Em 2013, longa original da Disney “Detona Ralph” estreou com a proposta de resgatar a nostalgia dos games dos anos 80, e como plano de fundo trouxe um debate maniqueísta que não só ajudou a Disney a continuar exaltando seus “vilões” como estabeleceu uma interessante mitologia ficcional sobre o papel do antagonismo no desenvolver das tramas. O trabalho do diretor e escritor Rich Moore foi satisfatório, cômico e original fazendo então que o filme pudesse receber uma continuação, que estreia agora na primeira semana do ano.

 

Entretanto “WiFi Ralph” não é uma sequência padrão, pois diferente da maioria dos filmes, e em especial os longas da Disney, o segundo filme não tem amarras morais com o seu predecessor, e não continua o desenvolvimento dos arcos dos personagens da forma que estamos acostumados a ver. Agora, de certa forma, a vida de Ralph e Vanellope apenas seguiu em frente, e por mais bizarro que possa parecer dizer isso sobre a vida de personagens fictícios de vídeo game, a vida deles seguiu de forma normal.

 

E esta escolha foi fundamental para o sucesso da trama da segunda produção, pois assim pôde seguir um rumo completamente novo, entregando mais uma vez um filme satisfatório, cômico e original. É interessante observar essa guinada num filme do Walt Disney Animation Studios, já que tamanho desempenho era mais comumente observado nos longas da Pixar, a qual, infelizmente, nos entregou no ano passado uma sequência muito mal trabalhada e rasa com “Os Incríveis 2”.

 

Agora, como já nos indicava o título, os personagens do fliperama entraram online. E na trama, essa mudança radical de ambientação é feita de maneira orgânica e quiçá até metafórica, representando a velocidade dos avanços tecnológicos em nossas vidas. Como plano de fundo, a internet não só permitiu que os cineastas rompessem as barreiras impostas pelos vídeo games do anos 80, como também ampliou a possibilidade de “easter eggs” a serem incluídos no filme, já que agora o estúdio não precisou correr atrás dos direitos de personagens de terceiros (a mágoa de não terem incluído o Mario no primeiro filme pode ter sido muito grande), e no ambiente online inseriu a própria gama de personagens do estúdios, que incluíram desde as clássicas princesas, como personagens do universo Marvel e Star Wars (imagina só quando a empresa do camundongo completar a negociação com a raposa, as possibilidades serão infinitas).

Mas a internet não foi fundamental apenas para a inclusão de referências aos filmes do próprio estúdio, ela foi, da forma mais sútil possível, o centro do debate que o filme trouxe. A forma genial de dar forma para o ambiente abstrato trouxe em sua raiz uma crítica muito clara sobre as mudanças patéticas comportamento humano devido à internet. A representação dos usuários é perfeita para representar a alienação sob a qual vivemos, e não chega nem a ser uma sátira, dada tamanha proximidade com a realidade.

Talvez seja paradoxal dizer que a crítica é sutil, mas evidente. Mas dada as condições de percepção do mundo que convivemos hoje, a grande maioria dos espectadores irá gargalhar com as piadas sem perceber que está rindo das bizarrices de seu próprio comportamento. E essa que é a grande jogada de Moore, fazer um filme infantil com apelo para o grande público e que tire sarro desse público sem que o mesmo perceba.

Com um toque da magia Disney, WiFi Ralph surpreende pela forma de abordar a temática sem deixar de encantar os olhos com uma agradável e divertida história. Deve ressaltar ainda, que diferente de algumas das últimas animações do estúdio lançadas no Brasil, a dublagem nacional não está carregada de gírias e vícios de linguagem, valorizando ainda mais o lançamento.