Uma breve reflexão:

Enquanto somos formalmente alfabetizados em nossas escolas, em paralelo, somos também alfabetizados “audiovisualmente” dentro de nossas casa. Se a televisão e, mais recentemente, o Youtube ocuparam horas de seus dias de infância e adolescência, você passou por esse processo (ainda que de forma inconsciente).

Enquanto assistíamos aos desenhos matutinos e as reprises de filmes durante as tardes, estávamos nos acostumando com uma forma de se contar histórias e estórias. Com muito pouca variação, tudo que consumimos em matéria de audiovisual descende de uma linguagem cinematográfica clássica, didática e americana. Criamos uma expectativa inerente em relação as estórias que consumimos, ao menos no que diz respeito a forma em que nos são exibidas.

Por estarmos habituados com certas especificidades dessa linguagem narrativa, a percepção da peça audiovisual torna-se automática e praticamente acrítica. Um exercício simples e que ilustra bem essa situação pode ser realizada da seguinte maneira: selecione uma cena específica de um filme e tente contar o número de cortes do começo ao fim. Os resultados são previsíveis: a surpresa com o número de cortes dentro de uma cena tão curta e/ou a facilidade de desviar a atenção da atividade proposta. Tudo bem, não é sua culpa.

Sabendo disso, é de se considerar a possibilidade (bem real) de termos uma predisposição a rejeitar qualquer coisa que fuja a essa estrutura. Talvez seja por isso que você não consegue aderir as antitramas de Godard. Talvez seja por isso que alguns filmes nacionais como ‘Branco Sai, Preto Fica’ não conseguem perdurar nas salas de cinema.

O cinema, elegido por nós como protagonista dentro da cultura de massa, ainda é uma arte. A criatividade e a emoção devem vir antes do dispositivo da técnica.

O curta-metragem mineiro ‘Fantasmas’, dirigido por André Novais de Oliveira, se apresenta quase como um desafio a essa nossa percepção inconsciente e ao mesmo tempo ansiosa pelo corte, pelo movimento de câmera ou o contra-plano óbvio.