Luzes coloridas, árvores enfeitadas e graciosos flocos de neve marcam diversas obras audiovisuais lançadas nesta época do ano, com uma temática natalina já consagrada no cinema popular. Em A Segunda Chance Para Amar não é tão diferente: no filme dirigido por Paul Feig e estrelado por Emília Clarke, o Natal está presente em toda sua composição, tanto estética quanto narrativa, guiando a história de forma leve e descontraída para uma visão ainda mais intensificada (porém sutil) do espírito natalino”.

Por que você está vestida de elfo“?

O longa-metragem conta a história de Kate, uma jovem adulta com um passado um tanto turbulento, mas secreto ao espectador durante os dois primeiros atos. Se mostra, desde o início, cansada em relação à vida que leva: trabalha em uma loja que vende enfeites natalinos durante todo o ano, estando exausta de qualquer noção destas festividades; não possui dinheiro o bastante para ter a própria cama, então dorme de favor na casa dos poucos amigos que lhe restam; e, por último, não possui uma boa relação com sua mãe e irmã, fazendo com que abomine a ideia de voltar para casa.

Tais fatores que dificultam o dia a dia da personagem estão fortemente ligados ao segredo que marca seu passado, fazendo com que o espectador se pergunte, durante toda a narrativa, o que aconteceu com Kate que mudou toda sua vida para pior. A curiosidade é extremamente bem construída ao longo da obra, fazendo com que o momento da revelação – o qual se prova um magnífico momento de catarse para a protagonista – se torne um emocionante e delicado clímax, antecipando um plot twist maior ainda que leva o filme a superar as expectativas do público – mesmo que de forma clichê.

Emilia Clarke, conhecida por seus marcantes papéis em “Game of Thrones” e “Como eu era antes de você”, se mostra versátil em seu papel, com uma persona extremamente complexa que, mesmo sendo sensível e delicada, carrega muito dentro de si. Tanto nos momentos felizes quanto em suas tragédias pessoais, consegue agradar com seu excesso de carisma e energia cativante, fazendo com que o filme se torne melhor do que é – se interpretada por outra pessoa, certamente A Segunda Chance Para Amar não seria a mesma coisa.

Os personagens secundários também encantam o espectador e agregam ao filme como um todo, mergulhando em bem-vindos clichês que divertem do início ao fim. Desde a dona da loja até a mãe da protagonista – ambas severas, mas sensíveis –, cada pessoa que passa pela vida de Kate tem um significado, mostrando a ela que todas possuem uma bondade dentro de si, passando a mensagem de que nem todas as pessoas são fáceis de se lidar, mas ainda merecem seu esforço pessoal. Henry Golding, de “Podres de Ricos”, também agrada bastante em seu papel, sendo o interesse amoroso da personagem de Clarke e fazendo com que o público torça, desde o início, para que fiquem juntos.

O filme é, inegavelmente, uma clássica comédia romântica natalina, entretendo com um humor leve e com uma imensidade de cenas propositalmente adoráveis – podendo ser classificado, informalmente, como um bom romance água com açúcar. Seus diálogos e situações facilmente conseguem tirar risadas de um público despretensioso, se provando um filme significativamente divertido que entrega facilmente aquilo que propõe.

Se aprofundar mais na trama, entretanto, pode trazer possíveis spoilers da história, pois cada detalhe apresentado no decorrer da narrativa é crucial não só para o desenvolvimento da obra, como também de sua personagem principal. Com o espírito de Natal e todas as reflexões apresentadas por Kate, o espectador é convidado a rever o mundo de uma nova maneira, a partir de uma visão mais altruísta e sensível do mundo, de seus acontecimentos e das pessoas ao redor – se funciona ou não, vai de cada um.

A trilha sonora também se destaca, agregando à narrativa conforme acrescenta significados aos acontecimentos – às vezes de forma figurativa, outras de forma literal. O próprio nome original do filme, Last Christmas, já demonstra a importância das canções para a composição geral do longa. A música não só é importante na vida da protagonista, como também é essencial para constituir a identidade própria da obra.

Para quem procura uma obra simples, leve e sensível, portanto, Uma Segunda Chance Para Amar se prova exatamente isso, não tentando, em momento algum, ser maior ou mais sério do que realmente é. Tirando pequenos risos do público, a obra se torna uma breve lição sobre a vida e as pessoas presentes nela, mas, mais ainda, sobre amor próprio e a importância de se estar em paz consigo mesmo. Seja a si mesmo ou ao próximo, Kate se deu uma segunda chance para amar, e assim convida o espectador a fazer o mesmo.