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‘Mate alguns caras, fique com a garota, e tente manter a pose enquanto está fazendo tudo isso’.

Quinze anos após sua primeira missão, o ex-atleta radical e agente Triplo X dado como morto em missão Xander Cage (Vin Diesel) precisa retornar à atividade, pois um objeto muito importante do governo (chamado caixa de pandora) foi roubado por um grupo de ladrões extremamente habilidosos, liderados por Xiang (Donnie Yen). A princípio, Xander recusa, mas seu espírito de heroísmo e respeito ao amigo de longa data Agente Gibbons (Samuel L. Jackson) o coloca de volta ao jogo para salvar o mundo dos malfeitores. A direção é de D. J. Caruso, experiente diretor de filmes interessantes como ‘Paranóia’, mas também de desastres como o recente ‘O
Quarto dos Esquecidos’. Ele dirige o roteiro escrito pelo desconhecido F.Scott Frasier, baseado nos personagens criados por Rich Wilkes.

‘xXx: Reativado’ marca o segundo retorno do astro dos filmes de ação Vin Diesel a uma franquia que ele começou, mas recusou participar da sequência (assim como em ‘Velozes e Furiosos’). O primeiro filme surgiu em 2002, mas em 2005 a sequência ‘xXx: Estado de Emergência’ teve como protagonista Ice Cube como um novo agente X. O estilo da franquia sempre foi tentar aliar uma tradicional trama de ação de agente secreto com o diferencial dos esportes radicais, mas o segundo filme passou muito longe da mesma aceitação popular que teve o filme original, fato que explica mais de uma década para a realização de um novo projeto. O novo filme, ‘xXx: Reativado’ tenta abordar a questão da vigilância do governo sem o consentimento da população, invadindo descaradamente sua privacidade, mas convém dizer que mesmo um tema relativamente tão simples de ser abordado é apenas sugerido no filme por meio da caixa de pandora, mas em momento algum é aprofundado. Todo o filme não passa de uma diversão para os atores, uma trama completamente sem compromisso com a realidade.

O grande problema do filme é o roteiro, que praticamente não existe. É claro que os três atos são bem nítidos e a trama – apesar de extremamente previsível – consegue contar uma história, mas há tantas conveniências e situações que não agregam em nada ao filme, que facilmente poderia ser comparado a um ‘Todo Mundo em Pânico’ da vida, onde há apenas um começo, um meio e um fim, mas a estrutura que une essas três partes é completamente irregular. Alguns personagens aparecem por aparecer, como é o caso do menino Neymar – que mesmo tendo apenas duas cenas, arranca risadas pela situação bizarra nas quais aparece. Apesar de ter set pieces (grandes sequências de ação) bem nítidas e pontuais, trazendo consigo uma boa carga de adrenalina, o filme peca em insistir que Xander é um garanhão/pegador/macho-alpha/irresistível às mulheres. Além de só a presença e porte físico do ator já demonstrarem isso, praticamente a cada dez minutos de filme há uma personagem feminina se derretendo pelo protagonista, por meio de diálogos completamente descartáveis. É esse tipo de coisa que pode taxar um filme de sexista, pois simplesmente falta bom senso aos realizadores.

É só ver como James Bond, por exemplo, usa seu charme natural para conquistar as mulheres, ou em ‘Kingsman: Serviço Secreto’ esse recurso – na falta de expressão melhor – da mulher como ‘prêmio’ é muito bem utilizado em função do filme, tornando a situação até engraçada. Alguns tentam defender dizendo que ‘é para deixar o filme com cara de anos 80 e 90’, quando não se dava tanta importância a esse tipo de assunto, mas vejam a diferença de ‘xXx: Reativado’ para um ‘Jovens, Loucos e Mais Rebeldes’, por exemplo. Este último, também retrata homens focados apenas em mulheres e diversão, mas o bom senso no roteiro e na direção impede que haja exageros, retratando esse desejo como algo inerente a história, e não um personagem receber um harém de mulheres sem motivo algum, apoiado por uma frase de efeito tosca como ‘o que eu não faço pelo meu país’? Por mais que eu não considere um pecado mortal, é simplesmente desnecessário e poderia ter sido evitado. Há também alguns ‘plot twists’ durante o filme, mas sem grande impacto, ou por serem previsíveis ou completamente sem noção.

Com um elenco extremamente numeroso, apesar de rostos não tão conhecidos, até que ‘Triplo X’ se sai bem neste quesito (os personagens são apresentados com fichas como em ‘Esquadrão Suicida’). O elenco tenta dar uma diversificada trazendo três orientais (Donnie Yen, Tony Jaa e Kris Wu), uma indiana (Deepika Padukone), além de várias mulheres com bastante tempo de tela (Toni Collete, Ruby Rose e Nina Dobrev). Naturalmente, alguns se destacam mais do que outros, como é o caso de Donnie Yen. Ele, que substituiu Jet Li por motivos não revelados, já havia encantado os fãs de ‘Rogue One’ no final do ano passado (além de ser um mito no seu país, o eterno ‘Ip Man’) mostra que cada vez mais vai conquistando seu espaço em Hollywood, podendo preencher uma lacuna deixada pelo próprio Li e Jackie Chan, por que não? Mais uma vez ele leva a sério a oportunidade e seu personagem é um dos mais ‘admiráveis’, se é que podemos chamar assim. Nina acaba fazendo uma nerd clássica dos filmes (bonitinha de óculos grandes), mas seu papel de criadora dos gadgets da equipe é pouquíssimo desenvolvido. Os outros também se esforçam, mas pouco podem fazer com papéis tão rasos. Ah, faltou mencionar o campeão do UFC Michael Bisping e Rory McCann (o ‘Cão’ de Game of Thrones), que também compõem o time.

Continuando, o filme tenta trazer alguns momentos propositalmente exagerados para dar uma sensação ‘épica’ de ação, mas falha miseravelmente. Vão assistir de mente aberta, pois verão algumas das acrobacias mais nonsense da história do cinema Hollywoodiano, como ski na floresta, skate na auto estrada, motos entre as ondas do oceano (toscamente realizadas, diga-se) e etc. Pode até ser inovador, mas muito mal feito. Como ponto positivo, conta a montagem do filme. Apesar de ter quase duas horas de duração, a montagem é bem ágil sem parecer apressada. Caso embarque na história desde o começo, o espectador tem tudo para deixar rolar e se divertir. Lembrando que a fotografia do filme é de Russell Carpenter, vencedor do Oscar por Titanic.

Concluindo, a direção de D. J. Caruso é até difícil de avaliar. Se formos analisar como um todo, é um desastre, mas analisando cena a cena ou algumas sequências, dá pra sentir que o diretor sabe como filmar cenas de ação. Alguns momentos são absurdamente hilários pela falta de noção, há até uma referência à ‘O Franco Atirador’, em uma roleta russa tripla com granadas (!). Os dez, quinze minutos finais são alucinantes e mesmo com muitos personagens, cada um tem seu momento dentro do filme, não há um que é totalmente abandonado sem seu destaque, o que é muito positivo. Destaque com certeza para Donnie Yen, que mesmo prejudicado por vários cortes seguidos nas suas cenas de luta, consegue empolgar com seus golpes rápidos e bem sincronizados e há até um ‘face-off’ entre Vin Diesel e um soldado com punhos de aço. Isso sim é homenagear bem os filmes de ação dos anos 80. No final das contas, em ‘xXx: Reativado’ cada cena é motivo para uma acrobacia impossível com motos, skates, armas, facas, granadas, porta-guardanapos (pois é, isso mesmo) e etc. Um filme que é indicado a um público-alvo muito específico e mente aberta, que não procura uma trama bem amarrada, mas muita correria, tiros e explosões.

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