Críticos de cinema. Profissionais tão amados e tão odiados pelo público. Principalmente quando o assunto são os blockbusters. Sabemos que grandes bilheterias e opinião pública não determinam a qualidade do filme, ‘Homem de Ferro 3’ (2013) está aí pra não e deixar mentir. Mas no final das contas, o que realmente importa é o que cada um acha, sendo assim, pra quê existe o crítico?

Para uma introdução histórica, a crítica nasceu na Grécia Antiga, por volta de 1100 a.c. como um formato do gênero jornalístico de opinião. Apesar de nascer na Grécia, seu reconhecimento de jornalismo de opinião veio só no século XVIII com as primeiras revistas trazendo críticas culturais de teatro, música e literatura. Logo em seguida foi a vez da crítica cinematográfica entrar no time. No início, principalmente no Brasil, as revistas não traziam muitas críticas, e o cinema era mais retratado a partir de notícias e notas, e foi só na década de 80, após a introdução de cursos de cinema nas universidades que a função de crítico ganhou uma importância maior na mídia.

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Como poucos sabem, a função principal do crítico não é apenas a de criticar aquele filme popular e muito menos influenciar sua ida ao cinema, mas são situações que se tornam comuns, e não é proposital. Opinião e gosto são subjetivos, então porque uma crítica ruim pode nos deixar desanimados ou sem vontade alguma de ir ao cinema? Bem, isso não é algo fácil de responder, caso houvesse uma resposta concreta. Podemos até chegar à conclusão de que somos influenciados por aqueles que possuem um conhecimento técnico maior do que o grande público, mas ao falarmos de Roger Ebert, excluímos essa possibilidade.

Ebert foi considerado o maior crítico de cinema. Foi o único a ganhar o Prêmio Pulitzer com suas resenhas e suas colunas eram publicadas em mais de 200 jornais americanos, além de ter publicado 15 livros e ganhar uma estrela na Calçada da Fama. Ebert trazia uma visão humanizada em suas críticas, e pouco técnica, e sempre dizia que um bom filme deveria parecer novo a cada vez que você o assistisse. Roger Ebert pensava bem e escrevia bem, mas não tinha educação formal em cinema, e mesmo assim, fez a diferença no meio. “Sua cabeça pode ficar confusa, mas suas emoções nunca mentem”, dizia.

Ebert pode servir de referência aos críticos atuais, principalmente aos que se atem à crítica mais formal e técnica. O público sabe, que no final, a emoção fala mais alto, apesar da falta de técnica – ou não. O crítico não perde sua importância, seus anos de estudo e análises demonstram que seu conhecimento e visão técnica também são importantes para influenciar seu gosto, e consequentemente, na nota do filme, mas o público insiste em persegui-los.

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Infelizmente, o título de “mestre” que o crítico recebe acaba prejudicando seu trabalho. Filmes vencedores de Cannes, aclamados pela crítica, são, em quase todas as suas vezes, desprezados pelo grande público e o filme blockbuster e totalmente comercial, amado pelo público, é, certas vezes, desprezado pela crítica. Esse embate, principalmente entre críticos de renome e público, dificilmente deixará de existir, já que esse mesmo público insiste em não procurar entender o porquê daquela nota ou entender trabalhos passados do crítico. Com os filmes não é diferente. Observar o trabalho passado do diretor demonstra seu estilo e sua técnica, e isso influencia, às vezes, muito mais que uma crítica. Quando o público viu que Brad Pitt, Jessica Chastain e Sean Penn estavam em um mesmo filme, a curiosidade bateu e correram para os cinemas, mas esqueceram de ver que Terrence Malick é o diretor de ‘Árvore da Vida’ (2011). Malick é um diretor técnico com filmes importantes e com um forte apelo em grandes premiações, como Cannes. A crítica só elogiou, mas por ser um filme artístico, o grande público se sentiu traído e decepcionado, não entendo os elogios.

Com a vinda da internet, novas portas para novos críticos foram abertas, espaço esse que permite que qualquer um abra a boca. Não se trata de proibição, mas é importar frisar que é necessário um certo repertório antes de expor uma opinião, para que esta seja minimamente embasada. O crítico profissional, aquele de revistas e jornais, aos poucos está se esvaindo, seja por conta da tecnologia ou pelo ofuscamento diante dos novos formadores de opinião da internet. Mesmo que isso não seja de todo o mal, também está longe de ser extremamente positivo, principalmente quando pessoas pouco capacitadas expõe suas opiniões e/ou ideologias para uma massa de seguidores.

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A crítica é parte fundamental do que entendemos por cinema. Por exemplo, ‘Batman vs Superman’ (2016) pode ter tido um rendimento negativo na crítica, mas foi graças a ela que o longa se tornou o filme mais falado do ano até agora. A crítica necessário, mas precisa se adaptar novamente. Do mesmo modo que a crítica sofreu mudanças no passado quanto sua linguagem e expressão, nos dias de hoje não pode ser diferente.

Críticos de mídias clássicas ainda não encontraram seu lugar hoje em dia, ainda são ofuscados por grandes nomes da internet e sofrem para ter seus textos reconhecidos pelo grande público. O espírito Roger Eberts precisa fazer parte do meio crítico novamente. Uma crítica leve e sincera, sem uma linguagem extremamente técnica. Uma crítica objetiva e longe de ser vendida. Cinema é isso, é discutir, analisar e debater, existe algo mais lindo no cinema que isso? Vamos criticar, porque o crítico não pode deixar de existir e o público não pode se deixar ser influenciado, tem que duvidar, traçar sua opinião e apresentar seus pontos. Apesar de existir os profissionais, devemos continuar críticos.