SINOPSE

Enquanto os Vingadores e seus aliados continuam protegendo o mundo de ameaças muito grandes que nenhum herói consegue enfrentar sozinho, um novo perigo surge das sombras do cosmo: Thanos. Um déspota com má-fama intergalática, sua meta é reunir as seis Joias do Infinito, artefatos de poder inimaginável, e usá-las para infligir sua vontade macabra em toda a realidade. Tudo pelo que os Vingadores lutaram levou a esse momento – e o destino da Terra e da própria existência nunca esteve tão incerto.

FICHA TÉCNICA

Direção:

Joe Russo, Anthony Russo

Roteiro:

Christopher Markus, Stephen McFeely

Gênero:

Ação, Aventura, Ficção Científica, Fantasia

Produção:

Elenco:

Robert Downey Jr., Chris Evans, Josh Brolin

Nacionalidade:

EUA

Ano de Produção:

2018

Data de Lançamento:

26/04/2018

Distribuição:

DISNEY/MARVEL

CLASSIFICAÇÃO

Direção:

Roteiro:

Fotografia:

Trilha-Sonora:

Efeitos Visuais:

Efeitos Especiais:

Direção de Arte:

Elenco:

Montagem:

Figurino:

Maquiagem:

Por motivos de força maior, estava dando um tempo nos meus textos sobre cinema. “Rampage: Destruição Total”, o último filme que havia visto em uma cabine de imprensa, me decepcionou um pouco e como eu sabia que faria uma pausa nos textos por motivos pessoais, acabei nem escrevendo sobre ele.

Mas eis que “Vingadores: Guerra Infinita” – uma das principais estreias do ano – entrou em cartaz e eu, como bom cinéfilo, não resisti e fui ver na estreia. Fiquei abismado e curioso com a tremenda repercussão entre amigos e nas redes sociais e precisava ver com meus próprios olhos. Não me decepcionei (sem trocadilhos).

O filme entrega momentos divertidos e heroicos como todo bom exemplar da Marvel (e do gênero), mas especificamente neste caso, vai um pouco além. Na minha opinião, pela primeira vez em um filme do estúdio nós temos um vilão realmente bem desenvolvido e que constitui uma ameaça real aos protagonistas.

Sem perder mais tempo, neste texto tentarei explorar porque Thanos (brilhantemente interpretado por Josh Brolin) é um antagonista tão eficiente para os Vingadores e traçar paralelos das suas motivações com algumas linhas de pensamento discutidas ao longo da nossa história.

Marvel fazendo o que sabe de melhor

Apenas para não deixar algumas questões passarem em branco, acho “Guerra Infinita” um projeto bastante ambicioso dos irmãos Russo, diretores também responsáveis pelo ótimo “Capitão América: Soldado Invernal” e o bom “Capitão América: Guerra Civil”. Por mais que eu não seja um ávido leitor de quadrinhos, quem me acompanha sabe que tenho um fraco por filmes de super-heróis e aprendi com o tempo a compreender a excitação dos fãs (e o quanto essas histórias significam para eles). “Guerra Infinita” realmente é um dos melhores filmes do estúdio.

Entretanto, apesar de ter me divertido muito com o longa, eu não sinto que ele subverte nenhuma fórmula ou chega a ser surpreendente em suas tomadas de decisões (como ouvi muito por aí), mas reconheço que é bem dirigido. Mesmo que as cenas de ação não chamem tanto a atenção, os diretores conseguem condensar de forma orgânica tantos tons e núcleos diferentes – que antes conhecíamos apenas nos filmes solo – sem parecerem “picotados” ou fora de sintonia. E durante suas 2h29min de duração, há tempo mais que necessário para cada um dos super-heróis ter seu momento de destaque.

Mas, como mencionei, hoje eu queria falar especialmente do vilão Thanos. Para mim ele funciona tão bem porque suas ações estão diretamente ligadas a um dos principais temas do filme, que é o sacrifício por um bem maior. Vejamos mais adiante:

Restaurar o equilíbrio do universo controlando a população

Antes disso, para quem ainda não assistiu, o objetivo do vilão é sacrificar metade da população mundial por saber que os recursos no universo são finitos e, ao passo em que a população mundial cresce, mais aumentam a desigualdade, pobreza e sofrimento entre os habitantes de todas as galáxias. Ao se autoproclamar um “deus”, Thanos acredita que precisa restaurar o equilíbrio no universo.

Desta forma, ele quer reunir todas as jóias do infinito para ter a capacidade de, num estalar de dedos, dizimar um em cada dois dos seres existentes no universo. Só assim ele conseguiria descansar e reinar em paz, sabendo que seus “filhos” não precisariam mais se preocupar com o amanhã.

Pela forma como essa motivação é apresentada, quando descobrimos os planos maléficos de Thanos fica difícil não se lembrar da Teoria populacional Neomalthusiana (para quem lhe é familiar, é claro), baseada em fundamentos ligados ao Malthusianismo (teoria criada pelo economista político britânico Thomas Malthus no final do século XVIII). É óbvio que o filme não se aprofunda o suficiente para tentar explicar essa tese – e esse nem é o objetivo, a bem da verdade -, mas algumas semelhanças tornam as comparações inevitáveis.

De maneira bem reduzida, no seu Ensaio sobre o princípio da população (1798), Malthus argumentava que a produção agrícola não conseguiria acompanhar o rápido crescimento da população, levando naturalmente à perpetuação da pobreza em poucas gerações. Por exemplo, 100 unidades de comida poderiam crescer para 150 em 40 anos e 200 em 80. Supondo-se o não esgotamento de vários recursos naturais (como água e solo), essa duplicação da produção em apenas três gerações seria um enorme avanço tecnológico.

No entanto, se uma família típica tinha quatro filhos, uma geração de 100 pessoas daria lugar a uma de 200 e esta, por sua vez, daria lugar a outra de 400 nos mesmos 80 anos. Considerando também a desigualdade de distribuição de alimentos ao redor do mundo, Malthus previa uma inevitável e cada vez mais alarmante crise de pobreza e fome por todos os lugares. Você pode estar se perguntando: mas de que forma Malthus e Thanos têm ideologias semelhantes? Assim como o vilão, o economista defendia abertamente que o mundo precisaria de guerras (infinitas, por que não?) e epidemias para que houvesse um equilíbrio entre a produção de alimentos e população.

Para concluir esse tópico, falando em guerras, após a Segunda Guerra Mundial a corrente neomalthusiana retornou com força em evidência. Estudos demográficos no pós-guerra mostraram que com o desenvolvimento sanitário, da medicina e da tecnologia, a expectativa de vida das pessoas cresceu muito, assim como as taxas de mortalidade infantis reduziram drasticamente. Para eles, o mundo está superpopulando novamente e isso é um risco.

Os defensores dessa corrente também acreditam que o alto índice populacional nos países subdesenvolvidos é o principal fator para a baixa economia, fome e miséria nessas regiões (aliás, seria a Terra um planeta subdesenvolvido no universo Marvel?). Desde então, temas como planejamento familiar e o grande aumento do uso de métodos contraceptivos passaram a ser disseminados em vários países, mas ao invés de um líder tirano fazendo pessoas desaparecerem, é a figura do Estado a responsável pelas campanhas e aplicação do controle populacional.

 

 

Uma ação tomada pelo bem da maioria, é moralmente boa?

Nós poderíamos ficar aqui discutindo os prós e contras das teorias de Malthus e o impacto real que isso geraria no nosso planeta, mas o texto está ficando enorme e eu preciso voltar a falar mais especificamente do filme. Portanto, há uma outra linha de pensamento mais adequada à temática de sacrifício por um bem maior que eu mencionei lá atrás, lembram? Estou falando de uma das mais antigas discussões da filosofia: o utilitarismo x a ética deontológica.

Só mais um pouquinho de história, prometo. O utilitarismo foi uma teoria criada pelo filósofo inglês Jeremy Bentham (curiosamente também no final do século XVIII), que defende basicamente uma coisa: a moralidade (ou imoralidade) de uma ação depende da sua consequência, ou seja, uma ação que promova o bem-estar para o maior número de pessoas automaticamente é boa, independentemente se for contra alguma moral ética ou religiosa, por exemplo (desta forma, matar ou roubar por um “bem maior” seria justificado).

A ética deontológica, por sua vez, vai além e se opõe ao princípio utilitarista. Ela defende que muitas ações já são por natureza erradas, e nem as consequências bem-intencionadas desses atos devem justifica-las – quem vive em sociedade sabe muito bem o conjunto de leis que precisa respeitar, nossos chamados “deveres”. Em outras palavras, a ética deontológica representa um idealismo “moral” em nossas ações. E na cultura pop, quem melhor do que os super-heróis para representarem esse idealismo de “fazer o que é certo” mesmo quando tudo parece perdido?

É exatamente aqui que eu queria chegar. Logo após ter assistido ao filme, me surpreendi com a reação de algumas pessoas endossando os atos de Thanos, alegando que o filme o humaniza e se pararmos para pensar daria até para criar “empatia” com suas motivações (mas eu discordo).

Eu tinha saído com uma sensação diferente, a constatação de que Thanos era um genocida obcecado por poder, e disposto a qualquer sacrifício para obter o que queria. Porém, refletindo depois, compreendi que o tinha simplificado demais. Finalmente entendi o porque de ele ser um antagonista tão eficiente e impactante no filme. Thanos não é um genocida genérico como eu imaginava, pois como ele mesmo afirma: “não faz distinção de gênero, raça ou religião”, ou seja, possui características opostas aos principais genocidas que conhecemos através da história.

Thanos é convicto às suas crenças e acredita estar fazendo o certo (como se os fins justificassem os meios, de maneira bem utilitarista). Ele é um vilão tão forte porque constantemente ataca as fraquezas dos heróis. Assim, os pressiona a tomarem decisões difíceis que os forçam a irem contra seus próprios “princípios” (ou deveres, em termos deontológicos). No entanto, eles precisam resistir, afinal, esse “idealismo moral” é o que eles representam.

Por exemplo: você mataria milhões de pessoas para salvar outros bilhões? Sacrificaria perder alguém (ou aquilo) que mais ama por algo maior, no caso do filme, metade da humanidade? Pois é, esses dilemas morais são verdadeiras “pegadinhas” para nós (que seguimos regras para decidir o que é certo e errado) e também para os Vingadores (que agem conforme suas crenças idealistas, mas afinal, também são humanos). E esse “debate”, esse conflito, enriquece muito o filme, pois questões como essa tornam o antagonismo entre Thanos e os Vingadores muito mais interessante.

Vou exemplificar melhor. As ações de Thanos obrigam personagens como Heimdall (Idris Elba), Peter Quill (Chris Pratt), Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), Doutor Estranho (Bennedict Cumberbatch) e indiretamente Tony Stark (Robert Downey Jr.) a fazerem tais escolhas e sacrifícios – aumentando exponencialmente a carga dramática do filme, algo pouco comum nos filmes do estúdio. Isso coloca protagonistas e antagonista em constante conflito. Podemos não perceber de imediato, mas certamente sentimos o impacto emocional quando nos deparamos com a importância dessas escolhas.

Sem querer dar nenhum spoiler – portanto serei vago -, o próprio vilão é colocado de frente com essa escolha de sacrifício, mas toma uma atitude de consequências completamente diferentes dos super-heróis. Embora competindo pelo mesmo objetivo que os Vingadores (a vitória na guerra e a proteção da população), Thanos faz uma escolha por motivos egoístas e não altruístas, como os outros. As escolhas diferenciam heróis de vilões. Os roteiristas merecem crédito pelo desenvolvimento do personagem.

Considerações Finais

Eu tinha muito mais exemplos para explorar essas questões, mas o texto está gigante, fica para uma próxima. A mensagem que eu queria deixar, é que é importante compreendermos a visão de mundo de um vilão para perceber como ele representa ser tudo aquilo que o herói não é. O professor de roteiro Robert McKee já dizia: “um bom personagem é revelado ao fazer escolhas que nós faríamos sob pressão, e quanto maior a pressão mais profunda a revelação, mais honesta a escolha à essência natural do personagem”. São nas escolhas que os personagens se revelam.

Assim como em “O Cavaleiro das Trevas”, onde o Batman escolhe salvar Rachel ao invés de Harvey Dent – mostrando que não estava pronto para abrir mão de quem amava (sacrifício) pelo bem maior (Dent estava limpando a cidade do crime legalmente) -, o Coringa expõe essa falha no Homem-Morcego, enganando-o, usando sua escolha contra ele mesmo. Esse é o segredo dos grandes vilões, como escreveu o também professor de roteiro John Truby: “um grande antagonista é excepcionalmente bom em atacar a fraqueza do herói”. Sucedendo Killmonger em “Pantera Negra”, Thanos representa uma melhora contínua em termos de vilões para o estúdio, o que é bastante animador para o futuro.

Para mim, o diferencial de “Vingadores: Guerra Infinita” com relação aos outros exemplares do MCU (universo cinematográfico da Marvel) é sentir que as apostas realmente são para valer, pois desta vez vidas serão perdidas. Enfim – com exceção de Mercúrio – teremos personagens que nunca mais voltarão àquele universo. E apesar de achar que o impacto final do filme é enfraquecido por um quase (100%) provável retorno da maioria dos atingidos pelas ações de Thanos neste capítulo, desta vez nos confrontamos com um vilão realmente perigoso. Ansioso para ver como tudo isto irá acabar.

Fontes: http://www.equip.org/article/ethics-theories-utilitarianism-vs-deontological-ethics/

Livro: 1001 ideias que mudaram nossa forma de pensar

E você, já assistiu ou está ansioso para ver? Concorda ou discorda da análise? Deixe seu comentário ou crítica (educadamente) e até a próxima!

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