Uma discussão interessante sobre a vida envolve, curiosamente, o fim dela. Nascer sabendo sobre a certeza de que tudo, um dia acaba, além de ser algo doloroso, também funciona como um guia para a vida. É assim que tomamos determinadas atitudes ou escolhemos determinados caminhos. Porém, algo que não é inevitável é a morte. Em 1983, o já conhecido autor de O Iluminado e Carrie lançou aquele que foi considerado uma das melhores obras de Stephen King: O Cemitério.

Internacionalmente conhecido como Pet Sematary, o livro de King trabalha justamente a dor da perda e a dificuldade de aceitar o inevitável. Curiosamente, Vingadores: Ultimato trabalha a mesma temática no tom dramático, e, por isso, mais comparações entre os dois acontecerão conforme o caminhar do texto.

A obra foi tão significativa que, seis anos após o lançamento do livro, Mary Lambert o adaptou aos cinemas, deixando uma marca no gênero na época. No entanto, Cemitério Maldito envelheceu mal e não consegue trazer o mesmo peso de antes para os dias atuais, sendo, claramente, uma obra de época. Esta nova versão, agora adaptada por Matthew Greenberg e Jeff Buhler no roteiro, e Dennis Widmyer e Kevin Kolsch na direção, parece que vai passar pela mesma coisa. Do mesmo que o cinema em si, é cíclico, seus gêneros também são, ainda mais o terror. Por mais que Cemitério Maldito toque em um assunto atemporal, a técnica para sua produção dificilmente segue o mesmo caminho, o que traz o ponto decepcionante do longa.

Por não terem uma vasta experiência, Widmyer e Kolsch apresentam o clássico amadorismo com a direção. Grande parte do longa trabalha com conceitos clichês do gênero e com pouca inovação na parte técnica da história. O texto de Buhler é o que mais reflete isso.

Enquanto suas escolhas textuais “bebem” de situações clássicas de outras histórias – incluindo diálogos – a direção também não fica muito longe, com planos trabalhados de maneira previsível ou com construção de tensão nada natural, exigindo muito de uma trilha sonora que poderia ser muito mais comedida. Por sua vez, ainda é um trabalho honesto. Seguir a linha mais “clássica” traz momentos desagradáveis com o sentimento de “poderia ser mais”, mas consegue entregar o esperado e faz sua “lição de casa”. Os dois diretores, no fim, conseguem entregar um filme de terror com saldo positivo, apesar de escolhas contestáveis.

Isso se deve muito também pelas escolhas de Buhler, mas principalmente uma específica. Enquanto no livro, King desenvolveu uma história envolta do jovem Gage – incluindo a versão de 89 – aqui, o roteiro escolheu construir uma relação diferente, dessa vez, envolvendo Ellie. Ao todo, a ideia é poderosa e totalmente crível dentro de seu viés narrativo, dando uma atenção maior para a relação com a jovem, o que acaba prejudicando um pouco a presença de Hugo Lavoie – provavelmente pela sua falta de experiência com atuação – mas que funciona como uma justificativa para a conclusão.

No entanto, a grande cena do atropelamento acaba ganhando um tratamento exagerado, o que prejudica o choque que deveria transmitir. A questão aqui está na escolha de fazer algo maior e ir além do simples – mas fatal – atropelamento. A computação gráfica utilizada para a dramatização é mau feita, o que afasta o espectador da situação e tira o peso necessário para o acidente. Há também uma construção mau feita em relação ao personagem de Victor Pascow (Obssa Ahmed), que acaba sendo muito jogado pelo roteiro e não tendo o trabalho que o personagem pedia.

Dentro desses quesitos, é quase impossível não comparar com a obra de 89, até por ser uma análise de dois conteúdos visuais. Widmyer e Kolsch conseguem realizar um grande feito ao respeitar tanto o livro quanto o longa – trazendo até planos iguais – mas supera em se diferenciar.

Como filme, os dois se diferenciam muito na qualidade, dando uma longa vantagem na obra recente, mas existe a questão do tempo e, pela linguagem escolhida pelos dois, essa qualidade pode acabar não existindo futuramente. Entretanto, Widmyer e Kolsch chamam a atenção pela visão que deram à obra. Claro que a presença do texto de Buhler nesse ponto é crucial, mas todo o tratamento visual dado pelos dois faz de Cemitério Maldito sair com o saldo positivo. O primeiro ponto nesse quesito é o próprio gato. A escolha de um Siberiano conversou facilmente com a proposta do mistério – que aqui trabalha pelo menos o conceito do Wendigo – e consegue se aproveitar do terror que a narrativa exigia. O mesmo acontece com a maquiagem de Jeté Laurence. Toda a crueldade é aparente só no visual da personagem e convence o espectador a refletir sobre a escolha de Louis Creed (Jason Clarke) e gerar o questionamento proposto por King no livro.

São nesses pontos específicos que fazem esta nova versão superar a adaptação de 89. O controle narrativo da direção é mantido e a estrutura do longa não se transforma. Os dois trabalham de forma segura do começo ao fim, mas se aproveitamento muito de clichês, como já comentado. O cerne, por sua vez, é o que mantém a força do terror. Como comparado anteriormente, Ultimato trata da temática da superação no mesmo nível de Cemitério Maldito. Enquanto um explora uma aventura envolvendo os personagens da Marvel, o outro é mais humano, com um toque de fantasia. Porém ambos discutem a dificuldade de superar a despedida de alguém e coloca o questionamento sobre o que faríamos no lugar dos personagens. É aqui que o terror do longa ganha força e onde a direção acertou em explorar, apesar de técnicas antiquadas. 

Por isso, mesmo que exista as mudanças positivas na história, Cemitério Maldito ainda não conseguiu ganhar um longa definitivo para deixar sua marca. Ambos os filmes conseguem agradar em suas devidas épocas, mas longe de manterem a credibilidade por muito tempo. Como para seres vivos, para as obras, às vezes, também estar morto é melhor.