todo cineasta que faz um curta sonha com o longa-metragem, mas na arte como na vida, sonha-se grande, mas o início vem em passos pequenos. Os primeiros passos precisam ser bem colocados. Como esses diretores e produtores não encontram espaço nas salas de exibição, contam tão somente com os festivais e mostras para expor seus trabalhos. Esses eventos limitam o número de pessoas que tem acesso ao filme e exigem que a obra não tenha nenhuma exibição pública. A vida de um curta no circuito de festivais dura em média 2 anos.

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Quando um curta deixa de cumprir os requisitos necessários para ingressar em todos os festivais, sua vida terminará, a não ser que os realizadores se empenhem em colocá-los em cartaz em novos meios de exibição que, com exceção da internet, mostram-se tão indiferentes quanto os grandes exibidores cinematográficos.

Esse texto de apresentação vai na contramão do próprio título dessa coluna, ‘Um Curta Por Semana’, que tem a intenção de levar esses contos breves ao maior número de pessoas possível, desvelando obras e realizadores, mostrando o valor inerente desses contos audiovisuais. O curta-metragem que inaugura esse espaço integra as estruturas do Cinema e pode ser considerado o primeiro filme de ficção científica realizado: ‘Viagem à Lua’ (Le voyage dans la lun), de 1902, dirigido por Georges Meliés.